EU NÃO SOU SEU NEGRO (Crítica)

Juca Claudino

Terra dos Livres?

Raoul Peck é um diretor negro, haitiano e ativista político. Já viveu em países de formação histórica privilegiada, como é o caso dos Estados Unidos, e naqueles nos quais a história do desenvolvimento do capitalismo foi marcada, sobretudo, pelo subdesenvolvimento: a marginalização social, a precarização do trabalho, a exploração capitalista, tudo com agudez e desumanidade. Logo, Peck certamente teve como notar a forma com a qual o racismo e a opressão de classe se interligam em um diálogo perverso e doloroso.

“Eu Não Sou Seu Negro” mostra o drama, vivido pela população negra, da pobreza, da desigualdade, da segregação e do racismo, expondo a condição estrutural dessas tragédias que se perpetuam como sombras a esta população e impostas pelo status quo de uma sociedade na qual a hierarquia e a exploração são pilares de seu funcionamento. E o faz a partir dos registros do escritor James Baldwin sobre a condição do negro na sociedade estadunidense – o que obviamente encontra ressonâncias em outros países, como o Brasil, no qual a população afrodescendente tem a carga histórica da escravidão e do colonialismo -, que por sua vez foram escritos em meio ao cenário de revoltas sociais anti-racistas da década de 50-60 no país.

Martin Luther King e Malcom X são recitados com frequência quase que ininterrupta pelo roteiro e direção avassaladores de Peck. Muito mais que um leque de exposição e ácidas evidências da forma grotesca e bárbara a qual os afrodescendentes foram explorados e julgados pelo país, são também um intenso ornamento do sinistrismo com a conturbação moral resultantes em um amargo gosto de revolta social, provocado nas indigestas cenas de violência social, humilhação dos traços negros e zombaria do processo o qual negras e negros foram vítimas nos Estados Unidos (no Brasil e em outros países, obviamente).

Aquilo que mais se torna claro a partir do documentário é a evidente presença de uma cultura supremacista, racista e higienista na sociedade que tem, como uma das primeiras vontades, que os negros se sintam responsáveis por sua condição sócio-econômica em média inferior a dos brancos, como se não fossem eles vítimas de um processo histórico mas, apenas, irreversivelmente inferiores a população branca. Obviamente, estamos falando de um espectro fascista que percorre o imaginário de muitos estadunidenses (e reforçando, não só estadunidenses) que assim entendem a desigualdade não como uma construção histórica de injustiças sociais, mas como algo inerente a própria condição do indivíduo negro. Até porque, o próprio Benito Mussolini já dizia, “não se pode colocar todos no mesmo nível. A igualdade é anti-natural e anti-histórica”.

Logo, não tardam a surgirem as suásticas nazistas ostentadas pelos “cidadãos de bem” dos Estados Unidos, que não deixavam de expor seus preconceitos e ódio social. Brancos, conservadores e integrantes de uma parcela economicamente privilegiada da sociedade, buscavam justificativas religiosas, biológicas, normativas… nada era racional, contudo. E, de fato, isso acompanha a própria história do racismo: releituras contestadas da Bíblia e teorias raciais marcaram anos de colonialismo, escravidão e espoliação capitalista para justificar a humilhação a qual viam que negros deveriam se colocar frente aos caucasianos. Aliás, não só negros, mas indígenas, mulheres e outras “minorias”.

“Eu Não Sou Seu Negro” serve perfeitamente para justificar a tese do sociólogo Theodorne Adorno que, lançada na década de 1950, afirmava que a sociedade contemporânea, em geral, tinha certa propensão ao pensamento autoritário, ou seja, fascistas em potencial. Refutam os grupos sociais mais oprimidos e mais rebaixados pelo sistema, além de culpá-los pelas intempéries de uma sociedade fragmentada. O fazem por ódio, para sentirem-se mais valorizados neste sistema ou pois mimetizam os traços antidemocráticos de nossa sociedade. Talvez os três ao mesmo tempo, e isso é o mais provável.

Todavia, “Eu Não Sou Seu Negro” entende ser crucial o debate acerca não só da expressão do racismo na boca de uma elite branca que se privilegia deste, mas das aparatos disciplinares pelos quais se tentava fazer com que os próprios negros se sentissem submissos à população branca. Eis que, em uma das mais comoventes cenas, James Baldwin cita assistir aos filmes de John Wayne, como “Nos Tempos da Diligência”, e via, um a um, o mal (leia-se os índios) ser exterminado nas mãos puras do mocinho branco. Um dia se olhou a sua volta e viu que, naquela dualidade etnocêntrica e racista, não era ele o mocinho branco. Via-se nos indígenas mortos, e percebeu como Hollywood e outros elementos da cultura de massa e até mesmo da tradição norte-americana visavam impor a ordem social racista que vitimiza há quase 450 anos os descendentes daqueles que chegaram ao país – que construíram com seu suor explorado – acorrentados em navios negreiros e vendidos como se fossem tratores.

Porém, o título do filme remete a talvez o ponto mais polêmico do longa: a forma como ele enxerga o discurso de “reconciliação” proposta pela população branca 400 anos depois da chegada dos navios negreiros à América. Quando Baldwin escreveu os registros que inspiraram o “Eu Não Sou Seu Negro” o país estava tomado pelos discursos libertadores do movimento negro que denunciavam a hipocrisia estúpida e quilometricamente perversa da “terra dos livres” a partir do momento em que essa classificação não valia aos negros. Estes, os negros, inclusive cujo o silêncio um dia imposto a chicotadas ainda era arrancado, seja pela “disciplinação” massificante da mídia ou pelos aparatos de repressão física do Estado. “Adivinhe Quem Vai Para o Jantar?” e “Acorrentados” eram filmes que, para Bldwin, propunham uma “reconciliação” que meramente aliviava a consciência da população branca, porém frustrava a população negra, como se todo os 400 anos de exploração devessem ser esquecidos a partir daquelas horas de filmes, passiva e instantaneamente, sem dar relevância à luta por direitos e por igualdade. Baldwin se colocava, ao que o documentário nos permite ver, como um ponderado dentro do debate de como essa “reconciliação” deveria ocorrer (e se deveria ocorrer): criticava aqueles que pretendiam mostrar aos mais jovens que todo indivíduo branco é um monstro – como se diz no longa – mas não negava em momento qualquer a necessidade de um espaço de auto-valorização da identidade negra dentro da sociedade estadunidense. E projetava, sim, uma nova constituição desta, a sociedade norte-americana, na qual se superasse democrática e equitativamente os traços racistas de sua formação.

“Eu Não Sou Seu Negro” é um filme desconcertante, fruto de uma direção assombrosamente comovente de um diretor que expõe as feridas da população negra, a qual é integrante, com um misto de gana e melancolia. É a exposição nua e crua de uma hipocrisia que se sustenta há séculos, aqui desvendada com furor.

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SINOPSE

O escritor James Baldwin escreveu uma carta para o seu agente sobre o seu mais recente projeto: terminar o livro Remember This House, que relata a vida e morte de alguns dos amigos do escritor, como Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Junior. Com sua morte, em 1987, o manuscrito inacabado foi confiado ao diretor Raoul Peck.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Raoul Peck, James Baldwin
Título Original: I Am Not Your Negro
Gênero: Documentário
Duração: 1h 35min
Classificação etária: 12 anos
Lançamento: 16 de fevereiro de 2017 (Brasil)

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