GABRIEL E A MONTANHA (Crítica)

Igor Pinheiro

Em certo momento do livro “O Ano em que Morri em Nova York”, Milly Lacombe escreve sobre algumas pessoas que acreditam que determinadas mudanças sociais têm mais força se começadas por gente da elite, justamente por terem mais tempo e poder do que pessoas menos favorecidas para iniciar essas transformações. Gabriel Buchmann, encontrado morto em uma trilha do Monte Mulanje, na África, em 2009, era economista e engajado em causas sociais. Ele era estranhado por seus amigos ao se misturar com os pobres para estudar a pobreza, algo que dizia muito sobre quem o rapaz era. Em “Gabriel e a Montanha”, longa de Fellipe Barbosa (amigo de Gabriel na vida real), acompanhamos as últimas semanas de vida de Buchmann e sua jornada em alguns países da África.

Vencedora de dois prêmios em Cannes, a história se divide em capítulos com os nomes dos países pelos quais o protagonista passa e é narrada por personagens que participam dos últimos momentos de Gabriel, falando de depois da sua morte sobre como foi cada encontro e despedida. Essa estrutura logo se torna repetitiva, mas funciona para conectar os temas levantados pelo roteiro. Apesar de não conhecermos o protagonista no primeiro momento e acabarmos indo para o julgamento do homem branco de classe alta ajudando os desfavorecidos, logo percebemos que suas ações são puras e poucas vezes buscam recompensas. E essas recompensas geralmente são mais pessoais e internas do que algo que possa ser exibido.

A necessidade de se superar e de se provar capacidades é um dos principais temas do longa, aliás. Despretensiosa na medida certa, a produção nos faz acompanhar cenas de dias comuns, como um almoço de família, algum ritual cultural, conversas sobre questões comuns a todos e aprendizado e mistura de idiomas… Alguns momentos quase transformam o filme em um documentário, com longos planos, enquadramentos que provocam intimidade e certa ausência de trilha sonora que alimentam ainda mais sensações muito pessoais.

A direção de Fellipe Barbosa é propositalmente simples e ajuda a destacar momentos sutis, que reforçam cada relação que Gabriel cria durante sua aventura, com as crianças, com as pessoas que o ajudam e com outros turistas, dos quais é muito diferente na maneira de explorar o novo (ele gosta de comer com os moradores na rua e dormir na casa dos que o ajudam). Entretanto, a relação mais forte representada na tela, além das referências à família, é a de Gabriel com a namorada Cris, interpretada pela excelente Caroline Abras (Entre Idas e Vindas), no segundo ato do filme. Talvez seja o momento que mais ajude a criar empatia com toda a história e nos prepara para trágico fim que não queremos que aconteça, mesmo já sabendo qual será. Gabriel e Cris são realmente apaixonados e nos envolvem facilmente em discussões sobre política que terminam em uma DR com temas como fidelidade e o futuro do casal, tudo isso tendo como plano de fundo algumas paisagens paradisíacas ou um ônibus quente em uma longa estrada de terra.

GABRIEL E A MONTANHA (Crítica)

O filme apela no tom certo ao ter como coadjuvantes pessoas que cruzaram o caminho de Gabriel na vida real. Elas interpretam a si mesmas e revivem as experiências que tiveram com o aventureiro em 2009. Nos desligamos um pouco do drama ao pensar no trabalho (profissional e emocional) que Fellipe Barbosa teve para contar a história do amigo, mas tudo se envolve em uma experiência só e pouca coisa se torna defeito. No papel principal, João Pedro Zappa (Boa Sorte) é de uma naturalidade quase não-natural, mas que nos remete a todo momento a alguém que já passou nas nossas vidas ou que simplesmente cruzamos na rua e nos marcou de alguma forma. É possível concordar e se irritar com atitudes do personagem, mas em nenhum momento deixamos de gostar dele.

Com uma produção elaborada e um visual de tirar o fôlego, especialmente pelas belas paisagens, “Gabriel e a Montanha” merece todo o destaque que está tendo. De forma clichê (o que o filme chega perto de ser, mas foge de forma magistral), o defendo mais como uma reflexão antropológica e um longa “para sentir” do que qualquer outra coisa, ele acerta muito bem ao passar a mensagem de que devemos aproveitar cada momento de nossas vidas, por mais simples que seja. E quero terminar o texto citando um trecho do poema “Ah! Os Relógios” (que tem presença importante na narrativa), de Mário Quintana, que basicamente resume a essência da história de Buchmann:

“Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.”

Pôster de divulgação: GABRIEL E A MONTANHA

Pôster de divulgação: GABRIEL E A MONTANHA

SINOPSE

Gabriel Buchmann (João Pedro Zappa) tinha um grande sonho: conhecer a África. Entretanto, mais do que visitar seus pontos turísticos ele desejava conhecer como era o estilo de vida do africano, sem se passar por turista. Desta forma, decide encerrar sua viagem ao mundo justamente no continente, onde se envolve com vários habitantes locais e recebe a visita da namorada, Cristina (Caroline Abras), que mora no Brasil. Prestes a retornar, seu grande objetivo se torna alcançar o topo do monte Mulanje, localizado no Malawi.

DIREÇÃO

  • Fellipe Barbosa Fellipe Barbosa

  • FICHA TÉCNICA

    Roteiro: Fellipe Barbosa, Lucas Paraizo
    Título Original: Gabriel e a Montanha
    Gênero: Aventura, Drama
    Duração: 2h 11min
    Classificação etária: 14 Anos
    Lançamento: 2 de novembro de 2017 (Brasil)

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