EX-PAJÉ (Crítica)

Emílio Faustino

Que os índios brasileiros sofreram muito na época do descobrimento do Brasil, isso todo mundo já sabe, não é mesmo? O que poucos sabem ou simplesmente ignoram é que os índios sofrem até hoje com a inquisição religiosa que dizima a cultura indígena de tal forma que até mesmo o Pajé que outrora era símbolo de respeito e sabedoria, agora é colocado juntamente com suas crenças como uma obra do capeta.

O documentário Ex-Pajé narra o drama contemporâneo dos povos indígenas a partir da história de Perpera, um índio Paiter Suruí que viveu até os 20 anos num grupo isolado na floresta onde se tornou pajé. Após o contato com os brancos, um pastor evangélico afirma que os atos e saberes do pajé são coisas do Diabo e Perpera passa a viver um conflito interno. Apesar de se dizer evangélico e se definir como ex-pajé, continua tendo visões dos espíritos da floresta.

O ranço pelo pastor que muda totalmente o estilo de vida da tribo indígena fica instaurado quando o documentário captura a nova rotina do Ex-Pajé: varrer a igreja. Isso mesmo, como se não bastasse retirar o líder religioso de seu lugar de fala, ainda o colocaram como faxineiro da igreja. Um verdadeiro ultraje e falta de respeito com a figura do pajé.

EX-PAJÉ (Crítica)

O que vemos na tela do cinema é uma espécie de tortura silenciosa para o telespectador empático que assiste a tudo aquile sem poder fazer nada pelo nosso protagonista. Cada vez que Perpera veste indumentária dos crentes (camisa, calça, gravata e sapato social) é como se ele estivesse interpretando a contra gosto um personagem e anulando a sua essência e tudo aquilo que ele aprendeu durante toda a vida.

Pra você leitor que não dispõem da famigerada empatia, sugerimos o exercício de imaginar a seguinte situação: imagine alguém aparecendo em sua vida e não apenas dizendo que tudo aquilo que você acredita não é verdade, como também faz com que todos a sua volta a te vejam como algo errado e reprovável.

Mais do que destruir a vida de uma pessoa, o filme mostra como determinadas religiões podem destruir culturas e laços com um falso discurso de amor que não respeita nada além de suas próprias crenças.

Ex-pajé é mais do que um documentário, é um grito de socorro de uma população que já foi dizimada em números e agora esta sendo morta da pior forma: em sua essência.

Um retrato duro, inconveniente e necessário sobre aqueles que vivem em nossas terras, antes mesmo de o Brasil ter o nome de Brasil. É triste concluir que depois de mais de 500 anos eles continuam sendo vítimas da catequização dos brancos.

Ex-Pajé, escrito e dirigido por Luiz Bolognesi (Uma História de Amor e Fúria), estreia nesta quinta, 26 de abril.

Pôster de divulgação: Ex-Pajé

Pôster de divulgação: Ex-Pajé

SINOPSE

Um poderoso pajé passa a questionar sua fé depois de seu primeiro contato com brancos que julgam sua religião como demoníaca. No entanto, a missão evangelizadora comandada por um pastor intolerante é posta em cheque quando a morte passa a rondar a aldeia e a sensibilidade do índio em relação aos espíritos da floresta mostra-se indispensável.

DIREÇÃO

Luiz Bolognesi Luiz Bolognesi

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Luiz Bolognesi
Título Original: Ex-Pajé
Gênero: Documentário
Duração: 1h 21min
Classificação etária: 12 anos
Lançamento: 26 de abril de 2018 (Brasil)

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