ESTOPÔ BALAIO (Crítica)

Juca Claudino

A ideia é essa: “miséria” traz tristeza e vice-versa

É até difícil de criticar “Estopô Balaio” enquanto roteiro, direção, inventividade técnica e etc. Talvez ele tenha lá suas questões com a forma a qual explora a linguagem cinematográfica: durante parte da projeção pensava como ficaria mais imponente se explorasse com maior autoria e expressividade os cenários urbanos que enquadra. Logo lembrei de Tsai Ming Liang, Jafar Panahi, ou aqui no Brasil, os que ainda têm muito para mostrar André Novais de Oliveira e Adyrlei Queirós, e aquele que já tanto nos brindou, Eduardo Coutinho. Enfim, nomes que sabiam e sabem enquadrar o meio urbano em suas conturbações e fragmentações (sobretudo sócio-econômicas) com significância, veemência e autoria.

Não que “Estopô Balaio” fosse insensível em suas cenas, bem pelo extremo contrário. Com uma ou duas câmeras na mão como tinham, nas dificuldades para gravar dado que não poderiam “projetar em storyboards” boa parte do que é filmado – simplesmente não é possível parar o Jardim Romano, bairro paulistano onde o documentário foi rodado, e o cotidiano daquelas pessoas para ensaios e testes da fotografia – é injusto cobrar algo que Eduardo Coutinho faria. Não havia a mesma comodidade que Cristiano Burlan, o diretor deste longa, teve quando produziu “Fome”, seu até então último documentário lançado, estrelado por Jean-Claude Bernadet e de onde inspirou belas e tonificantes imagens. Mas, honestamente, com a força que se comunica pelo que já mostra a partir da costura dos retratos de “Estopô Balaio”, a qual rende uma humana e gritante túnica de exclamação artística, é um absurdo se apegar à estético do documentário como se este dependesse disso. Um verdadeiro absurdo!

“Estopô Balaio” é de uma inquestionável força na sua construção de discursos, como disse, na “túnica humana e gritante” originada dos tecidos com o qual focaliza os embates registrados no documentário, mas que, contudo, são essencialmente dependentes e condicionados uns pelos outros. “Estopô Balaio” é de uma força brutal – digo quanto ao impacto moral e emocional – a partir de um inteligentíssimo roteiro.

Mas para que se ilustre os trunfos desse filme é necessário descrever sua sinopse, que não é bem uma sinopse, mas mais uma contextualização daquilo que as câmeras de Burlan se propuseram a filmar. Como dito, o filme “se passa” no Jardim Romano. Inicia sem pudor e carícias, e convenhamos que nada mais justo, nos lembrando que no bairro as chuvas trazem enchentes e enchentes destroem quase que a vida daqueles que afeta, estes que ganham um salário não causador de tantos confortos assim – e é óbvio que se ganhassem o mesmo que o patrão de muitos não ficaria expostos a tais ecatombes. Na lógica da desigualdade, na qual uns entram com o pé e outros com a parte em que as costas mudam de nome, o que o filme deixa logo claro na primeira cena é que este é sobre os que são chutados – e nos quais a patada costuma ser bem mais forte.

O “Estopô Balaio” do título é um coletivo artístico, situado no tal bairro que é “um pedaço do cinturão periférico que guarda lembranças alijadas da construção histórica da cidade-império” – como define este coletivo – e é formado por sujeitos da periferia, praticando e produzindo arte sobre esta, sobre a identidade migrante, sobre a segregação de que são vítimas. “É por esta condição de vida, a de um ser migrante, que nos reunimos no desejo de aferir um olhar sobre a nossa prática artística encontrando como estrangeiros a distância necessária para enxergar o olhar de destino de nossos desejos”, conclui o próprio coletivo em seu site.

“Estopô Balaio” denuncia a desigualdade. O faz sem indagação. Não só a de renda e riqueza, mas também a do racismo e machismo, a da voz na política institucional, a de oportunidades. Mas seu foco, em determinado ponto, passa a ser a arte. Como esta, no coletivo do “Estopô Balaio”, nas poesias de RAP, nas danças surgidas na periferia, se torna não só um meio de denúncia da desigualdade, mas de encontro à identidade daquele grupo que tanto é menosprezado pelo “andar de cima” e tem em esquetes televisivas seus traços cotidianos ridicularizados. Bem como os fenótipos negros, compartilhado pela imensa maioria dos moradores, também é ridicularizado e tornado cômico pelo show business e, sobretudo, pelo assim chamado “senso comum”.

É incrível a forma como o documentário aborda o fazer artística, como ele pensa a arte. Em tempos de sociedade de mercado, esta parece ser reduzida a entretenimento pela indústria. “Estopô Balaio”, tanto o documentário como o coletivo, são revolucionários em tratá-la, a arte, como algo crítico ao cotidiano e na qual o espectador interage não só quanto a sua opinião àquela crítica, mas também expressando-se a partir da voz daqueles artistas que fazem da sua vida a sua arte.

Além do mais, nos é revelada a história de vida daqueles indivíduos que compõem o Estopô Balaio: gente migrante, e cujas dificuldades marcaram-lhe a vida e suas experiências. Como o fato de determinada pessoa ter de trabalhar em dois empregos, em condições precárias, não ter acesso à transporte público ou a confortos básicos marcam a sua formação como indivíduo. O documentário é absurdamente humano, pois cada fala, cada cena, cada minuto de filme se propõe a dialogar sobre a sociedade a partir das vozes dos moradores do Jardim Romano. Não há economicismos: há vozes. E assim mostra a quantas o mundo anda, e que não está nada bem: a partir da empatia.

Essa é a costura de tecidos a qual falava: a denúncia social que é indissociável da arte produzida no bairro, e esta por sua vez é indissociável da individualidade de cada participante seu e vice-versa. Os Racionais MC’s já falavam: “‘miséria’ traz tristeza e vice-versa”. A desigualdade traz injustiças, injustiças trazem opressão e a opressão é de uma estrondosa crueldade em uma dimensão humana. E em desigualdade nós nos superamos: não há muito tempo eram 64 os que tinham o mesmo tanto que os 50% mais pobres do planeta, e hoje já são 8. Desde 2010, foi um trilhão a menos para a metade mais pobres, já para os 8 mais ricos, como se pode notar…

E assim “Estopô Balaio” é vigoroso. É forte. É abrupto. É ardoroso. Sua força vem de um exercício de empatia, do grito daquilo que há de mais gritante no mundo. É uma rosa posta no cano de uma espingarda. Só que como é valente tal gesto no império do ódio de classe, e como ele “violenta” a “bem-estar” dos imperadores.

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SINOPSE

O filme narra o trabalho e atuação do Coletivo Estopô Balaio, grupo teatral que há cinco anos desenvolve um processo artístico, a partir das experiências dos moradores do Jardim Romano (São Paulo), com as águas das enchentes que assolaram suas vidas durante dez anos.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Cristiano Burlan e Ana Carolina Marinho
Título Original: Estopô Balaio
Gênero: Documentário
Duração: 1h 18min
Classificação etária: 10 anos
Lançamento: 16 de março de 2017 (Brasil)

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