GETÚLIO (Crítica)

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Por Emílio Faustino

Um filme modesto para um grande homem.

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Depois de se consagrar no cinema nacional com “Se eu fosse você 1 e 2” e de uma breve participação no filme “Chico Xavier”, Tony Ramos volta às telonas de cinema para encarar o desafio de dar vida ao ex-presidente Vargas no longa “Getúlio”. O thriller político dirigido por João Jardim (Lixo Extraordinário) estreia dia primeiro de maio (não por acaso) e narra os últimos dias de vida desse personagem histórico que divide opiniões até hoje.

A trama tem inicio quando o jornalista de oposição Carlos Lacerda (Alexandre Borges), sofre um atentado a bala. O pistoleiro erra o tiro e mata o Major da Aeronáutica Rubens Vaz, que fazia a segurança de Lacerda. O então presidente da República, Getúlio Vargas, é acusado de mandar matar o maior inimigo político do seu governo. Getúlio passa a ser pressionado por lideranças militares e pela oposição para renunciar ao mandato. Ao lado da filha, Alzira Vargas (Drica Moraes), seu braço direito na presidência, e colaboradores fiéis como Tancredo Neves (Michel Bercovitch) e o general Zenóbio da Costa (Adriano Garib), Getúlio tenta se manter no poder e provar sua inocência.

Passadas as apresentações, já podemos começar a crítica:

O que dizer de um filme que tinha um potencial gigante, mas preferiu ficar na zona de conforto?

Todo mundo que fez ensino médio sabe (ou deveria saber) que unanimidade nunca foi o forte de Getúlio, o cara que ficou conhecido “como pai dos pobres” por conta de suas melhorias nos direitos trabalhistas, é o mesmo que governou o Brasil por 8 anos em um regime ditatorial.

Amado por muitos, odiado por tantos outros, esse era o tipo de filme que tinha tudo para nos apresentar um personagem forte e complexo, porém não é exatamente isso que encontramos no cinema…

E isso não tem nada a ver com o ator Tony Ramos, que pra variar está ótimo e devidamente bem caracterizado com uma barriga extra e menos cabelo. Na verdade, vendo por esse lado, daria até para dizer que o filme “Getúlio” é a “Dama de Ferro” do Brasil. Ótimas atuações, boa caracterização, porém a direção preferiu mostrar a decadência desses personagens, do que as ações que ajudaram os mesmos a se tornarem emblemáticos a ponto de poderem render um filme.

Aos moldes de filmes como “A Queda” que retrata os últimos momentos da vida de Hitler, em “Getúlio” acompanhamos os últimos 19 dias da vida de Vargas. Só que diferentemente de Hitler que grande parte da população mundial repudia e adora ver ele se ferrar, “Getúlio” divide bastante a opinião dos brasileiros e não mostrar ao telespectador o que fez dele este grande nome, acaba por diluir a empatia que alguns poderiam ter com o personagem em seus momentos derradeiros.

De qualquer forma, a história que é contada no filme esta bem contada, por vezes bem contada até demais, com um tom didático irritante, típico de quem estava acostumado a fazer documentário e agora esta fazendo o seu primeiro longa, que é o caso do diretor João Jardim.

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O filme tem um bom ritmo e boas atuações, destaque para a atriz Drica Moraes que faz Alzira Vargas, a filha e Getúlio. Com uma presença marcante, a atriz conseguiu levar bem a personagem que possui uma grande carga dramática e soube transmitir com maestria olhares que diziam muito, sem precisar dizer nada.

Aliás, o que o filme tem e melhor são os seus silêncios, que são um convite para a nossa reflexão. Pena que eles eram comumente quebrados por uma trilha sonora quase onipresente no filme, que de tão recorrente se tornou quase um personagem. Um personagem chato e inconveniente, diga-se de passagem…

Agora o que todo mundo quer saber mesmo é como pintaram Getúlio: Vilão ou mocinho? Ditador ou presidente? Afinal, a gente sabe que no final ele se mata, né? E se você não sabia disso, por favor, não me xingue, xingue o seu professor de história do ensino médio ou o cara que fez o trailer do filme, porque até a cena do suicídio esta lá.

Então o que nos resta é a curiosidade de saber como ele será representado, e para o desagrado de muitos eu devo compartilhar com vocês que colocaram Getúlio de vítima e Lacerda como o vilão. (Afinal, o jornalista foi um “monstro” ao sofrer um atentado e atribuir a culpa a um ex-ditador a quem ele vivia fazendo críticas ferrenhas)

Independente de Getúlio ter dado ou não a ordem do ataque, ele era um alvo fácil para os seus opositores e refém de seu passado.

Porém no filme não da nem pra se ver a sombra do que um dia foi um ditador. É quase uma versão Disney de Getúlio, só que com final triste. (Para Getúlio é claro). Não que Getúlio não tenha o seu lado bom, mas o lado ruim foi categoricamente ignorado.

Existem tantos filmes que são divididos em várias partes sem a menor necessidade (Leia-se: “Amanhecer”, “O Hobbit”, “A Esperança”), este sim seria um ótimo caso para se fazer uma divisão. Se houvesse antes a parte um de “Getúlio” e depois fosse apresentado este capitulo derradeiro, ai sim o filme funcionaria melhor.

Mudando um pouco de assunto, em alguns momentos da trama da para fazer analogias entre o governo Lula e o de Getúlio, claro que eles colocam tudo isso de forma sútil, mas é um ponto interessante a se observar e refletir.

Já do ponto de vista técnico algumas cenas são pra lá de despropositadas, como a cena onde a câmera faz um 360 em torno de um lustre do palácio e que mais tarde volta sem nenhum porque ou função na cena da morte de Getúlio. Oi?!?!

Resultado: Não chega a ser um filme ruim, mas perto do que poderia ser deixou um pouco a desejar, vale pelo caráter histórico e para dar uma refletida na política nacional. Se observarmos bem, muitas questões levantadas na trama, ainda são questões atuais.

“Getúlio” estreia dia 1 de maio nos cinemas, dia do trabalhador. Uma data escolhida a dedo pelos produtores do filme, uma vez que Vargas esta diretamente associado aos avanços nos direitos trabalhistas. Pena que isso não é mostrado no filme…

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SINOPSE

Agosto de 1954. O jornalista de oposição e dono de jornal Carlos Lacerda, sofre um atentado a bala na porta da sua casa em Copacabana. O pistoleiro erra o tiro e mata o Major da Aeronáutica Rubens Vaz que fazia a segurança de Lacerda. O presidente da República, Getúlio Vargas, é acusado de mandar matar o maior inimigo político do seu governo. Getúlio ¬passa a ser pressionado por lideranças militares e pela oposição para renunciar ao mandato. As investigações mostram que a ordem para o atentado saiu de dentro do Palácio do Catete. O tenente Gregório Fortunado, chefe da guarda pessoal do presidente e seu homem de confiança há anos, é acusado. Ao lado da filha, Alzira Vargas, seu braço direito na presidência, e colaboradores fiéis como Tancredo Neves e o general Zenóbio da Costa, Getúlio tenta se manter no poder e provar sua inocência. Diante das ameaças que pedem a deposição imediata do presidente, Getúlio comete um ato extremo.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”João Jardim” espaco=”br”]Joao Jardim[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: George Moura
Título Original: Getúlio
Gênero: Drama
Duração: 2h 3min
Ano de lançamento: 2014
Classificação etária: 12 Anos

TRAILER

ENTREVISTA | Tony Ramos e João Jardim falam sobre o filme

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4 Comentários

  1. Rafinha

    Fui assistir GETÚLIO

    Para quem estava esperando UMA AULA DE HISTÓRIA sendo contada na grande tela do cinema: SE FERROU.

    Agora, para quem estava aguardando ver AS 3 FASES DE GETÚLIO, lamento, SE FERROU novamente.

    Agora sim. Se vc se animou e foi pro cinema com vontade de querer ver a total construção das leis trabalhistas, ponto a ponto, fase por fase, construção por construção, aí sim, TU SE FERROU LEGAL MERMU, pois teve nada disso também.

    O filme meramente mostra as angustias de uma democracia ainda frágil e o total sofrimentos DOS ÚLTIMOS 19 DIAS de Getúlio.

    Só isso.

    Sua depressão.

    Seus medos NÃO DEMOSNTRADOS.

    E o TOTAL AMOR de um povo para com ele, em sua morte.

    Pessoas mais novas, como eu e muitos aqui, não viram, mas se você pegar as imagens do velório do piloto Airton Sena, AINDA ASSIM, VC NÃO TERÁ CONDIÇÕES DE COMPARAR A QUANTIDADE DE PESSOAS QUE FORAM PRA RUA… Pois foi muuuuita gente em seu velório.

    Atuação ótima do Tony Ramos.

    Momentos difíceis de assistir na hora decisiva do filme…

    Mas, tipo, NADA DE MAIS NÃO…

    Não será um de meus favoritos.

    Meramente SIMPLES, tão somente SIMPLES, e unicamente SIMPLES o filme.

    Valeu somente PELA MEMÓRIA REGISTRADA.

  2. Plinio Alves

    Do ponto de vista de quem vê o filme Getúlio, ele deveria se chama “LACERDA”.
    Já que Lacerda é que é considerado o herói do filme. A película começa com Getúlio dizendo: “Eu fui um ditador”…, – não importando que a história se passa em 1954 e que Getúlio havia sido eleito democraticamente para aquele mandato –
    ou seja, não dá ao espectador nem a chance de pensar diferente. Já o primeiro plano de Lacerda é do mesmo saindo de seu prédio de arma em punho para defender o pobre major que jazia em uma poça de sangue, e então ao vê-lo morto, cai de joelhos e passa a mão na cabeça, qual herói de western americano, naquela de: “vou vingar a morte deste pobre homem”.
    Getúlio sabe de nada, é um inocente. Não sabe amarrar as botas nem de quantos homens era composta sua guarda pessoal.
    Alzira Vargas, essa sim é a grande presidente, é ela quem dá pito nos generais, amarra a bota do pai, chama os ministros na chincha, até no Café Filho ela dá bronca, discute toda a política nacional e internacional do “patrão” e lhe mostra o caminho certo a seguir.
    E o mais importante é que Alzira engrossa o discurso de que o pai foi um ditador.
    Alzira só se cala para escutar os profundos conselhos do redentor Tancredo Neves.
    No final Lacerda, o importante jornalista a serviço do capital internacional, regozija-se com a oposição dizendo que enfim a corrupção foi lavada do poder.
    Com três minutos para o final o diretor termina o filme com um hesitante suicídio da parte de Vargas.
    Nem na hora de se matar Vargas se mostra decidido. E a carta testamento se reduz a três linhas.
    As outras e mais importantes cinco linhas ficaram de fora:
    “Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna.
    Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém.
    Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.
    Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo.
    Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo.”
    A mínima coerência pediria que o defunto Getúlio, que começou narrando o filme, fizesse as considerações finais e não somente lesse a carta que todo mundo já conhece, ou que pelo menos lesse a carta toda.
    Mas o que se podia esperar de uma produção da Globo…
    Pra quem não sabe a empresa Globo já fazia oposição à Getúlio e à todos os nacionalistas desde antes da década de 1950.
    (Pra saber mais: Skidmore, Thomas E. Brasil : de Getúlio a Castello (1930-64) / Thomas E. Skidmore ; tradução Berilo Vargas.
    — São Paulo : Companhia das Letras, 2010.)
    Nota: Consta que o filho de Getúlio (Getúlio Vargas Filho) morreu em 2 de fevereiro de 1943 e não em 24 de agosto como diz no filme.