HERANÇA DE SANGUE (Crítica)

Juca Claudino

A busca pelo exorcizar dos fantasmas do passado.

Jean-François Richet já tem certo histórico em thrillers policiais. Venceu, em 2009, o César (prêmio badalado destinado ao cinema francês) de melhor direção por seu filme “Inimigos Públicos nº 1″, o qual com um visual soturno e atmosfera trágica contou a história de Jacques Mesrine, um famoso personagem dos noticiários franceses da metade do século XX graças aos crimes que cometeu. Além disso, o francês acabou assumindo também produções em Hollywood (como era de se esperar, visto o fato do diretor atuar no cinema de gênero e, principalmente, do dinheiro e da visibilidade tido pela indústria de arte hollywoodiana em seus círculos ser absurdamente irrivalizável) com o remake de “Assalto à 13° Delegacia” (o original é de John Carpenter), em 2005, e nesse filme B “Herança de Sangue”, selecionado para mostras alternativas do Festival de Cannes de 2016.

E nesse seu “Herança de Sangue” uma das coisas que provavelmente você terá em sua mente ao vê-lo serão discursos como os proferidos por Donald Trump, os quais dizem mais ou menos que “[Os mexicanos] Estão enviando [para os Estados Unidos] gente que tem muitos problemas, estão nos enviando seus problemas, trazem drogas, são estupradores e suponho que alguns até podem ser boa gente, mas eu falo com agentes da fronteira e me contam a verdade” ou ainda que China, Índia e Brasil “estão sem dúvida roubando nossos empregos”. Fato é que a figura e o pensamento de Trump não são isolados e muito menos desconexos do que ouvimos de setores da classe média no Brasil e no mundo. O discurso nacionalista xenófobo sempre é presente em uma sociedade na qual alguns querem segurança sem abrir mão de uma série de privilégios sociais; ou ainda, como disse o geógrafo Milton Santos, em um mundo no qual “existem apenas duas classes sociais: as do que não comem e as dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem”. É de se esperar, portanto, que esse posicionamento não só radicalmente conservador, mas também, e sobretudo, regado a muito discurso de ódio cresça em meio às crises capitalistas (nas quais o medo do desemprego e da falta de recursos se multiplica) – como a que vivemos desde 2008. Mas como o longa faz esse diálogo com essa complexidade social toda?

Bom, antes de tudo devemos falar que a construção do roteiro faz enormes referências à Hollywood clássica, construindo a atmosfera carrancuda e erma que marcaram os westerns do auge da Guerra Fria. Mas, ao mesmo tempo, as homenagens não são apenas imitações baratas e saudosistas do western clássico, como também ganham um toque muito interessante de hibridez – coisa muito feita pelos westerns mais recentes. Um exemplo é a encarnação de Link (Mel Gibson) como herói clássico hollywoodiano – uma espécie de Hércules moderno, de feitos super-humanos e história de superação pessoal – ter ocorrido de forma semelhante ao que Clint Eastwood já havia feito em seu memorável “Os Incompreendidos” a partir do momento em que este nos apresentou a figura de Bill Munny (interpretado pelo próprio Eastwood): o herói não é a materialização da pureza moralista do bom-mocismo e da virtude nacionalista romântica (como faz hoje Chris Evan como Capitão América, e fazia nos anos 50 Gary Cooper como Marshal Will Kane) já que fora um fora-da-lei durante muito tempo e é um marginalizado social. Da mesma forma, não é uma figura imponente, porém um alguém decadente, melancólico e amargurado pelo seu passado sanguinário, vivendo da violência, e pelo abandono às (únicas) pessoas que algum dia nunca lhe negaram compaixão (sua filha e sua esposa, ambas o tendo abandonado após anos de ignorância por parte de Link). E assim como o personagem de Eastwood em “Os Incompreendidos” decide reerguer-se dos fantasmas do passado somente quando perde sua amada, Link toma tal decisão quando sua filha foge de sua casa. E a chance da redenção surge quando, após encontrar inimizade com mafiosos perigosos, sua filha, Lydia (Erin Moriarty), precisa da proteção do pai para que não seja morta. É em tentar pagar sua dívida com a filha e, assim, exorcizar os fantasmas do seu passado que Link se tornará um (anti) herói, e não por seguir os “bons valores”. Até porque, o filme não esconde também que o personagem de Mel Gibson é preconceituoso, machista e… enfim… escroto.

Tendo em vista esse pretexto, o filme mantém a atmosfera decadente, assim como faz outro western “híbrido”, os filmes dos Irmãos Coen “Onde os Fracos Não Têm Vez”. As cores saturadas, a natureza morta e a arte quase que sugerindo um ambiente pós-apocalíptico do filme metaforizam o espírito atordoado, cansado e arruinado do nosso protagonista. O próprio ideário do “western fora de época” – já que o cânone do faroeste se passa no contexto da “marcha ao oeste” do início do século XIX, e tanto o filme dos Coen como o de Richet se passam no oeste do século XXI – transmite essa decadência espiritual não só dos caubóis interpretados por Mel Gibson, Josh Brolin ou Tommy Lee Jones, mas também de um sentimento nostálgico que nos faz parecer estarmos vendo as ruínas do que um dia fora um grande Império (ou seriam essas ruínas apenas a perda da crença no discurso romântico nacionalista e do otimismo no avanço do “progresso científico” que um dia orgulhou os EUA no século XIX durante as políticas de expansão territorial e no auge da Guerra Fria na luta contra o comunismo, com a promessa de que seriam os novos gregos e levariam a liberdade e a felicidade para os quatro cantos da Terra, mas que ao final das contas aumentou a opressão imperialista, aumentou a desigualdade econômica entre os países e promoveu um genocídio indígena, além de uma xenofobia quase que sistemática contra a população latina).

E é aqui que a pergunta a qual encerra o segundo parágrafo (sobre o diálogo do filme com a complexidade social que leva figuras como Trump a ser candidato oficial à presidência dos EUA). Primeiro, se o filme mostra ruínas da “crença no discurso romântico nacionalista e do otimismo no avanço do ‘progresso científico'”, tudo a ver com o fato do slogan de Trump para a campanha desse ano ser “Make America great again” (“faça os Estados Unidos ser grande novamente”). Não basta ter a maior economia do mundo, e necessário fazer isso com o nacionalismo e o patriotismo (um tanto debilitados com a crise de 2008 e guerras envolvendo os EUA contestadas por alguns) significando progresso – por mais que esse progresso seja às custas dos países não-desenvolvidos. E “Herança de Sangue” mostra desaprovar esse sentimento, ao atrelá-lo, como sátira das mais ácidas (e, convenhamos, bem coerente), ao pensamento nazista. Um conhecido de Link lucra fazendo vendas clandestinas de bandeiras, acessórios, uniformes e símbolos nazistas em um site no qual pede “maior união em tempos de economia instável”. É curiosa essa fala, pois o nazismo ascende ao poder com Hitler na Alemanha quando em tempos de economia instável (entreguerra, pós-crise de 29), baixa-estima nacionalista e com uma elite verdadeiramente com “medo da revolução dos que não comem” – com tanto medo que a culpa, para eles, “nunca foi do capitalismo, mas das raças inferiores que roubam nossos empregos”. Link, inclusive, parece compartilhar desse ponto de vista, quando uma vez fala que “não gosta dos mexicanos pois eles roubam meu emprego”, mas é respondido por sua filha da seguinte forma: “eles roubam seu emprego colhendo frutas? Acho que nenhum branco na história dos Estados Unidos colheu alguma coisa nas plantações”.

Mas o filme também tem pontos contestáveis. Novamente, assim como nos anos 50, os brancos são os mocinhos e os índios e latinos são os vilões. Da mesma forma, a mulher (Lydia) é representada como a donzela em perigo, submetida a necessidade da proteção de uma figura masculina. Para alguns, essa jogada foi uma espécie de contra-ataque: a partir de um herói preconceituoso e situações racistas expostas em cena, há uma ironia na qual se retrata e denuncia o preconceito a partir da sua assimilação pelo roteiro. E mesmo que essa tenha sido a estratégia do diretor e, em algumas cenas, haja explícitas críticas ao nacionalismo xenófobo, não creio que esse retrato dos homens brancos como os mocinhos e dos latino-americanos (líderes da máfia com quem Lydia se envolve) como os vilões, ou então da idealização da mulher em apuros, possa ter surtido efeito favorável à luta contra o preconceito e contra o machismo de qualquer forma – pois qualquer ironia quanto a esse retrato não fica explícita. Poderíamos fazer um paralelo dessa situação com o retrato feito do relacionamento abusivo entre Arlequina e Coringa em “Esquadrão Suicídia”: não há uma contextualização ou ressalva nítida a ponto de nos dizer que o apresentado “não é a naturalização e idealização do romance abusivo, mas sim o retrato da existência dele”.

De resto, podemos citar que o longa ganha ares cada vez mais hobbesianos quanto a sua trama e que Link tem cada vez mais uma áurea de mártir – não só pelo sacrifício que faz em nome da dívida que tem com a filha, mas também porque entende que a redenção para ele seria inalcançável e, assim como Bill Munny, o seu lugar era o INFERNO e isso estava já escrito – ao longo do filme. Como entretenimento, “Herança de Sangue” tem trama bem amarrada, com momentos de tensão bem arquitetados e uma química entre Mel Gibson e Erin Moriarty a qual torna o filme mais intenso, já que transmitem uma empatia sentimental bem estabelecida. Não é um filme de ação “à Steve Seagal” (tem uma esfera psicológica mais presente e um sentimentalismo mais complexo que a média das películas do gênero, bem como cenas de ação menos surreais e sensacionalistas) porém não deixa de se comunicar com o fã desse gênero com seus elementos do enredo. Pode não ser tão surpreendente quanto à sua conclusão, e não ser tão catártico nessa como por exemplo é “Os Imperdoáveis”, mas em nenhum momento perde a fluidez do ritmo, tornando o filme facilmente digerível e pouco entediante tendo como comparação o cinema pipoca hollywoodiano.

HERANCA DE SANGUE

SINOPSE

John Link (Mel Gibson) vive em meio ao deserto na Califórnia onde seu trailer também serve como estúdio de tatuagem. Vivendo longe de drogas e violência, ele tem seu cotidiano afetado com a chegada de sua filha desaparecida que está jurada de morte por traficantes. Ele fará de tudo para protegê-la.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Jean-François Richet” espaco=”br”]Jean Francois Richet[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Peter Craig, Andrea Berloff
Título Original: Blood Father
Gênero: Ação, Suspense
Duração: 1h 28min
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 8 de setembro de 2016 (Brasil)

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