Ilha dos Cachorros (Crítica)

Ricardo Rocha

A frase ou ditado popular “O Melhor Amigo do Homem” é sem dúvida observada e pontuada ao longo de suas 1h45m do novo filme do mestre do milimetricamente perfeito Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste, 2014). Sua nova animação em stop-motion é resultado de um trabalho cheio de influências prá lá do oriente, como Akira Kurosawa (Rashomon,1950) e Hayao Miyazaki (A Viagem de Chirriro, 2001), é através de toda sua excentricidade que conhecemos o jovem Japonês Atari, que está decidido a encontrar seu fiel companheiro Spots (lógico que estou falando de um cachorro) que foi levado e abandonado em uma ilha distante da cidade após seu próprio tio decretar uma lei onde cachorros seriam proibidos na cidade devido a uma suposta doença sem cura que poderia ser fatal aos humanos. Atari então parte para essa ilha e a partir daí começamos uma aventura no mínimo peculiar e cheio de cachorros fofos, com muita personalidade lutando pela sobrevivência.

A questão aqui é o quanto estes animais mesmo depois de terem passado pelo pior, sido abandonados num lugar tóxico (junto ao lixo) sem ter o que comer, ainda sim, serem fiéis aos mesmos humanos que os condenaram ao exílio.

Cada cachorro aqui é muito bem desenvolvido como personagem em si, que ganham vida e personalidade por seus dubladores, um elenco invejável, Edward Norton (O Grande Hotel Budapeste), Bill Murray (Moorise Kingdom), Jeff Goldblum (Jurassic World: Reino Ameaçado), Scarlett Johansson (Ela), Tilda Swinton (Precisamos falar sobre o Kevin), Bryan Cranston (Artista do Desastre). Aqui os cachorros falam em inglês, enquanto os humanos são dublados por japoneses, e ouvimos sua voz no original, sem legendas. Com isso tenho 2 observações importantes a fazer:

1. O fato dos personagens japoneses não terem legenda, não torna o filme confuso, nem menos compreensível, conseguimos através das ações destes mesmos personagens entender o que se passa em cena, embora, ai entre minha segunda observação.

2. O personagem principal que busca seu cão perdido na ilha tóxica também é japonês, consequentemente suas falas não são legendadas nem traduzidas, isso de certa forma distância todo potencial de emoção que poderia passar como resultado final. Por mais que vemos uma lágrima nos olhos do garoto em determinado momento, e chegamos a entender sem mesmo nenhuma palavra aquele momento, falta uma conexão maior, uma empatia pelo personagem que nos faz entender seus objetivos e ações, mas falha quando se trata de pensamentos e aprofundamento.

Por outro lado temos os adoráveis, e já digo inesquecíveis cães, e não são poucos. Temos aqui o bando principal Chief, Boss, Duke e Rex, cada um com sua opinião própria e características muito bem desenvolvidas. Mas a grande construção de personagem é voltado ao personagem do Chief, o cão que tenta ser o líder do bando, durão e menos sociável. Ele é dublado por Bryan Cranston (Braking Bad) Ao longo da jornada que se recusa a fazer com o Atari e seus cãopanheiros, ele tenta a todo custo não se envolver ou se importar com o humano, tenta de todas as formas convencer seu bando a não ajudar Atari a procurar Spots, mas é quando Atari e Chief estão sozinhos em cena, que o filme ganha corpo, sentimento, e vemos pouco a pouco a desconstrução do personagem ao mesmo tempo em que ele se torna um outro personagem no final do filme. É um desenvolvimento natural e totalmente inesperado.

Ilha dos Cachorros (Crítica)

A forma como Wes Anderson resolve contar sua história é quase que uma imersão direta a toda cultura oriental. Desde representações a obras como do artista Katsushika Hokusai, a nomes como Kobayashi que é o 9º sobrenome mais popular no Japão, até referências a Yoko Ono, e a cidade que é chamada de Megasaki (seria uma homenagem a Nagasaki?). A abertura é um belo presente aos admiradores da cultura oriental quando temos uma luta de Sumô, ao som de tambores, ou toda referência a máfia japonesa Yakuza, passando até por sushis envenenados.

Tecnicamente é tudo muito perfeito, um trabalho em stop-motion é infinitamente maior do que a criação feita digitalmente. Com isso, temos mais textuxa, temos quase que centenas de maquetes e cenários construídos em miniatura para aquele filme. É um trabalho manual que exige paciência e perfeccionismo, mas claro que estamos falando do mesmo diretor que em 2009 nos apresentou o irreverente “Fantástico Sr. Raposo” (também em stop-motion). Mas tem um elemento aqui que chama a atenção, é mérito de uma parceria que vem dado certo, estou falando de Alexandre Desplat compositor francês que vem compondo as trilhas de Wes Anderson já há alguns anos. Aqui ele usa várias sacadas da cultura oriental, principalmente a batida vibrante de tambores e o uso de instrumentos de sopro, assimilando o assobio, e remetendo até mesmo aos famosos filmes de samurai, tudo sempre muito lúdico, mas sem ser cartunesco.

Dito isso, algumas coisas me irritaram de uma maneira, que se fosse em qualquer outra animação deixaria passar, mas como Wes Anderson é o autor de sua obra, assim como faz questão de fazer tudo a seu modo, alguns pensamentos dele ficaram bastante dissonantes, enquanto a única personagem de destaque entre os cachorros, a cadela Nutmeg dublada por Scarlett Johannson parece ser só uma escada ou afair amoroso para o Chief, sem nenhum propósito além do acasalamento, temos uma garota americana, a única humana que conseguimos entender, porque afinal ela fala inglês. Sua personagem parece ser a única pessoa em todo Japão com atitude e não alienada para tentar fazerem as pessoas enxergarem sobre a manipulação do governo com a questão da doença dos cachorros. Ela chega a ser irritante, e seus atos são no mínimo um grito desesperado de “Oi, tem alguém me ouvindo?” – o fato de ser uma garota americana, aluna de intercâmbio no meio de toda aquela situação, faz com que ela se torne a salvadora da pátria e a personagem que rouba a cena involuntariamente. Era essa a intenção do diretor?

Fiquei com uma pulga atrás da orelha para saber se Wes Anderson odeia os gatos. Repare bem, como eles são mostrados ao longo do filme, veja o destino dos bichanos, quase vilanizado que eles ganharam ao final do longa.

“Ilha dos Cachorros” é um filme divertido, que tem seus tropeções, mas que por algum motivo, apesar de ser uma história sobre cachorros, o melhor amigo do homem, e a busca do mesmo por sua redenção, existe um falha na comunicação, na forma como ele quer transmitir a mensagem ou as emoções. Ainda sim o saldo é positivo, a experiência como qualquer filme do Wes Anderson é exótica e memorável. Ainda que se fosse pra escolher vê-lo de novo no cinema, pensaria duas vezes.

Bonus: West Coast Pop Art Experimental Band foi uma banda de rock psicodélico dos anos 60 e a canção “I Won’t Hurt You” tocado no filme, nos trás o melhor momento da dupla Atari e Chief de você querer sair correndo para abraçar seu pet.

Pôster de divulgação: Ilha dos Cachorros

Pôster de divulgação: Ilha dos Cachorros

SINOPSE

Atari Kobayashi é um garoto japonês de 12 anos de idade. Ele mora na cidade de Megasaki, sob tutela do corrupto prefeito Kobayashi. O político aprova uma nova lei que proíbe os cachorros de morarem no local, fazendo com que todos os animais sejam enviados a uma ilha vizinha repleta de lixo. Como não aceita se separar do cachorro Spots, Atari convoca os amigos, rouba um jato em miniatura em parte em busca de seu fiel amigo. A aventura vai transformar completamente a vida da cidade.

DIREÇÃO

Wes Anderson Wes Anderson

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Wes Anderson
Título Original: Isle Of Dogs
Gênero: Animação, Aventura
Duração: 1h 42min
Classificação etária: 12 Anos
Lançamento: 19 de julho de 2018 (Brasil)

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