ELA VOLTA NA QUINTA (Crítica)

ELA VOLTA NA QUINTA

Por Juca Claudino4estrelas

“O encanto que vive em Contagem (e tantos outros lugares…)”

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O cinema brasileiro hoje vem conhecendo novas faces que despertam o interesse por sua proposta artística em um âmbito independente. O que falar do cinema-denúncia de Adirley Queirós ou então da relação homem x sociedade a qual Gabriel Mascaro sempre nos angustia com? Porém, talvez nenhum diretor até o momento tenha se mostrado tão humano e, sobretudo, delicado como André Novais Oliveira e seu “Ela Volta na Quinta”. Este é um filme sobre viver. Não entra no debate existencial sobre “o que é viver?”. Simplesmente destrincha esse ato em uma dimensão emocional e lírica, dentro da vivência cotidiana, algo como uma crônica. O filme de estreia de André Novais Oliveira consegue usar de uma estética realista, com uma espécie de frieza na fotografia, mas que por ela transcende uma doçura e uma sensibilidade dignas de um cinema autoral ímpar, colocando uma família de subúrbio e negra no centro da história com o cenário da periferia mineira – com isso não só dando maior representatividade ao cinema brasileiro mas quebrando com o estereótipo de que em filmes com tal cenário, só é possível fazer obras de denúncia social ou algo que o valha. Aqui, o que vemos são personagens cotidianos e suas cotidianas indecisões, coisas tão comuns a todos, porém vista de um ponto de vista muito mais poético.

No Festival de Brasília de 2014, o filme “Ela Volta na Quinta” estreava em meio a alguns nomes que já levavam muita expectativa sobre suas próximas produções: Gabriel Mascaro havia lançado o documentário “Domésticas” em 2012, e era elogiado pela crítica com seu “Ventos de Agosto”. Adirley Queirós, que em 2011 lançara “A Cidade É uma Só?”, e escancarava a hipocrisia social a qual o Brasil esconde em meio às suas cidades, agora trazia às telas “Branco Sai, Preto Fica”. Porém, no provável festival mais politizado brasileiro, a estreia em longas de André Novais Oliveira, um filme sobre as emoções cotidianas, também era destacada pela crítica. O diretor mineiro, a respeito como fez Queirós com sua Ceilândia, utiliza sua cidade natal como o plano de fundo, e no ambiente onde foi criado: a periferia de Minas Gerais, mais especificamente na cidade de Contagem. Logo, nota-se que Novais queria dar um tom intimista ao seu longa, buscando algo que lhe fizesse se reconhecer também. Segundo o diretor, “Ela Volta na Quinta” surgiu, segundo suas palavras, de uma necessidade bastante urgente que tinha de retratar a classe média-baixa e a periferia de uma grande cidade, com a atenção e o respeito devidos. E se não bastasse, o elenco do filme é composto por ele, seu pai, sua mãe e outros amigos e familiares, todos estreantes na atuação. E o resultado surgiu! Que filme delicado e humano: um pai desconfortável com os rumos de seu casamento, bem como a mãe, que era regida por muita nostalgia de sua infância, e por aí vai, tantos causos cotidianos e pensamentos comuns, vistos de um ponto de vista tão poético.

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“Ela Volta na Quinta” é um filme sobre viver. É um filme cotidiano, com personagens cotidianos, e aqui vivenciamos de forma bem cativante todos os seus questionamentos. Não questionamentos existenciais, como se estivéssemos em um filme de Malick ou Béla Tarr. Questionamentos propriamente… cotidianos, sobre a relação familiar e a busca por uma situação confortável, coisas corriqueiras e (por que não?) mundanas. A diferença é que Novais simplesmente dá uma pitada de doçura e começamos a ver o quão catártico isso pode ser, ou seja, começamos a ver beleza naquilo. A fotografia, assinada por Gabriel Martins, é fria, realista, com planos longos (em algum momento me lembrou até mesmo os filmes de Tsai Ming Liang), fazendo inclusive a IMDb qualificar o filme como “documentário” (o filme é uma ficção, por viés das dúvidas), e tanta “pujança” na estética na verdade apenas esconde uma sensibilidade e um encanto. É um efeito engraçado: o visual “vai contra” o conceito do filme? Não, eles conseguem dialogar, não só conseguindo dar um toque um pouco mais melancólico à película como também tornando tudo aquilo mais palpável, mais real. Cada cena é uma reconquista de nossa atenção, uma nova experiência que por entre a frieza superficial do filme brotará a delicadeza humana. E como a cereja do bolo, a trilha sonora do filme, composta por samba e MPB, que de forma notável serve como “reforço narrativo”: músicas como “Nada de Novo” de Paulinho da Viola e “Preciso Aprender a Ser Só” já denunciam aqui, bastante, o tom do filme.

Segundo André Novais, o filme tem um viés político uma vez que foi gravado em um lugar tão íntimo e passa uma sinceridade tão grande. Fazer um filme sobre a periferia, com protagonistas negros, de forma não estereotipada (diferentemente de “Um Suburbano Sortudo” e tantos outros) também, em si, quebra com muitos preconceitos, na vida não fictícia e também dentro do circuito cinematográfico. O diretor mineiro alcança um nível de honestidade e sensibilidade muito notável em seu “Ela Volta na Quinta”. Um filme encantador.

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SINOPSE

Grave crise no relacionamento de um casal de idosos afeta a rotina dos filhos, dois rapazes que se preparavam para finalmente saírem de casa.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: André Novais Oliveira
Título Original: Ela Volta na Quinta
Gênero: Drama
Duração: 1h 48min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: Livre
Lançamento: 25 de fevereiro de 2016 (Brasil)

TRAILER

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