Do Jeito Que Elas Querem (Crítica)

Ricardo Rocha

O Bom e Velho Clube do Livro

Quatro grandes amigas decidem levar para suas vidas o tão famigerado livro “Cinquenta Tons de Cinza”, lançado em 2011 pela escritora (estreante) E. L. James, no intuito de tentarem elevar a autoestima e apimentar a relação delas com seus parceiros, ou pelo menos tentar uma relação nova como é o caso de duas delas. Vamos deixar de lado o poder feminino a frente do tempo de Jane Austen, ou grandes clássicos como “Moby Dick” que é citado brevemente por uma delas, e ler algo mais… contemporâneo por assim dizer.

Até aqui, parece mais uma história sobre mulheres tentando achar uma voz no mundo insano dominado por homens machistas e cheios de ego. Ok. Estamos falando de quatro amigas que já passaram da casa dos 60 anos. E pode apostar, que na vida real, elas tem muito mais que isso. E não soa deselegante falar a idade delas. E é justamente isso que o filme dirigido e escrito por Bill Holderman (mais um homem falando sobre mulheres) tenta passar ao seu público alvo, mulheres (não importa a idade) que nunca é tarde para começar um novo amor, apimentar um relacionamento, e falar sobre sexo.

Vamos melhorar um pouco este filme. No elenco temos a maior musa viva do cinema americano Jane Fonda (Gracie & Frankie) aos 80 anos de idade, e totalmente em forma. Eu até fui pra mais perto da tela, pois não acreditava no quanto àquela mulher parecia ter uns 20 ou 25 anos a menos do que aparentava. Claro que com 2 Oscares em mãos, e uma carreira triunfante, só o fato dela aparecer em tela, faz você querer ver o quanto essa mulher é foda. Pra ficar ainda melhor temos a presença delicada e sensível de Diane Keaton (seu figurino parece ter sido tirado diretamente do filme Annie Hall, 1977 – único Oscar de sua carreira) ela ainda esbanja talento de sobra e sabe dominar uma tela de forma elegante, mas sem ser chato. Candice Bergen e Mary Steenburgen, duas grandes veteranas do cinema completam o quarteto de amigas da terceira idade mais loucas que eu já vi nos últimos anos.

Do Jeito Que Elas Querem (Crítica)

Elas já tiveram tudo, filhos, uma carreira no trabalho, um romance tórrido em algum momento da vida, são bem sucedidas, tem uma bela casa, e agora aproveitam cada momento para ler livros, beber algumas taças de champagne, tomar sorvete e jogar muita, muita conversa fora. A química entre elas funciona perfeitamente, e você realmente se convence que elas estão nessa de clube do livro há tantas décadas. Cada uma sabe exatamente a história da outra, as aflições, e muito é mostrado com o talento delas com pequenos gestos, como um olhar, já que o roteiro não é lá grandes coisas, e que rende boas cenas orgânicas, e faz até você soltar alguns risos gostosos de filme de sessão da tarde.

Ainda vale destacar que no elenco temos Andy Garcia (Os Intocáveis) e Alicia Silverstone (As Patricinhas de Bervely Hills) – ambos coadjuvante de luxo, e totalmente desperdiçados, inclusive a Alicia que ultimamente vem aparecendo em papéis sem importância e de maneira apática (vide sua participação no filme “O Sacrifício do Cervo Sagrado”, 2018)

Dito isso, “Do jeito que elas querem” (título bem a brasileira) é uma comédia clichê disfarçada de uma grande propaganda da trilogia de livros “Cinquenta Tons de Cinza” com as cenas mais piegas e o final mais previsível que você imaginou com menos de 1 hora de filme. Algumas cenas parecem grotescas em sua execução, como a cena da dança do casal que estava tentando se redescobrir sexualmente na terceira idade. Ou as rimas visuais que o filme faz referenciando o filme “Cinquenta Tons de Cinza”(2015) – como a cena do avião em que Diane Keaton está ao lado do seu futuro pretendente que tenta mudar a vida dela, após a morte de seu marido, no caso o luto que já dura algum tempo. Perceba como a construção da cena lembra uma montagem mequetrefe dos anos 30 com as paisagens ao fundo destoando do avião a frente. Ou na cena, em que Jane Fonda mostra seu terraço particular para Andy Garcia, percebemos que tudo aquilo é um cenário, e que o fundo, onde vemos a cidade da Califórnia é sobre posta a parte. A trilha sonora é bem genérica, típica do gênero. Não tinha muito que esperar desse filme. Apenas tentei me divertir com as atuações, ou melhor, com os momentos que realmente engrandeciam a tela ao ver aquelas quatro atrizes falando sobre sexo na terceira idade como uma quebra de tabu.

Esperava ver esse tipo de filme sobre a visão de uma mulher, escrito por uma mulher, dirigido por uma mulher, um filme de mulheres sobre mulheres. Faltou mais sensibilidade, faltou compor um pouco mais de personalidade a cada uma dessas mulheres que fizeram a história do cinema. Faltou ser menos piegas, e mais corajoso (pelo menos nesse aspecto ele tentou) E ainda que seja uma simples comedia romântica sobre a terceira idade, já vi melhores e memoráveis.

Recomendo: “Garotas do Calendário” (2003), “Irina Palm” (2007), “Ensine-me a Viver” (1971) e o brasileiro “O Outro Lado da Rua” (2004)

Pôster de divulgação: Do Jeito Que Elas Querem

Pôster de divulgação: Do Jeito Que Elas Querem

SINOPSE

Nos arredores da Califórnia, quatro amigas de longa data estão na casa dos 60 anos e decidem ler no clube do livro mensal o romance Cinquenta Tons de Cinza. Esse não é o tipo de livro que elas leem normalmente, o que faz com que a vida dessas mulheres bem-sucedidas e inteligentes mude completamente.

DIREÇÃO

Bill Holderman Bill Holderman

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Bill Holderman
Título Original: Book Club
Gênero: Comédia
Duração: 1h 37min
Classificação etária: 12 Anos
Lançamento: 14 de junho de 2018 (Brasil)

Comente pelo Facebook