FOGO NO MAR (Crítica)

Kadu Silva

É HORA DE DEIXAR OS OLHOS PREGUIÇOSOS DE LADO

Documentários são produções desafiadoras porque além da dificuldade na pesquisa do conteúdo, ainda existe o formato que precisa ter certa originalidade para não ser mais do mesmo. Em muitos casos tem a própria dificuldade de captação das imagens, ou seja documentarista é um profissional que merece muito respeito e todos os elogios possíveis. Gianfranco Rosi é um desses que desafia a si próprio, sempre com bons filmes que tiram o espectador do lugar comum e além disso, finalmente vem sendo reconhecido pelo seu talento acima da média e pelo seu auxilio em dar luz a assuntos que merecem ser discutidos, ganhou o Festival de Veneza em 2013 com Sancro GRA e esse ano ganhou o Festival de Berlim com Fogo no Mar, ambos na categoria principal.

Fogo no Mar retrata a chegada de refugiados na ilha italiana de Lampedusa, a maioria vindos da África ou do Oriente Médio em busca de refazer a vida no continente europeu, mesclando a isso, é mostrado o pacato cotidiano dos cidadãos locais.

Rosi optou por colocar dois momentos tão diferentes, primeiro para não pesar na mão, já que as imagens dos refugiados são muito fortes e de difícil digestão e segundo para mostrar que isso pode, talvez, ser apenas um momento da história, que amanhã as coisas podem mudar, como foi no período da 2ª Guerra Mundial. No entanto a diferença entre os dois lados é tão grande que certamente para muitos vai soar como dois documentários num só, já que a relação entre eles quase nunca ocorre. De um lado moradores cuidando de seus afazeres, crianças brincando, estudando e do outro lado uma centena de pessoas tentando chegar na ilha, alguns morrendo diante da tela do documentarista. A exceção fica a cargo de um médico que traz uma ligação através de seu depoimento, relatando a tristeza profunda que é tratar os refugiados e muitas vezes ter que examinar crianças e adultos já mortos.

Mas se analisarmos bem a figura do menino Samuele muito presente no filme (que merecia um documentário só para ele, “carisma em forma de gente”), é uma espécie de analogia sobre a Europa como um todo. Ele apesar de forte e corajoso, quando está diante de algo novo, parece meio perdido, a ponto até de vomitar, ele é ansioso, a ponto de ter falta de ar, adora brincar de dar tiros no ar e a mais contundente das semelhanças, ele tem um problema nos olhos, que é chamado de olho preguiçoso, que consiste em não querer enxergar as coisas de forma completa, eu diria que não só a Europa, como a América a Ásia e outros locais também apresentam grande semelhança com Samuele, é exatamente isso que faz do filme algo especial.

E Rosi montou seu documentário de uma forma peculiar, não é o formato tradicional com depoimentos misturados com imagens, ele faz de sua lente uma espécie de voyeur para aquele pedaço da Europa, dando um zoom tanto do dia-a-dia dos moradores locais como nos refugiados ainda na chegada a ilha, não existe uma narrativa fixa, são diversos momentos que vão aos poucos evidenciando o terrível momento humanitário que o mundo passa.

Fogo no Mar é mais que um simples documentário é a possibilidade de dar a quem vive na ignorância a possibilidade de sentir o que de fato é ter que passar por situações de extremo desconforto para tentar simplesmente sobreviver. Precisamos deixar o olho preguiçoso de somente conhecer as notícias através do Jornal Nacional e enxergar que o buraco é mais embaixo e mais profundo e isso vale para política e demais assuntos.

FOGO NO MAR

SINOPSE

Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim 2016, o documentário focaliza a crise dos refugiados na Europa a partir de Lampedusa, na Sicília. A bucólica ilha de pescadores tornou-se um posto avançado na maior crise humanitária da Europa desde o final da II Guerra Mundial, recebendo milhares de imigrantes em barcos precários, vindos da África ou do Oriente Médio. Além de vários resgates, realizados pela Guarda Costeira italiana, mostra-se a rotina de moradores, como o menino Samuele, filho de um pescador, e o médico Pietro Bartolo, o único da ilha e que já perdeu a conta de quantas autópsias realizou desde que começaram a chegar ali os primeiros barcos de refugiados, em 1991.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Gianfranco Rosi” espaco=”br”]Gianfranco Rosi[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Gianfranco Rosi, Carla Cattani
Título Original: Fuocoammare
Gênero: Documentário
Duração: 1h 48min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 16 Anos
Lançamento: Em Breve (Brasil)

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