ED WOOD (Crítica)

ED WOOD

FICHA TÉCNICA

Título Original: Ed Wood
Ano do lançamento: 1994
Produção: EUA
Gênero: Comédia dramática, Fantasia, Biografia
Direção: Tim Burton
Roteiro: Colleen Atwood, Larry Karaszewski, Rudolph Grey, Scott Alexander, Stefan Czapsky

Sinopse: Um retrato exótico da vida de Ed Wood (Johnny Depp). Focando os relatos nos anos 50, quando o diretor se envolveu com um bando de atores desajustados, incluindo um Bela Lugosi (Martin Landau) em fim de carreira. Durante esta época, ele produziu filmes de péssima qualidade, que o fizeram passar para a história como o pior diretor de todos os tempos.

Por Guilherme Alves

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É mais um filme biográfico com relação a história do cinema. Mas um grande filme. Um dos maiores Burtons que você vai ver. O biografado não poderia ter mais a ver com a estranheza e o aspecto gauche da atmosfera burtonesca. Falamos de “Ed Wood”, de 94, 4 anos depois de outro Ed do Tim Burton (e também encarnado por Johnny Depp). É sobre o diretor, roteirista, produtor e ator de seus próprios, de mesmo nome do título. Ed era um profissional independente, coisa que beirava o surreal no meio do século passado, mas justamente nos tempos em que se seguiriam à morte de Wood, se tornaria o principal meio de sobrevivência alternativo na indústria do audiovisual, até chegar nos tempos de hoje, em que parece se tornar o verdadeiro protagonista deste ramo.

Para quem não conhece a história de Ed Wood, vale a pena dar uma passeada pela Wikipedia, e de quebra, dêem uma olhada na de Roger Corman, autodidata e multiprofissional como Ed, autor de mais de 400 filmes B, que ainda é vivo (e tem um documentário de 2010 muito interessante sobre ele), portanto viveu mais tempo que Ed para assistir a sua longa carreira nunca emplacar um grande sucesso, mas que, por outro lado, nos ensina que estamos muito enganados que só sobrevive de Cinema quem emplaca um grande sucesso (curiosamente, Roger, que sempre teve um olhar apurado para a Indústria, que sempre soube bem a teoria mas parece nunca ter sido bem sucedido em aplicá-la na prática deu a ignição inicial para as carreiras de diversos atores e diretores hoje consagrados, de Jack Nicholson e De Niro, a James Cameron e Martin Scorcese, e inclusive, do próprio Tim Burton).

Uma característica importante é que Ed Wood não tinha fãs como tem hoje, nem sequer o reconhecimento que tem hoje (que é baixo, para os padrões atuais, mas não para os dos anos 50). Eu acredito que isso, em parte é explicado porque nós somos menos inocentes hoje. Vivemos num tempo recrudescido, em que certas engrenagens do Sistema já foram expostas, antes o showbusiness e a imagem, novidade da época, eram o bastante para esconder tudo e servir para mais do que entreter, mas também para determinar ao público uma direção a olhar. Ed wood não teria mesmo espaço naqueles tempo, era tão inexperiente para este nível de dissimulação que até parecia uma criança ouvindo as sábias palavras de um veterano do showbusiness (um vidente charlatão que apresenta um programa de TV) para ele em dado momento do filme “isto é o showbizz, Ed, é tudo sobre imagens e ilusões, eu falou um monte de besteiras, coisas que eu invento, mas as pessoas acreditam porque eu uso um smoking” (nossa, parece até que eu vivo nessa realidade…). Hoje, estamos menos inocentes e mais realistas e, por isso mesmo, procurando mais alternativas, outras visões, e tudo o que é independente, de repente ganha mais e mais espaço, cresce, vira até campanha publicitária, ser ‘indie’ se torna um modo de vida. Ed wood tem fãs hoje, não porque é um daqueles gênios incompreendidos em sua época e que depois foi redimido pelo público, Ed tem fãs hoje porque nasceu na época errada, no tempo errado, hoje é o tempo do Independente como gênero, justamente porque reconhecemos hoje a luta de alguém que por seus próprios meios procura realizar seu sonho, justamente porque esta luta está evidenciada, você pode demonstrar sua vontade e sua ousadia gravando um vídeo para o youtube, e ganhar muito dinheiro assim, não precisa mais assistir a esta luta num programa de TV ou um filme, que te contam quem lutou assim, e como, quando e os porquês de ter lutado, o que dá margem até a manipulações ideológicas. Além do mais, o artista independente é alguém que trilha seu caminho, sem ter que se vender a um mágico, um condutor, alguém que o guie pelo caminho que ele não construiu. Por outro lado, naquela época mal o público sabia o que acontecia nos bastidores do entretenimento, e nem se importavam com isso, tinham mais coisas para ocupar a cabeça (guerras, a “ameaça comunista”, a “crise dos mísseis”, a escalada do consumismo, o “american way of life”, o próprio crescimento da indústria do entretenimento, com a escalada de sucesso e o ineditismo do rock’n’roll e do cinema falado em cores, enfim, um século XX em pleno vapor), porque tudo era direcionado (a mídia direcionava completamente as preocupações das pessoas para todas as questões contemporâneas, o que não é diferente hoje, mas hoje podemos andar com nossas próprias pernas e saber quais destas preocupações são realmente preocupantes e quais não o são).

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Hoje, nos tempos da internet, nós mesmos podemos optar por sermos direcionados, ou por seguirmos nossas direções, e até alterná-las. Do lado dos profissionais, e aqui, especificamente do show business, esta incapacidade e verdadeira orfandade de quem ficava sem este apoio paternal do grande estúdio ou do grande produtor, só levava a um caminho possível: a decadência (e isso inclui frustrações, depressão, decadência moral, mergulho nas drogas e vícios). E foi o que trilhou Bela Lugosi, bem como tanto outros atores, naquilo que eu chamaria de um grande “genocídio artístico” que Hollywood provocou ao seguir a lógica de mercado, e não mais exclusivamente aquilo para o que nasceu: a arte. A ganância cegou os olhos dos empresários e foi a Era das grandes estrelas do cinema mudo que se tornaram verdadeiros zumbis errantes, arrastando seus próprios passados em busca de seu “grande último papel”, de sua “grande volta”. Um resto de vida alimentado por um sonho cruel, que a indústria do cinema jamais permitiria que fosse realizado, como nos mostraram muitos filmes, o mais recente, badalado vencedor de vários prêmios, o francês “O Artista”, também o clássico de Billy Wilder, “O Crepúsculo dos Deuses”. Isto, inclusive, evidenciou uma daquelas engrenagens que eu falava, mostrando que nem tudo era lindo e célebre no mundo das celebridades, quando o interesse mudou, toda uma grande máscara caiu, e a imprensa da época, especialmente a sua faceta paparazzi e fofoqueira não perdoou, mostrando todo este nefasto e sombrio bastidor da beleza Hollywoodiana, este subsolo dos parques da Disney. E tudo isto está bem representado aqui também, aliás, muito bem representado, com Martin Landau me fazendo acreditar que realmente era Bela Lugosi quem Tim Burton contratou para representar a si mesmo no filme (eu juro que só fiz as contas das datas, da idade de Bela e da morte e caí na real quando ele morreu no filme, eu pensei, “é claro, Guilherme, Bela Lugosi morreu…”), eu me fiz a mesma pergunta com relação ao Bela que foi reiteradas vezes feita ao Ed Wood quando buscava possíveis patrocinadores para seus filmes, apresentando como maior atrativo a presença de uma estrela do quilate de Lugosi: “mas ele não morreu?”. Tim Burton, seu mestre das ilusões!

Landau estava grande, Burton estava grande na direção (e eu me pergunto o que aconteceu, pois visivelmente diminuiu; teria ele sido vítima fatal do sedutor canto da sereia dos grandes estúdios e do sucesso?) mas claro, também Johnny Depp, sempre representando Johnny Depp representando algum papel, mas nós gostamos disto, afinal ele faz isto muito bem (as suas “caras e bocas” não mudam, ele sempre é o Johnny Depp brincando de ser alguém, o que é divertidíssimo de ver e apostar como vai ser). É até interessante notar várias referências e semelhanças que quase explodiram minha cabeça: Tim Burton, Johnny Depp, Bela Lugosi e Ed Wood têm algo em comum. Burton opera mais ou menos como um Ed Wood que deu certo, um Ed Wood em quem os grandes estúdios viram um futuro e uma possibilidade de abarcar justamente aquele mercado que eu falava que hoje é grande, e nos anos 90 era crescente, o gênero independente. Johnny Depp é o Bela Lugosi de Tim Burton, claro, transferidos para os tempos de hoje e par aoutro contexto, com todo o glamour e reconhecimento que possuem e, nenhuma dificuldade, que era tudo o que a outra dupla, Ed/Lugosi possuía. Falo isto porque a mesma relação de amizade e lealdade que se estabeleceu entre os dois, é a que vemos entre Tim e Depp, inseparáveis, Depp atuou em 90% dos filmes de Tim Burton, e parece ser uma amizade duradoura, que se um dia fossem transportados para aquela atmosfera e realidade dos tempos difíceis que era a de Ed Wood, eles provavelmente se ajudariam e Burton acabaria filmando uma última cena, delicada, inspirada e emblemática, de um Depp decadente cheirando uma flor e “sentindo a beleza da vida” (esta referência você só vai entender se assistir ao filme, fica a dica). Ao passo que outra semelhança entre as quatro personagens é a paixão pelo estranho, pelo terror, pela atmosfera dark, pelo independente, pelo imaginário (que volto a fazer uma crítica ao Burton, que parece que perdeu algumas dessas paixões).

O diretor conseguiu representar com muita competência uma história de superação que se não fosse trágica, seria bem humorada, como o tragicômico que o filme mostrou. Fotografado em preto e branco, no melhor estilo noir de atmosfera lúdica, que Tim Burton tem muita propriedade em transitar. Personagens impagáveis, como o homossexual amigo de Ed, ao melhor estilo “bicha velha conselheira” (desculpe-me se o terno ficou ofensivo, mas não tem maneira melhor para descrever as características do personagem) e que sonha com a sua mudança de sexo, o qual um elegante e contido Bill Murray interpreta sem escrachar, ou o ex-lutador de vale tudo, Tor Johnson, que se torna um dos mais marcantes atores de filmes de terror B na época depois que Wood o transforma em ator, tendo sua máscara, oriunda de um personagem de um filme de Ed sido a mais vendida nos Halloweens dos EUA durante anos. Aos trancos e barrancos um homem tentando fazer sua carreira, correndo atrás de seu sonho, que aliás, era sua única ganância. O que evidencia bastante a sua ingenuidade é a extrema sinceridade com que ele tratava sua obra, e como ele a vendia para os outros (talvez o motivo de seu fracasso comercial). Até mesmo filmando ele queria retratar com verossimilhança as cenas fictícias (escalar travestis reais para os papéis de travestis no seu primeiro filme, o personagem Lobo batendo na parede e entalando na porta, as cruzes de papelão caindo no meio da cena). Sua ficção era fruto de um processo onírico, mas era verdadeira, em primeiro lugar, porque ele acreditava nisso quando filmava. Até as ilicitudes que Ed cometia nesta busca eram inocentes. Furto de um polvo gigante de um estúdio de Hollywood, ficar em cima de atores e artistas decadentes como urubu na carniça, enganar e contar pequenas mentiras, se aproximar de figuras tão tortas e insólitas como ele (uma das coisas mais engraçadas é seu estranho fetiche por pele de angorá e também por vestir roupas femininas e ter que explicar isto pros outros). Andar realmente pelo submundo e acompanhado do substrato e do reciclado da indústria do Cinema. E até no seu maior momento de glamour, que surge muito emocionante no filme e como uma homenagem linda (a estreia de seu maior “sucesso”, “Plano 9 do Espaço Sideral”) toda a sua a grandeza é simples e desajeitada, desajustada. Se você já assistiu mais de um filme de Tim Burton, e é bem capaz que já tenha assistido uns três, no mínimo, é um dever cívico você conhecer este “Ed Wood” também!

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PRÊMIOS

OSCAR
Ganhou: Melhor Ator Coadjuvante – Martin Landau, Melhor Maquiagem

GLOBO DE OURO
Ganhou: Melhor Ator Coadjuvante – Martin Landau

Indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Comédia/Musical – Jhonny Deep

BAFTA
Ganhou: Melhor Maquiagem

Indicação: Melhor Ator Coadjuvante – Martin Landau

FESTIVAL DE CANNES
Indicação: Palma de Ouro – Tim Burton

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