FOI APENAS UM SONHO (Crítica)

FOI APENAS UM SONHO

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FICHA TÉCNICA

Título Original: Revolutionary Road
Ano do lançamento: 2009
Produção: EUA, Reino Unido
Gênero: Drama
Direção: Sam Mendes
Roteiro: Justin Haythe
Classificação etária: 16 Anos

Sinopse: Anos 50. Frank (Leonardo DiCaprio) e April (Kate Winslet) formam um casal feliz. Eles sempre se consideraram especiais e prontos para levar uma vida seguindo ideais. Ao se mudarem para uma casa na Revolutionary Road eles ficam orgulhosos por declarar independência da inércia suburbana que os rodeava. Porém logo eles percebem que estão se tornando justamente aquilo que não queriam ser. Frank está em um trabalho insignificante e tem medo de tudo, enquanto que April é uma dona de casa infeliz. Decidida a mudar a situação, April propõe que comecem tudo de novo, deixando de lado o conforto da atual casa e recomeçando em Paris. Só que, para executar este plano, eles chegam aos seus extremos.

Por Juca Claudino

O VAZIO QUE PERSISTE NA “VIDA PERFEITA”

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Que Sam Mendes é ótimo para lidar com dramas envolvendo relações familiares, isso nós todos sabemos. Seu filme mais premiado, “Beleza Americana”, é a maior prova disso: o longa de 1999 tem um roteiro que desconstrói de forma provocadora (provocações que começam inclusive pelo título da obra) a idealização da família tradicional americana como o cânone da vida perfeita. Nove anos após a película estrelada por Annete Benning e Kevin Spacey marcarem a sétima arte, Sam Mendes consagra-se novamente fazendo uma película que na verdade martela sobre a romantização do American Way of Life e acusa as hipocrisias das máscaras sociais as quais somos submetidos. Uma tragédia baseada no ato de aceitarmos sermos presos pelos papeis sociais nos atribuídos e com isso encararmos a desilusão do sonho americano da família perfeita, substituído pela angústia da inautenticidade: April, que se via presa ao arquétipo de esposa perfeita de um ponto de vista patriarcal, e Frank, que se via preso a um medíocre engravatado que trabalha durante horas no seu escritório para com isso sustentar-se economicamente. O resultado de “Foi Apenas um Sonho” é um atordoante retrato da massificação social falsamente vendida como a materialização da vida perfeita.

A sequência inicial do filme acaba, de certa forma, dando o tom daquilo que nos será mostrado: no começo, vemos April (Kate Winslet) e Frank (Leonardo DiCaprio) se conhecendo em uma festa numa cena significantemente romântica, com dois jovens sonhadores prestes a realizarem seus maiores desejos juntos. Logo após, temos uma nova cena, onde estão no carro alguns anos após se casarem e então discutem agressivamente: ele, nitidamente incomodado por ser visto como um “marido suburbano burro e insensível” como bem definiu, e ela não só desiludida por não ter se tornado uma atriz (como desejava) mas também por ter se tornado uma dona-de-casa presa àquele modelo machista de sociedade. Aqui nós temos uma quebra de atmosfera que provoca o espectador, desconstruindo a idealização da primeira cena com o realismo da segunda. É a partir dessa “estrutura” que o filme pretende desconstruir todo esse sonho da vida ideal no modelo do American Way of Life: a estética retrô e “vintage”, bem anos 50 (época onde o filme se passa), além de Kate Winslet e Leonardo DiCaprio nos papéis principais (sim, o Jack e a Rose, um dos maiores casais “conto-de-fadas” da história recente que fizeram de seus intérpretes os “namoradinhos da América” no final dos anos 90), arquitetam o cenário perfeito para na verdade reafirmar esses valores do “sonho americano”, com uma arte que faz referência direta ao imaginário pop estadunidense. Pois bem, é aí que Sam Mendes abusa da ironia e em meio a idealização da vida perfeita, gera uma grande antítese ao mostrar que aquilo tudo na verdade criou indivíduos cuja liberdade é sufocada pelo aprisionamento dos papéis sociais que adotaram, e das máscaras que isso lhes colocou. April e Frank não passam de seres cuja personalidade foi simplesmente reduzida a uma massificação, a uma padronização entediante, a um estereótipo socialmente construído.

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Tudo em “Foi Apenas um Sonho” gira em torno dessa temática. Todos os seus personagens parecem sofrer do mesmo tédio, da mesma angústia. Exceto um, John Givings, interpretado por Michael Shannon (indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por esse papel), filho da Sra. e do Sr. Givings (vividos, respectivamente, por Kathy Bates e Richard Easton) – um casal tão “idealizado” quanto April e Frank – que, por apresentar uma espécie de complicação mental, acaba sendo “excluído socialmente”. Todavia, o filme o torna uma espécie de oráculo, que afirma exatamente a verdade velada por trás daquela massificação toda: é capaz de dizer toda a hipocrisia e todo o tédio que aqueles personagens escondem por trás de uma vida inautêntica e artificial, o que como figura de linguagem gera uma metáfora interessantíssima para o papel de Shannon, aquele que ao perder a “sanidade mental” aos olhos de sua sociedade na verdade aparenta ter maior consciência da realidade do que todos aqueles outros presos à mediocridade – ou simplesmente o único com coragem de dizê-la. Mas é a partir daí que “Foi Apenas um Sonho” se consolida como um drama psicológico, e foca o filme na relação conflitante entre April e Frank, que uma vez submersos na inautenticidade, aparentam resistir instintivamente com o ódio que geram um pelo outro. A negação de serem o que se tornaram, e a busca pela liberdade perdida em meio aquela realidade, os tornam angustiados consigo mesmos. E a necessidade de ambos em fugir do “sonho americano” que viviam vai acabar gerando situações que cada vez mais brincam com a verossimilhança pressuposta ao longa, dando ares extremamente trágicos que culminam em um final chocante. A família idealizada, o American Way of Life, os arquétipos da vida perfeita, todos reduzidos a uma falsidade que nada mais faz do que aprisionar a alma. Um drama muito bem dirigido e muito bem concebido por Sam Mendes.

Esse debate não é nada inédito (se pensarmos na ideia de “modernidade líquida” e tudo mais). Porém, é uma crítica vigente a sociedade de classe média americanizada a qual Sam Mendes sabe muito bem problematizar. Roger Deakins (que fotografou “Beleza Americana” e “007 – Operação Skyfall”) e Thomas Newman (que fez a trilha dos mesmos filmes citados no Deakins) juntam-se novamente ao diretor do longa, completando o trio que sempre faz filmes competentemente – “Foi Apenas um Sonho” é mais um trunfo dos três. DiCaprio e Winslet, que embora não tenham sido indicados ao Oscar pelos seus papeis (mesmo Winslet ganhando o Globo de Ouro Drama por sua interpretação nesse filme – mas não se preocupem, ela ganhou o Oscar no mesmo ano pelo seu papel em “O Leitor”) estão memoráveis. E “Foi Apenas um Sonho” revalida as palavras de Angela Hayes em “Beleza Americana”: não há nada pior na vida do que ser normal.

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PRÊMIOS

OSCAR
Indicado: Melhor Ator Coadjuvante – Michael Shannon, Melhor Figurino e Melhor Direção de Arte

GLOBO DE OURO
Ganhou: Melhor Atriz – Drama – Kate Winslet

Indicado: Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor e Melhor Ator – Drama – Leonardo DiCaprio

BAFTA
Indicado: Melhor Atriz – Kate Winslet, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Desenho de Produção e Melhor Figurino

TRAILER

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