GRACE DE MÔNACO (Crítica)

GRACE DE MONACO

3emeio

Por Davi Gonçalves

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Não há dúvidas de que Grace Kelly é uma das figuras mais celebradas do cinema em todos os tempos – o tipo perfeito cercado de inúmeras histórias e lendas. Faltava, no entanto, uma cinebiografia que fizesse jus a tudo aquilo que Grace realmente foi ao longo de sua curta existência (afinal, a bela faleceu precocemente aos 52 anos, em um trágico acidente automobilístico). Coube ao francês Olivier Dahan (do ótimo Piaf – Um Hino ao Amor) a árdua missão de transportar para as telas de cinema a biografia deste ícone mundial – e assim surge Grace de Mônaco, filme de abertura do 67º Festival de Cannes e que arrebatou as mais duras críticas da imprensa.

Diferente de Piaf – Um Hino ao Amor, cuja protagonista era acompanhada da infância até sua morte, Grace de Mônaco concentra sua narrativa nos primeiros anos do casamento de Grace e o príncipe Rainier III (união considerada por muitos um “conto de fadas”), quando a artista abandonou sua próspera carreira de atriz para dedicar-se à realeza de Mônaco. Desiludida com o casório (em especial, com o distanciamento do esposo e o formalismo de seu novo mundo), a princesa aceita o convite do amigo e cineasta Alfred Hitchcock para estrelar seu novo projeto (Marnie – Confissão de uma Ladra, que mais tarde seria protagonizado por Tippi Hedren) – o que marcaria seu retorno triunfal a Hollywood, mesmo contra a vontade de Rainier. No entanto, Mônaco passa pela iminência de uma guerra e Grace fica dividida entre retomar sua carreira e lutar ao lado do esposo pelo Principado.

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Apesar do bom material disponível, o maior problema de Grace de Mônaco está em seu argumento, desenvolvido por Arash Amel, que se mostra medíocre ao longo de toda sua projeção. A ambição de Grace de Mônaco, ao que parece, desde o início é parecer “grandioso”, “épico”, recorrendo a frases de efeitos, mas que não criam nada alem de diálogos rasos e superficiais que poderiam ter sido tirados de qualquer livro de autoajuda. Ainda que Arash tente proporcionar alguns momentos mais inspiradores (o que poderia levar o espectador a um debate um tanto quanto “filosófico”, digamos), a maneira exagerada como o texto se coloca na narrativa tornam o filme “piegas” e os discursos que poderiam ser emocionantes e causar impacto acabam mais fazendo o público ficar incomodado na poltrona. O tom mediano nos dá ainda a sensação de que não se trata necessariamente de um filme “sério”, pois há quase um certo apelo televisivo – a prova irrefutável é a de que na exibição do longa em Cannes, jornalistas e demais especialistas chegaram a rir em diversas sequências, conforme foi noticiado por alguns veículos.

Alem das evidentes falhas na narrativa, o elenco não demonstrou o menor interesse pelo projeto. Se em Piaf – Um Hino ao Amor, Marion Cotillard foi, no mínimo, unânime, Nicole Kidman só consegue, no máximo, emprestar certa classe e sofisticação à sua personagem. Sua atuação é caricata, teatral e forçada, tornando sua personagem uma mulher insegura e dependente (em contrapartida da personalidade implacável de nossa Grace Kelly). É quase cômica (não fosse ruim) a cena em que Grace tem aulas de francês, com o péssimo sotaque de Kidman que, com tanto botox aplicado, está quase inexpressiva. Tim Roth também está quase no automático – aliás, não, Tim está muito abaixo de sua capacidade, pois até mesmo o modo “automático” do ator seria aceitável. Se o casal de protagonistas não impressiona, o restante do elenco não tem muito que fazer – e o único bom retrato dentro de um filme repleto de tipos insuportáveis é o do veterano Frank Langella, no papel do padre Tucker, confindente de Grace (e que demonstra ótima química com Kidman). De resto, tudo parece tão artificial que soa satírico – o que, obviamente, não era a proposta.

Detonado pela crítica, Grace de Mônaco funcionou muito melhor fora do cinema: antes mesmo do filme ser lançado, a família de Grace Kelly já havia se manifestado, acusando a fita de ser “baseada em referências históricas erradas e dúbias”, conforme nota oficial. Apesar de até ser pontual tecnicamente falando (há uma boa fotografia, figurino e design de produção, em contrapartida da péssima e lastimosa trilha sonora), Grace de Mônaco peca na estrutura de seu roteiro – um grave erro que se sobrepõe a todo restante da obra. Mas não apenas isso: Olivier Dahan falha ao tentar retratar um nome tão importante com tamanha superficialidade, explorando pouco da vida de Grace e tendo como cenário o conturbado conflito diplomático entre Mônaco e a França. Dessa forma, falta credibilidade, falta respeito e, principalmente, falta amor. Grace Kelly, nossa eterna e queridíssima Grace Kelly, merecia algo infinitamente melhor.

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SINOPSE

O casamento de Grace Kelly (Nicole Kidman) e o príncipe Rainier III (Tim Roth) foi considerado um conto de fadas na vida real quando aconteceu, em 1956. Entretanto, cinco anos mais tarde e com dois filhos, a verdade é que Grace está insatisfeita com a vida no palácio e o distanciamento do marido. A chance de novamente sentir-se útil surge quando seu velho amigo, o diretor Alfred Hitchcock (Roger Ashton-Griffiths), a convida para retornar ao cinema como protagonista de seu próximo filme: “Marnie – Confissões de uma Ladra”. O problema é que Rainier é terminantemente contra e, ainda por cima, está envolvido com uma ameaça vinda do presidente francês Charles de Gaule (André Penvern): caso Mônaco não pague impostos à França e acabe com o paraíso fiscal existente, o principado será invadido em seis meses. Em meio às inevitáveis tensões, Grace e Rainier buscam resolver seus problemas tentando evitar que eles causem o divórcio.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Olivier Dahan” espaco=”br”]Olivier Dahan[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Arash Amel
Título Original: Grace of Monaco
Gênero: Drama
Duração: 1h 42min
Ano de lançamento: 2014
Classificação etária: 12 Anos

TRAILER

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