DETROIT EM REBELIÃO (Crítica)

Pedro Vieira

Tem sido característica cada vez mais proeminente nos trabalhos recentes de Kathryn Bigelow a exposição dos problemas que cercam figuras e organizações governamentais dos Estados Unidos. Depois de ter mostrado o modo como a CIA utilizava de torturas em interrogatórios contra prisioneiros políticos em seu “A Hora Mais Escura”, não é de se estranhar que o novo projeto da diretora busque evidenciar uma questão bastante recorrente no país: o abuso de poder por policiais brancos contra negros.

Para oferecer um quadro desse problema, o filme “Detroit em Rebelião” (Detroit) se foca em um acontecimento trágico do fim dos anos 60, durante o ápice das rebeliões em bairros pobres de Detroit: o incidente no Motel Algiers. A história foca em quatro personagens: o vigia noturno Dismukes (John Boyega); o policial racista Krauss (Will Poulter); e os amigos Frank (Algee Smith) e Fred (Jacob Latimore). Os quatro acabam se envolvendo no incidente do motel, quando a polícia é avisada que um possível atirador estava escondido em um dos quartos do local.

Embora focado em um determinado acontecimento, o filme demora a chegar ao seu evento principal, já que há uma busca do roteiro em mostrar como a discriminação racial cresceu nos Estados Unidos e a origem das rebeliões nos primeiros minutos do longa. E mesmo quando a produção encontra seu desfecho ela fica mais ágil, pois busca exibir todas as consequências e etapas do processo judicial causado pelo incidente do Motel Algiers. É algo louvável? Sim, porém, cansativo demais e torna a obra um pouco maçante.

DETROIT EM REBELIÃO (Crítica)

A exposição demasiada, aliás, é algo que prejudica o filme até mesmo em momentos menores, como se ele tentasse “mastigar” a história e seus detalhes para o espectador, para que este compreenda tudo o que ocorre sem precisar queimar seus neurônios. Acontece que esses detalhes que ele explica acabam sendo óbvios demais. Um exemplo: em determinada sequência, dois personagens explicam como os policiais abordam os negros de forma violenta. Não há nenhuma outra serventia para esta cena no roteiro se não explicar para o próprio espectador como essa violência funciona, algo totalmente desnecessário, já que este é elemento chave da narrativa, sendo esperado que o espectador já tenha compreendido sua gravidade e funcionamento até aquele momento.

Ainda assim, Bigelow sabe como conduzir um longa e o filma de modo quase documental, com uma câmera em constante movimento, como se o espectador/observador estivesse de fato presente no meio de todos aqueles eventos. Ao mesmo tempo, a diretora sabe em quais sequências precisa deixar a câmera parada e focada para amplificar a dramaticidade da trama e as emoções de seus personagens.

Muito dessa tensão dramática se dá também graças à atuação de seus protagonistas, e se Smith e Latimore demonstram possuir uma ótima química para fazer com que sua amizade cresça na tela, é Boyega e Poulter quem roubam a cena, o primeiro por conseguir transpassar o pesar de seu personagem pelo olhar, e o segundo pela vivacidade com que interpreta o odiável policial.

Há, porém, uma questão em relação a crueza com a qual o filme retrata a violência contra negros, algo feito sem nenhuma censura, tanto na agressão física, quanto nos xingamentos deferidos contra os personagens. Essa crueza em partes se justifica pelo objetivo do filme em denunciar a violência, mas há também uma pequena falta de tato em alguns momentos – algo extremamente necessário em um filme que trata de uma questão tão polêmica.

“Detroit em Rebelião” é um filme importante, e mesmo com seus problemas, ele se compensa pelo modo como envolve o espectador em seus momentos mais importantes. Tudo graças a Bigelow, que já se firmou como uma das mais talentosas e importante diretoras da atualidade. É esperado que ela continue sua ótima trajetória e ofereça mais filmes que denunciem problemas sociais e políticos à grande audiência.

Pôster de divulgação: DETROIT EM REBELIÃO

Pôster de divulgação: DETROIT EM REBELIÃO

SINOPSE

No ano de 1967, Detroit vive cinco dias de intensos protestos e violência. Um ataque policial na cidade resulta em um dos maiores tumultos na história dos Estados Unidos, levando à federalização da Guarda Nacional de Michigan e ao envolvimento de duas divisões aéreas do Exército americano.

DIREÇÃO

  • Kathryn Bigelow Kathryn Bigelow

  • FICHA TÉCNICA

    Roteiro: Mark Boal
    Título Original: Detroit
    Gênero: Drama, Suspense
    Duração: 2h 23min
    Classificação etária: 14 Anos
    Lançamento: 12 de outubro (Brasil)

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