DRIVE (Crítica)

DRIVE

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FICHA TÉCNICA

Título Original: Drive
Ano do lançamento: 2012
Produção: EUA
Gênero: Ação, Suspense
Direção: Nicolas Winding Refn
Roteiro: Hossein Amini
Classificação etária: 16 Anos

Sinopse: Durante o dia um motorista (Ryan Gosling) trabalha como mecânico e dublê em filmes de Hollywood, enquanto que à noite ele presta serviços para a máfia. Ele é vizinho de Irene (Carey Mulligan), que é casada e tem um filho com Standard (Oscar Isaac). Percebendo a situação difícil de Standard, que saiu há pouco tempo da prisão, o motorista o convida para realizar um assalto. Só que o golpe dá errado, o que coloca em risco as vidas do motorista, Irene e seu filho.

Por Juca Claudino

A LENDA DO MISTERIOSO “DRIVER”

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A atmosfera de suspense, a estética oitentista e um uso de clichés muito bem orquestrado para gerar uma emocionalidade exagerada. Esse é “Drive”, uma experiência cinematográfica valiosíssima, que brilhantemente reconstrói o arquétipo, o personagem cliché do “cavaleiro solitário”, do “estranho sem nome”, para o submundo criminal da Los Angeles contemporânea. A complexidade sentimental de seus personagens e o estilo frenético, extravagante e neo-noir da película fazem da obra de Nicolas Widing Refn um dos mais interessantes filmes do século até aqui e uma colcha de retalhos muito, mas muito estilosa.

“Drive” é a junção de diversos elementos de estilos e clichés que são tão bem amarrados a ponto de tornar o filme inspirado no livro homônimo de James Sallis uma experiência cinematográfica interessantíssima: um misto de arquétipos folhetinescos contracenando com a exposição de complexidades emocionais. O “Driver”, interpretado Ryan Gosling, por si só já é um grande exemplo: diversas vezes comparados aos personagens de Steve McQueen e Clint Eastwood durante os anos 60/70, traz consigo o cliché do “vigilante solitário”, aquele que não tem passado, não tem nome, não tem história. Um alguém misterioso que encarna um anti-herói, vigilante e vingador, bem como o personagem do “Pistoleiro Sem Nome”, de Clint Eastwood na Trilogia dos Dólares, ou o “Harmonica”, interpretado por Charles Bronson em “Era Uma Vez no Oeste” (não disse que o filme adorava clichés folhetinescos?). Tal comparação já nos liga a uma das músicas-tema do filme, “Real Hero” (em português, Herói Real, de Verdade), um synthpop gravado pelas bandas College e Eletric Youth. Driver, um anti-herói, um vigilante noturno que, pelas palavras do diretor do filme Nicolas Widing Refn, “surge para proteger os inocentes contra a maldade dos homens e nesse processo ele exorcisa os próprios demônios e sacrifica-se pelo amor e pureza”. Bem como nos adiantou o diretor, o Driver também é um personagem cuja alma está demonizada, e tudo que mais deseja é fugir daquele contexto marginal e viver de forma tranquila, sem ter sua vida constantemente ameaçada noite após noite. Mas sabe, todavia, que é e sempre será um monstro, um ser instintivo e furioso domado por uma máscara de frieza e timidez, prestes a explodir.

Poderíamos fazer um texto apenas para a construção do personagem Driver, um dublê de filmes de ação e mecânico durante o dia, um motorista que auxilia assaltantes a fugirem da cena do crime à noite (a “dupla-identidade”, típica dos super-heróis, mas um retalho para a colcha). Além disso, à noite ele usa a sua jaqueta na qual há um escorpião estampado: além de um “uniforme” para a sua dupla-identidade, uma metáfora para quem é o Driver, um ser feroz e instintivo. Mas é a partir desse seu complexo psicológico que a trama do filme surge. Quando vê em Irene, uma garçonete que vive com seu filho Benicio (ainda uma criança), a vida que sempre quis ter, a aproximação com ela consequentemente gerará um momento de paz psicológica para o nosso protagonista. Irene, vivida também brilhantemente pela talentosíssima Carey Mulligan, se mostra um alguém descontente com sua realidade, repleta de conflitos e responsabilidades. Durante o início do filme, há momentos de imensa ternura pela forma como o romance amoroso surge entre os dois, momentos de amor e pureza, que são quebrados quando Standard, o personagem vivido por Oscar Isaac, marido de Irene, volta da prisão e traz consigo uma ameaça à vida daquela família. É aí que o nosso vigilante entra em jogo, em uma missão para proteger aquelas almas inocentes que tanto ama da maldade da ganância humana. E o filme migra da ternura para a ultraviolência, ao ver que aquela ameaça na verdade era um jogo de vida ou morte, aonde o “amor e a ternura” citados por Refn se encontram na figura inocente de Irene e sua família, e a maldade humana na ganância por dinheiro dos “vilões” (vividos por Ron Perlman, James Biberi e por um incrível Albert Brooks). É a velha história do Herói x Vilão – e toda a moral que isso pode transmitir. E o nosso herói, o Driver, pode ser feroz, mas seu instinto o guia para proteger aquilo que mais deseja para si: o amor e a pureza. Achou cliché? E olha, que ótimo uso de clichés!

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Mas de fato “Drive” não seria tão interessante caso o seu visual não fosse tão rico e extravagante. As referências visuais à década de 80, o rosa-choque e o roxo, o efeito de uma luz neon refletindo nos rostos dos personagens juntam-se à soundtrack com uma “dance music” típica da época. Isso dá um toque “urbano” e dinâmico à atmosfera, que por si só já é sombria, regada de bastante suspense. Mas um dos grandes trunfos do filme é como ele consegue carregar cada plano com uma emocionalidade exagerada. Cada cena ganha uma dramaticidade tão grande que todos os sentimentos e atos mostrados em tela parecem ganhar uma proporção épica. Não é à toa, portanto, que muito se utilizou o termo “neo-noir” para adjetivar esse filme, já que seus personagens carregam uma excentricidade emocional e a trama abusa do suspense psicológico. A trilha sonora, assinada por Cliff Martinez, junto com a fotografia de Newton Thomas Sigel (que também assinou a fotografia de “Os Suspeitos” e “X-Men”), são dois trabalhos incrivelmente realizados. A fotografia do filme tem uma paleta de cores com tons frios e um trabalho com a câmera que exagera em “(contra) plongées” e “slow motions”, e a trilha sonora utiliza canções ao longo do filme que servem como reforço narrativo: no momento em que Irene e o Driver aparentam uma ligação amorosa, a música “Under Your Spell” (da banda Desire) reforça isso; durante os créditos iniciais, onde estamos prestes a sermos apresentados ao personagem protagonista, a música assinada por Kavinksy com Lavefoxxx “Nightcall” já nos adianta, como se estivesse dialogando com o personagem de Ryan Gosling, que “há algo dentro de você, mas é difícil de explicar”; e em alguns momentos a grande alegoria do filme é reforçada pela já citada “Real Hero”. Achou cliché? E olha, que ótimo uso de clichés!

No fim das contas, o filme é uma valsa de elementos tão bem orquestrada que gera essa colcha de retalhos neo-noir, oitentista, extravagante. Ao mesmo tempo, um thriller psicológico. E ao mesmo tempo que tudo isso, repleto de personagens que trazem consigo uma personalidade tão forte que são imensamente cativantes: além de Gosling e Mulligan, Isaacs, Albert Brooks, Bryan Cranston, Ron Perlman. Todos atuando muito bem. “Drive” é como a releitura de uma mitologia (um conto de fadas onde o “amor e inocência” vencem a ganância) com um visual urbano e contemporâneo, e seu universo é estiloso, repleto de referências e uma experiência visual, cinematográfica e psicológica incrível, sentimental e impactante.

PS: Gente, isso é ficção! São metáforas e alegorias! Não queira sair na vibe ultraviolence como o Driver faz nas ruas!

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PRÊMIOS

GLOBO DE OURO
Indicação: Melhor Ator Coadjuvante – Albert Brooks

INDEPENDENT SPIRIT AWARDS
Indicações: Melhor Ator – Ryan Gosling e Melhor Ator Coadjuvante – Albert Brooks

FESTIVAL DE CANNES
Ganhou: Melhor Diretor – Nicolas Winding Refn

TRAILER

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