EXPRESSO PARA O INFERNO (Crítica)

EXPRESSO PARA O INFERNO

4estrelas

FICHA TÉCNICA

Título Original: Runaway Train
Ano do lançamento: 1985
Produção: Estados Unidos da América
Gênero: Aventura
Direção: Andrei Konchalovsky
Roteiro: Akira Kurosawa, Djordje Milicevic, Edward Bunker, Hideo Oguni, Paul Zindel e Ryuzo Kikushima

Sinopse: Dois prisioneiros, Manny (Jon Voight) e Buck (Eric Roberts), depois de meses de planejamento, conseguem fugir de uma penitenciária de segurança máxima localizada no Alasca. Para fugir dali, eles embarcam em um trem cargueiro. O que eles não sabiam é que o condutor tinha acabado de morrer, vítima de um ataque cardíaco. A única pessoa à bordo é Sara (Rebecca De Mornay), uma empregada da ferrovia. Enquanto isso, uma desgraça se aproxima, pois o trem segue desgovernado, montanha à baixo.

Por Jason

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Em Expresso para o inferno, Jon Voight interpreta Manny, um criminoso que passa três anos em uma solitária numa penitenciária de segurança máxima no Alasca. Manny é idolatrado como herói entre os prisioneiros, mas é também uma pedra no sapato do diretor do local, que quer vê-lo morto, já que está sendo acusado de maus tratos e ferindo os direitos humanos. Manny, com a ajuda de Buck, consegue fugir da prisão e os dois vão parar em uma estação de trem. Ao pegarem um dos transportes de carga, o maquinista acaba morrendo num ataque cardíaco e o trem começa a se descontrolar sem freios.

Manny e Buck precisam primeiro entender o que está acontecendo, ao passo que os operadores das linhas vão fazendo o possível para livrarem a composição de um desastre iminente. Paralelo a isso, surge na trama a mecânica Sara, que trabalhava na manutenção e estava dormindo. Juntos, os três agora precisam pensar em formas de parar o trem e salvarem suas vidas, enquanto o arrogante diretor do presídio trava uma batalha em busca de Manny e Buck para mandá-los de volta para a prisão.

Com esse mote simples e genérico, o diretor russo Andrei Konchalovsky criou um filme de ação eletrizante, que ainda hoje mantém o espectador pregado na cadeira e roendo as unhas, imaginando que a cada curva que a enorme composição faça, algo de ruim irá acontecer com os personagens. Andrei coloca a sua câmera no trem desgovernado em alta velocidade no meio da neve. Usa efeitos práticos, que não envelheceram, adentra a cabine em movimento e sinaliza o tamanho da composição e do problema dos personagens em planos espertos: de perto, o maquinário parece um monstro engolindo a neve, sem controle, barulhento, impressionante e perigoso, mas de longe, nas paisagens geladas e montanhosas do Alasca, parece isolado do restante do mundo, silencioso e minúsculo, onde ninguém pode vê-lo ou atingi-lo. E é através dessa sensação de isolamento que ele consegue um ótimo resultado na química entre Voight e Roberts, o que garante metade do êxito do filme.

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Aliás ajuda, e muito, as duas performances indicadas ao Oscar: de Jon Voight, que consegue passar toda a piração, fúria e dor de Manny – o ator ganhou o Globo de Ouro por ela – e de Eric Roberts. Este, surpreende, como o ingênuo e afoito Buck, que apresenta traços de problemas mentais e inventa de ir atrás de Manny por impulso, por achá-lo que ele realmente é um “herói”. Desajustado, Buck acaba sentindo afeição involuntária por Sara, embora o relacionamento dos dois beire o desespero. Eric já vinha até então de indicações ao Globo de Ouro e se mostrava convincente e promissor, mas é uma pena que não soube administrar a carreira como a irmã mais famosa, Julia, este ano indicada ao Oscar pela performance em Álbum de família.

Os problemas do filme parecem ser Rebecca De Mornay, que não convence como Sara; os personagens a companhia de transporte de cargas que tentam desviar e parar o trem – são todos descartáveis – e o final inconclusivo do filme. A cena de Manny, sobre o trem caminhando na nevasca rumo ao nada enquanto o diretor do presídio está preso dentro da cabine, conclui os personagens, com um tom até mesmo poético – mas cria um problema, uma interrogação insolúvel na cabeça do espectador sobre o destino de Buck e Sara por quem ele torcia. Pensando bem, até aí o filme já entregou mais do que prometia. Melhor assim.

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PRÊMIOS

OSCAR
Indicações: Melhor Ator – Jon Voight, Melhor Ator Coadjuvante – Eric Roberts e Melhor Montagem

GLOBO DE OURO
Ganhou: Melhor Ator – Drama – Jon Voight

Indicações: Melhor Filme – Drama e Melhor Ator Coadjuvante – Eric Roberts

TRAILER

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1 Comentário

  1. António

    UM DIA LI qualquer coisa como “O filme ‘Runaway Train’ constitui, para mim, um dos maiores mistérios de sétima arte”. Sem dúvida que este filme é um verdadeiro caso de estudo. Gostava de saber muito mais sobre a forma como tudo aconteceu neste filme, mas, infelizmente, a edição do DVD que tenho não tem extras para além de um trailer. Ou seja, o “mistério” que constitui este filme continua por desvendar. Como é que surge uma obra-prima num filme realizado por um desconhecido Russo no Ocidente (apenas tinha realizado no ano anterior o “Maria’s Lovers”), trabalhando com atores Americanos, baseado num argumento do mestre Japonês Akira Kurosawa e sendo produzido pela dupla Golan-Globus, produtores que apostavam em filmes puramente comerciais, com Chuck Norris e companhia, muitos deles série-B, sem qualquer ponta de interesse em investir em personagens repletas de emoções, humanismo (no bom e mau sentido) e existencialismo? a dada altura no filme roberts pergunta “Porquê este comboio?” ao que voight responde “Porque eu quero”. é desta forma instintiva, animalesca, que o seu destino fica traçado e selado. Eu pergunto: porquê esta conjugação tão improvável de pessoas tão diferentes, até mesmo nas nacionalidades, se terem unido para este projeto? Foi também o destino? a dualidade entre o blockbuster e o arthouse torna o filme extremamente inovador e cativante, uma verdadeira obra de arte. Eu diria que este é um caso único de filme, em toda a história do cinema, que consegue combinar na perfeição e de uma forma inexplicavelmente soberba, conceitos de “cinema super-comercial” com “cinema arte”. Há 30 anos que continuo a fazer a mim próprio estas questões, depois de já ter visto o filme umas 30 vezes. O mais provável é, para minha tristeza, nunca as ver respondidas e nunca ver desvendado o tal “mistério”. Jon Voight tem aqui a melhor interpretação da sua carreira. Ele tem notáveis papéis em outros filmes como “deliverance”, “midnight cowboy” e outros, foi nomeado várias vezes para o oscar de melhor ator, venceu inclusivamente um, mas este é, quanto a mim, o “papel da sua vida” (e também neste filme ele foi nomeado para o oscar mas não venceu). Até digo mais, a atuação de Voight neste filme está entre as melhores interpretações que já vi na história do cinema. Mas também Eric Roberts e Rebecca De Mornay tem ambos neste filme as melhores interpretações das suas carreiras. Rebecca De Mornay não foi nomeada injustamente para o oscar de melhor atriz secundária. Ela nesta altura já era conhecida do grande público devido ao sucesso do filme “risky business”, feito 2 anos antes, em que ela contracena com Tom Cruise. “runaway train” é Talvez o único filme da sua carreira em que ela aparece sem qualquer maquilhagem, meia “desarrumada”, interpretando um papel deste tipo, que não tem nada a ver com os seus habituais personagens de”femme fatale”. Ela está soberba, brilhante e mais linda que nunca (mesmo sem maquilhagem). Eric Roberts (na única nomeação que teve na sua carreira para oscar) também está fantástico, dando credibilidade ao seu personagem ingénuo com um ligeiro atraso mental. A realização de Konchalovsky é brilhante. O comboio parece uma personagem do filme. A música de trevor jones é fabulosa. O final é de antologia. A cena em que os três personagens se desentendem e lutam dentro do comboio fica para a memória. A frase final do filme é fabulosa, qualquer coisa como “Até o animal mais feroz sente alguma piedade. Mas eu não sou um animal feroz, eu sou um ser humano, e por isso não sinto piedade nenhuma”, embora quanto a mim esta frase entre em contradição (possivelmente propositada) com o filme. Isto porque até John Ryan, o diretor da prisão e o personagem mais “desumano” do filme, tem na parte final um momento de “humanismo”. É ele que, apercebendo-se do seu destino, se lembra de Roberts e De Mornay e diz para Voight “What about that punk and the girl?”, “salvando” deste modo estas duas personagens pois Voight responde-lhe “Oh no, it’s just you and me”. Aliás, são muitos os diálogos de antologia ao longo do filme, aquele tipo de diálogos que nunca esquecemos. Escrever sobre eles dava um livro, tanta é a beleza e ambiguidade dos mesmos, tanto eles nos estimulam a pensar sobre o seu significado. Foi pena o filme ter passado bastante despercebido. Mas, ao fim de mais de 30 anos, reparo que, aos poucos, o filme vai ganhando estatuto de “cult movie”. Só gostava de ver ainda algum dos intervenientes do filme a falar sobre como tudo surgiu, como tudo aconteceu. Como já referi, uma conjugação destas surge uma vez na vida, ou melhor, surge uma vez na história do cinema. E este (cinema) nasceu muito antes de mim e terá uma vida muito mais longa que a minha.