EX_MACHINA: INSTINTO ARTIFICIAL (Crítica)

EX_MACHINA INSTINTO ARTIFICIAL

4estrelas

Por Juca Claudino

Ex Machina01

Ex Machina, filme de estreia do diretor Alex Garland, mostra-se um filme complexo quanto à sua abordagem: um suspense psicológico construído à base de personagens com conflitos internos ou um grande debate acerca do destino da relação Homem X Máquina? No final, ambas as coisas estão amarradas, formando assim um filme no qual nos vemos presos em um labirinto ao lado de 3 personagens distintos, com desejos distintos e conflitos distintos. Tudo isso regado a uma estética primorosa, que ambienta o suspense de forma a tornar o filme uma experiência torturadora (e fascinante).

Caleb (Domhnall Gleeson) é um empregado de uma das maiores agências de computação do mundo. Um dia, ganha um concurso interno da agência, organizado pelo seu presidente Nathan (Oscar Isaac) para simplesmente conhecê-lo, o dono da marca, pessoalmente. O prêmio todavia é exótico pois Nathan vive recluso da sociedade, sem manter contatos pessoais com alguém (algo parecido com o sorteio de Charlie para conhecer a fábrica de chocolate de Willy Wonka – a comparação durante o filme se torna inevitável). Assim, chegando a “secreta” casa de Nathan, Caleb descobre que na verdade havia sido convidado para participar do teste da nova invenção de seu patrão: uma Inteligência Artificial denominada Ava (Alicia Vinkader), e a função do sorteado é ser uma espécie de cobaia para um teste denominado “Teste de Turing”, cuja finalidade é descobrir se a AI tem realmente emoções e sentimentos humanos ou não.

Desde o século XIX, momento em que as Revoluções Industriais influenciavam grandiosamente o pensamento dos nossos antepassados que viveram esse contexto, o poder do conhecimento científico vem sendo uma grande questão a ser debatida. Ainda com a romancista britânica Mary Shelley e seu romance Frankenstein (1918), passando pelo surgimento das primeiras histórias de “ficção científica”, até filmes como O Exterminador do Futuro (1984) e Matrix (1999), o pessimismo que a corrida pelo progresso científico gera em relação aos seus futuros impactos sociais é expresso há mais de dois séculos, alimentado por diferentes episódios históricos, mas sempre flertando com o medo da devastação da humanidade pelo desejo desta por dominar a ciência, na crença falsa de que com isso teria controle sobre a própria natureza. Ex Machina é um ótimo filme se queremos falar sobre esse assunto: a película se mostra uma reconstrução da lenda do já citado Frankenstein, no qual Nathan não só incorpora o arquétipo de Victor Frankenstein mas também é mostrado como um gênio prodígio que já não consegue impor limites às suas façanhas. O monstro, por sua vez, Ava é o grande centro da história. Sua AI é tão gigantesca que a necessidade existencial de ser “livre” da prisão imposta por seu criador – que a mantém presa dentro de sua casa para que possa estudá-la e fazer testes com ela – fará com que a robô, em seus sentimentos, crie um ódio por seu criador. Pronto. Temos aqui uma situação que já inicia uma série de discussões, mas sobretudo algo em especial chama a atenção: desta vez, Garland inverte os papéis, e agora o grande vilão não é a máquina – que vira-se contra a humanidade, na busca pela soberania desta sobre o homem como em boa parte das história – mas sim o próprio homem, que guiado cegamente pelo seu desejo de conseguir sobrepor-se às leis da vida a partir da ciência, acaba perdendo o controle sobre seus atos graças a ganância de ter cada vez mais poder sobre a natureza.

Ex Machina02

Entretanto, os trunfos do filme não estão apenas nas discussões científicas, mas encontra-se também outro feito, que surge quando o roteiro assume o ponto de vista de Caleb como aquele que guiará a maneira como a história é mostrada. Tal feito é que Ex Machina consegue se assumir também como um (ótimo) thriller psicológico, uma tortura dentro da mente de Caleb a qual somos convidados a experimentar. E como a película consegue isso? Os acontecimentos que se sucedem aos olhos desse personagem fazem com que nunca tenhamos real certeza sobre o que está por trás daquele “convite” que recebeu para juntar-se ao seu patrão nesses estudos acerca de Ava, dando um efeito provocativo ao longa. O suspense do filme é pautado, portanto, nos inúmeros segredos que Ava, Nathan e os ocorridos durante a estadia de Caleb escondem, e que o filme não nos permite solucionar, assim nos fazendo sentir a angústia sofrida pelo personagem interpretado por Domhnall Gleeson, cuja a escolha para o papel é certeira: a figura franzina e o jeito introvertido que ele dá ao seu papel fazem com que sua atuação nos lembra personagens como Rosemary do clássico de terror de Roman Polanski O Bebe de Rosemary (1968) – um alguém inseguro, indefeso, frágil, prestes a encarar um episódio de medo e tensão.

Essa “tortura” é potencializada quando o diretor junta elementos muito bem orquestrados. A trilha sonora de Geoff Barrow e Ben Salibury é tensa e martela em nossas mentes nos relembrando que algum grande segredo está em jogo. Junte isso a elementos visuais com uma paleta de cores fria e sutil, takes lentos e uma direção de arte minimalista e futurista. O resultado é a atmosfera claustrofóbica e sofisticada que é dada ao drama. A ambientação sinistra e refinada constrói assim a atmosfera perfeita para nos colocar em um labirinto no qual vemos 3 personagens distintos, complexos e atormentados: Nathan, um Victor Frankenstein mentalmente viciado em conseguir ultrapassar a barreira das leis da natureza e conseguir gerar máquinas que são na verdade super-humanos; Ava, uma AI que sente como os homens e é tratada como um objeto; e Caleb, um inocente e indefeso que é jogado preso nesse labirinto de incoerências e mistérios. 3 personagens que conseguem transmitir suas emoções fortemente graças às atuações de Oscar Isaac, Alicia Vinkader e do já elogiado Domhnall Gleeson

E como se não bastasse todos esses fatos, Garland ainda nos guarda uma surpresa. Um romance entre Caleb e Ava, que se tornará crucial não só para a história mas para as perguntas que o filme lhe deixará como herança. Quais são os limites entre máquina e humanidade? É possível que um dia o homem tenha total controle sobre a natureza? O que é a concepção da vida? Podem, um dia, as máquinas se tornarem tão inteligentes que acabem mais poderosas que o homem? Se uma máquina sente como um homem, ela é um objeto ou uma vida humana? No fim, Ex Machina é um instigante drama de estreia de Alex Garland, capaz de criar tensão e gerar discussões. Embora não nos mostre nada de inovador para o gênero, é um dos melhores filmes de ficção científica do século (até então, obviamente) e um dos mais interessantes filmes de 2015.

Ex Machina03

SINOPSE

Caleb (Domhnall Gleeson), um jovem programador de computadores, ganha um concurso na empresa onde trabalha para passar uma semana na casa de Nathan Bateman (Oscar Isaac), o brilhante e recluso presidente da companhia. Após sua chegada, Caleb percebe que foi o escolhido para participar de um teste com a última criação de Nathan: Ava (Alicia Vikander), uma robô com inteligência artificial. Mas essa criatura se apresenta sofisticada e sedutora de uma forma que inguém poderia prever, complicando a situação ao ponto que Caleb não sabe mais em quem confiar.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Alex Garland” espaco=”br”]Alex Garland[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Emma Donoghue
Título Original: Ex Machina
Gênero: Ficção científica
Duração: 1h 48min
Ano de lançamento: 2015
Classificação etária: 14 anos
Lançamento: 6 de agosto de 2015 (Brasil)

TRAILER

Comente pelo Facebook

1 Comentário