ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (Crítica)

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

4estrelas

FICHA TÉCNICA

Título original: Blindness
Lançamento: 2008
Direção: Fernando Meirelles
Elenco: Juliane Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Gael Garcia Bernal, Dany Glover, Yusuke Iseva, entre outros.
Autor do livro: José Saramago (1995)
Roteiro: Don McKellar
Diretor de fotografia: Cesar Charlone
Produção: Rhombus Media, Bee Vine Pictures.

Sinopse: Uma inédita e inexplicável epidemia de cegueira atinge uma cidade. Chamada de “cegueira branca”, já que as pessoas atingidas apenas passam a ver uma superfície leitosa, a doença surge inicialmente em um homem no trânsito e, pouco a pouco, se espalha pelo país. À medida que os afetados são colocados em quarentena e os serviços oferecidos pelo Estado começam a falhar as pessoas passam a lutar por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários. Nesta situação a única pessoa que ainda consegue enxergar é a mulher de um médico (Julianne Moore), que juntamente com um grupo de internos tenta encontrar a humanidade perdida.

Por Loverci Ferreira

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Na época do lançamento do filme lembro que foi criada uma certa polêmica com as associações de proteção aos “cegos”, que alegaram que a pessoa que não enxerga não se torna um animal como é mostrado na história.

Desnecessária toda essa confusão a respeito do filme, porque o que acontece é que esse não é o foco principal da trama apresentada, mas sim mostrar a crueldade que o ser humano é capaz de infligir aos outros quando seus limites são testados.

Filmado em Toronto (Canadá), São Paulo e Osasco (Brasil) e Montevidéu no Uruguai, desde o principio o diretor optou por não focar em que país a história se passa, esta foi uma das exigências do autor do livro José Saramago (prêmio Nobel de literatura) ao roteirista Don McKellar (do filme Violino vermelho) que adaptou o texto.

A história começa quando ocorre uma epidemia de cegueira na cidade, de forma inexplicável não se sabe quanto tempo irá durar e de onde vêm, afetando a visão das pessoas que começam a enxergar apenas manchas brancas, por isso à doença começa a ser chamada de “cegueira branca”.

O primeiro infectado (Yusuke Iseva) acaba perdendo a visão enquanto dirige no trânsito caótico da cidade, sem sombra de dúvida filmar numa rua movimentada do centro de São Paulo, parando um carro em horário de rush deve ter sido um grande desafio para Fernando Meirelles que consegue uma tensão interessante ao colocar o “cego” andando em meio aos carros.

Logo a epidemia vai se espalhando por todo o país, começando pelas pessoas que tiveram contato com este primeiro personagem, uma coisa interessante no filme é que os personagens da história não tem nome.

Sou fã de carteira da Juliane Moore, sua presença na tela prá mim já vale o filme, neste ela interpreta a esposa do oftalmologista (Mark Ruffalo) que atende o primeiro paciente infectado e logo em seguida seu marido tem a visão afetada também.

Conforme todos vão sendo contagiados pela misteriosa epidemia, o governo decreta que devem ser afastados do convívio da sociedade e colocados sobre quarentena numa espécie de hospital para que não afetem o restante da população.

Como a esposa do médico não é afetada pela doença, ela finge estar cega para ir junto com seu marido, com o intuito de poder cuidar da sua saúde e uma vez isolados ela se sujeita a tratar dele como se fosse uma criança.

Mas o foco da trama não esta em mostrar a causa da doença ou sua cura, mas sim o desmoronar completo da sociedade que, perde tudo aquilo que considera civilizado, na mesma época de lançamento do filme houve uma enchente forte em Santa Catarina deixando muitas pessoas desabrigadas, a arte imita a vida real e vise versa, porque da mesma forma que às pessoas procuram se salvar saqueando lojas, supermercados e tudo mais para se alimentar no filme, a população deste local afetado pela enchente acabou fazendo a mesma coisa.

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No filme as pessoas doentes começam a lutar por suas necessidades mais básicas, expondo seus instintos primitivos e resultando num colapso da sociedade, conforme vai aumentando o número de pessoas cegas lentamente o serviço do Estado começa a falhar.

A direção de fotografia faz um trabalho impecável, abusando às vezes dos tons claros na tela como se o espectador estivesse sofrendo da “cegueira branca”, só o simples fato de ver a região do minhocão em São Paulo toda devastada, coberta de lixo, fezes, papéis, como se o mundo tivesse parado a beira de um caos e nenhum ser humano sobrevivido, vale a pena ser visto.

Após algum tempo essa mesma sujeira pode ser notada no hospital, com a falta de higiene, atendimento médico e comida, necessidades básicas de qualquer ser humano, a história vai ficando mais tensa ao mostrar a crueldade que o ser humano consegue impor aos demais em situações critica.

O abuso imposto pelos mais fortes aos mais fracos fica a cargo da interpretação perfeita de “Gael Garcia Bernal”, que primeiro lidera um motim e se proclama rei na instituição para roubar todos que se encontram ali e depois usar sexualmente as mulheres do lugar em troca de comida.

Dele também vem um dos momentos mais engraçados da trama, ao se dirigir aos internos da instituição no sistema de microfone do local ele começa a cantar a música de Stevie WonderI just called to say i love you”, piadinha de humor negro em relação ao cantor cego.

Uma das cenas mais lindas do filme é quando a personagem de Juliane Moore senta-se numa escada e percebe que vários cachorros com fome estão devorando o corpo de uma pessoa morta, outro cão se aproxima dela e começa a lamber seu rosto cansado e triste.

À chuva como eu muitos filmes aparece como elemento dramático, quando ela começa as pessoas saem de seus esconderijos para molhar seu corpo, como se a água caindo dos céus tivesse o poder de levar a doença junto com ela.

“Ensaio sobre a cegueira”, não deve ser focado na epidemia que é mostrada no filme, mas visto de outra forma, mostrando que só depois das pessoas voltarem a enxergar é que vão ver o mundo como realmente ele é, vivendo todos de forma harmônica depois de passarem momentos de sofrimento juntos e humanizando-se novamente.

Curiosidade: O autor José Saramago foi convidado para assistir ao lançamento do filme, mas por não se encontrar em bom estado de saúde, seus médicos recomendaram que não viajasse, assim Fernando Meirelles foi até sua casa em Lisboa para lhe apresentar o filme.

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PRÊMIOS

FESTIVAL DE CANNES
Indicação: Palma de Ouro – Fernando Meirelles

TRAILER

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3 Comentários

  1. Celina Borges

    Uma boa lição de vida.

  2. Andressa Buzzo Dias

    Eu assistir esse filme e fiz um seminário na escola maravilhoso