DIÁRIOS DE MOTOCICLETA (Crítica)

Juca Claudino

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Motorcycle Diaries
Ano do lançamento: 2004
Produção: Brasil, EUA, Argentina, Peru, Chile
Gênero: Drama
Direção: Walter Salles
Roteiro: Jose Rivera
Classificação etária: 14 Anos

Sinopse: Che Guevara (Gael García Bernal) era um jovem estudante de Medicina que, em 1952, decide viajar pela América do Sul com seu amigo Alberto Granado (Rodrigo de la Serna). A viagem é realizada em uma moto, que acaba quebrando após 8 meses. Eles passam a seguir viagem através de caronas e caminhadas, conhecendo novos lugares e pessoas. Em Machu Pichu a dupla conhece uma colônia de leprosos e questiona a validade do progresso econômico da região, que privilegia apenas uma pequena parte da população.

Título: Diarios de Motocicleta.

Desde o México até o Estreito de Magalhães.

“Há dois lados na divisão internacional do trabalho: um em que alguns países especializam-se em ganhar, e outro em que se especializaram em perder. Nossa comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se abalançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta. Passaram os séculos, e a América Latina aperfeiçoou suas funções. (…) A região continua trabalhando como um serviçal. Continua existindo a serviço de necessidades alheias, como fonte e reserva de petróleo e ferro, cobre e carne, frutas e café, matérias-primas e alimentos, destinados aos países ricos que ganham, consumindo-os, muito mais do que a América Latina ganha produzindo-os.”

Tais palavras foram escritas pelo pensador uruguaio Eduardo Galeano em seu influente livro “As Veias Abertas da América Latina”, um retrato da história do subdesenvolvimento latino-americano construído às custas do desenvolvimento do capitalismo mundial. A desigualdade nas relações da Divisão Internacional do Trabalho, as elites locais da América Latina prontas a lucrar às custas de suas injustiças sociais, a subordinação econômica e política aos países ricos caracterizada, por exemplo, pelo imperialismo. Eis que Walter Salles lança um filme que consegue pautar de forma objetiva e contundente tal temática: “Diários de Motocicleta” é um sentimental e impactante manifesto latino-americano denunciador de seu processo histórico, além de uma ode à cultura e à identidade latino-americano. Um dos mais marcantes filmes do diretor de “Central do Brasil”, que aqui constrói uma beleza estética deslumbrante e desenvolve uma narrativa apaixonante e emocionante.

O filme inicia-se de forma “despretensiosa”. Desde seu começo, existe uma frieza realista, mas na sua primeira metade esta é acompanhada de uma atmosfera agridoce. Atmosfera essa durante sua primeira metade pois “Diários de Motocicleta” baseia-se mais em uma espécie de crônica “road movie” retratadora dos sentidos da amizade entre Ernesto e Alberto Granado (vivido com bastante personalidade por Rodrigo de la Serna). O visual naturalista é estonteante, e tudo se dirige para essa construção sutilmente melodramática entre dois amigos reforçando o sentido de seus laços. Todavia, quando alcançamos uma cena no deserto do Atacama em que Ernesto e Alberto encontram dois mineiros em situação socialmente marginalizada, Walter Salles opta por abandonar a leveza de filmar sobre os sentidos da amizade e adota o fardo de debater as veias abertas da América Latina. Um dos mineiros diz: “não tínhamos muita coisa, só umas terras secas e difíceis. Eram nossas, até que chegou um fazendeiro e nos botou para fora”, e a mineira que estava ao seu lado complementou: “e chamam isso de progresso” – em tom irônico, obviamente.

A sequência em questão é expressivamente riquíssima se querermos entender “Diários de Motocicleta”. Na cena seguinte ao diálogo com os mineiros, Ernesto e Alberto, membros da classe média, observam um grupo de trabalhadores pobres em condições degradantes – semelhantes, inclusive, à escravidão – sendo explorados de forma desumana pela Annaconda Mine Company na mina de Chuquicamata (Chile). Além de existir realmente, o nome desta empresa multinacional que explora as riquezas do solo chileno em nome do capital estrangeiro recorre a um poema do escritor também chileno Pablo Nerudo, intitulado “A Anaconda Copper Mining Co.”.

“(…)
Já vi arder na noite eterna
da Chuquicamata, nas alturas,
o fogo dos sacrifícios,
a crepitação desbordante
do ciclope que devorava
a mão, o peso, a cintura
dos chilenos, enrolando-os
sob suas vértebras de cobre,
esvaziando-lhes o sangue morno,
triturando os esqueletos

(…)
a grande serpente os devora,
e diminui, e os tritura,
e lhes cobre de baba maligna,
e os atira pelos caminhos,
e os mata com a polícia,
e os faz apodrecer em Pisagua,
e os encarcera, e os cospe,
compra um Presidente traidor
que os insulta e persegue,
e os mata de fome nas planuras
da imensidade arenosa”

Tais versos do poema em questão explicitam não só os sentidos opressores do imperialismo – que com suas multinacionais oriundas dos países ricos abarcam no continente latino-americano explorando seus recursos naturais e sua “mão de obra barata” (já que no capitalismo o ser humano torna-se uma mercadoria) – como também explicita a fragilidade da “democracia” (quando não uma ditadura) dos países latinos, onde sua oligarquia – como chamou Neruda em outros de seus poemas -, ou então suas elites econômicas, dominam os interesses do Estado, obrigando-o a submeter-se à agenda subordinada à manutenção da Divisão Internacional do Trabalho (e consequente alargamento das desigualdades sociais) – algo que Neruda explicita com “a grande serpente os devora, (…) compra um Presidente traidor, que os insulta e os persegue”. No caso do Brasil, Sérgio Buarque de Hollanda evidencia isso ao afirmar que no nosso país “a democracia é um grande mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal incorporou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos e privilégios (…)”.

A partir desse choque, o filme se torna o diário de um alguém – o qual sua vida toda esteve ao topo da pirâmide social – descobrindo o peso histórico da América Latina, de sua formação conturbada e de sua estrutura social brutalmente desigual. Porém, é claro que quando este “alguém” é o futuro Che Guevara (interpretado aqui de forma notável por Gael Garcia Bernal), esse processo de descobrimento ganha uma imponência impetuosa. “Diários de Motocicleta”, desde então, mantém-se na sua pegada realista, porém rejeita o otimismo anteriormente presente e adota uma atmosfera mais aflitiva e penosa: as marcas da pobreza latino-americana corroem a inocência antes presente. “Diários de Motocicleta” se torna mais cru, mais pujante, mais ríspido, se torna depressivamente perturbador quanto mais a fundo nas veias penetra. Todavia, Salles opta por balancear tal sentimento incômodo com um espírito esperançoso pela busca da justiça, que cada vez mais cresce no peito dos personagens protagonistas – construindo um desejo utópico que, de certo modo, é uma coisa a qual o filme em sua conclusão transmite.

A película nos dá ainda um panorama mais perturbador: faz uma reflexão sobre a dominação cultural, muito bem explicitada na fala “os incas tinham um alto conhecimento de astronomia, medicina, matemática e diversas outras coisas. Mas os invasores espanhóis tinham a pólvora”. Faz, em uma cena ocorrida em Cuzco, uma espécie de reconstrução da imposição aos americanos das crenças e dos valores pertencentes aos mesmos invasores ibéricos: “Cuzco era a capital dos incas. Mas quando os espanhóis vieram, começaram a destruir tudo e fundaram a capital Lima”, disse Nestor, um indígena, enquanto apontava para a igreja feita pela Companhia de Jesus.

O visual e a estética de “Diários de Motocicleta”, por sua vez, são belíssimos não só pela delicadamente decadente fotografia assinada pelo francês Eric Gautier (realizador da fotografia também de “Na Natureza Selvagem”), que com seus tons frios e planos expressivos impõe uma dramaticidade à “Diários de Motocicleta”, mas também pela tocante trilha sonora assinada pelo consagrado músico argentino Gustavo Santaolalla (vencedor do Oscar pelas trilhas de “O Segredo de Brokeback Mountain” e “Babel”), que agrega certa melancolia ao longa com seus acordes dolentes – a composição tema do filme, “De Usuahia a la Quiaca”, reflete bem a alma de “Diários de Motocicleta”: merencórica, porém esperançosa e idealista.

Mas se é de música que estamos falando, como não citar “Al Otro Lado del Rio”, canção composta pelo músico uruguaio Jorge Drexler. Tal música – escrita unicamente para o filme – faz referência a talvez o ponto mais bem trabalhado de “Diários de Motocicleta”: a forma como aborda e retrata sensatamente a marginalização da sociedade pobre em um continente marcado pelo subdesenvolvimento, proporcional à marginalização da América Latina na DIT e no mundo globalizado. Até porque, sinônimo de não-desenvolvimento é desigualdade social. E como é feita essa ligação? Bom, o título da música de Drexler faz referência a cena do aniversário de Ernesto Guevara (uma das últimas do filme), celebrado enquanto os dois protagonistas (que tinham formação na área da saúde) faziam estadia em um hospital especializado para pacientes com hanseníase. Para não me acusarem de spoiler, direi apenas que tal cena sintetiza a inconformidade que Ernesto e Alberto sentem frente a marginalização social que avistaram. Inconformidade essa que, se observassem o continente latino-americano hoje, continuariam sentindo agudamente.

Recentemente, uma série de países latino-americanos vivenciam episódios na sua vida política nos quais o discurso autoritário e conservador, marcado pelo ódio de classe, ganha força em meio a crises políticas. Nos últimos 200 anos o planeta sofreu um alargamento de suas desigualdades sociais mais intenso do que em qualquer outro momento histórico e, ainda esse ano, o Fundo Monetário Internacional – um dos maiores defensores do Estado Mínimo – informou que as políticas neoliberais não estão progredindo no objetivo de diminuir as injustiças sociais no mundo (aliás, pelo contrário: “em vez de gerar crescimento, algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade”, afirmaram três economistas da instituição). Motivos mais do que expressivos para provar que “Diários de Motocicleta”, dirigido por Walter Salles, será um filme de debate atual por muito tempo ainda.

PRÊMIOS

OSCAR
Ganhou: Melhor Canção: Al Outro Lado Del Rio
Indicação: Melhor Roteiro Adaptado

GLOBO DE OURO
Indicação: Melhor Filme em Língua estrangeira

BAFTA
Ganhou: Melhor Filme em Língua estrangeira
Indicações: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator – Gael Garcia Bernal, Melhor Ator Coadjuvante – Rodrigo De la Serna, Melhor Fotografia

FESTIVAL DE CANNES
Ganhou: Melhor Filme (Prêmio François Chalais), Melhor Direção pelo júri
Indicação: Palma de Ouro

GRANDE PRÊMIO DO CINEMA BRASILEIRO

Indicação: Melhor Filme em língua estrangeira

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