INCOMPREENDIDA (Crítica)

Juca Claudino

Extravagância.

Asia Argento, com 41 anos de idade, já tem carreira duradoura no cinema. Nos anos 90 e começo dos 2000 estrelou uma série de longas, marcando-se como figura relevante do cinema europeu da época: falo de filmes como “Rainha Margot”, “Compagna di Viaggio” e “Perdiamoci di Vista”, sendo que cada um dos últimos dois renderam à cineasta italiana o David di Donatello (uma das mais respeitadas premiações de cinema italiano) de melhor atuação feminina. Em alta no cinema italiano graças as suas atuações, ainda trazia consigo um estilo gótico e amotinado que lhe eram típicos. Eis que então inicia sua carreira de diretora de longas metragens, em 2000, com “Scarlet Diva”. E, se segundo o jornalista Ruy Gardnier, de Asia Argente podemos esperar “sujeira, conteúdos escandalosos, intimidades que poderíamos ficar sem ver, entre outras coisas que ela coloca na frente da câmera e que costumam constranger os espíritos menos suscetíveis”, ela cumpriu exatamente esse pacote de descrições nas suas direções. Com uma paleta de cores pujante, atmosfera asquerosa e virtude semi-vanguardista, ainda lançaria um segundo filme, “Maldito Coração”, em 2004.

10 anos depois, Asia Argento volta a dirigir um longa. Bom, nesse meio tempo manteve-se e muito na ativa, por mais que estrelara uma série de produções que majoritariamente (não estou dizendo *todas*, hein!) não tiveram muita popularidade: os destaques são “Go Go Tales”, de Abel Ferrara; e o estilosíssimo “Maria Antonieta”, de Sofia Coppola. Mas o que esperar, enfim, desse “Incompreendida”, 3o longa-metragem de Asia Argento? Ora essa, é de se esperar “sujeira, conteúdos escandalosos, intimidades que poderíamos ficar sem ver, entre outras coisas que ela coloca na frente da câmera e que costumam constranger os espíritos menos suscetíveis”, não é? Bom, se for essa sua hipótese, esta estará certa.

“Incompreendida”, antes de tudo, é um filme que pretende ser de conteúdos escandalosos. Fala sobre diversos temas, porém com ponto de vista orientando para conclusões bem pessimistas e trágicas. De forma geral, o filme retrata o sucumbir da liberdade e inocência perante a opressora imposição de valores hipócritas e narcisistas por parte da sociedade. Essa construção rousseauniana do filme se traduz a partir da figura de Aria, interpretada com beleza e potência por Giulia Salerno. Com sua fisionomia frágil e aparência anêmica e pálida, contrapõe-se com o visual excentricamente intimidador do longa (o qual será melhor descrito em breve), reforçando o retrato do filme. Falo da imposição de máscaras sociais, da adaptação a uma sociedade de valores individualistas e egocêntricos, além da dissipação da compaixão em troca da necessidade compulsória por vaidade.

Quando descobrimos o nome do filme, e principalmente após descobrirmos suas temáticas e abordagens, torna-se inevitável a comparação com “Os Incompreendidos”, um dos clássicos iniciais da Nouvelle Vague dirigido por François Truffaut [fun fact: já é a terceira vez que cito “Os Incompreendidos” em uma crítica minha]. Todavia, se em conteúdo ambos estão em sintonia próxima, em forma eles diferem-se (e muito). Embora tenham uma postura iconoclasta, o longa francês parece ser uma redescoberta francesa do Neorrealismo italiano da década de 1940 – sendo, portanto, melancolicamente realista -, enquanto a película italiana de Argento adota uma postura quase que expressionista, gera uma atmosfera sádica aliada a uma construção extravagante de personagens quase que fantasiosa – sendo, portanto, um filme que pretende te perturbar com tamanha asquerosidade posta em cena.

O visual do longa é o grande ponto deste. Filmado com bastante granulado, paleta de cores cítricas e planos instigantes, conta ainda com uma trilha sonora intimidadora e direção de arte caótica. E, como cereja do bolo, as atuações do filme estão excelentes, com Charlotte Gainsbourg entregando toda a excentricidade pela qual a conhecemos desde filmes como “Anticristo” e “Ninfomaníaca”, além de um Gabriel Garko que invoca o estereótipo do galã narcisista, entrega ao desejo da vã cobiça. Todo esse ambiente, pessimista e perturbador, tem pôr fim a grande atuação da pequena Giulia Salerno.

“Incompreendida” é um filme que adota muitas personificações. Os personagens ao redor de Aria são todos bem caricaturescos, quase que metaforizando as avarezas retratadas pelo filme. Todavia, é fato que seu visual acaba sendo mais rico que o próprio desenvolvimento de suas temáticas e a forma como o filme nos instiga a partir delas. É, de qualquer forma, bem pessimista. “Incompreendida” talvez não venha sendo apontado como o melhor filme do ano, o mais empolgante, o mais provocativo ou o mais instigante. Mas é ainda um longa interessante graças ao seu olhar deveras pessimista e graças a uma experiência visual muito perturbadora. Vale a pena àqueles que procuram experiências cinematográficas exóticas, em suma.

INCOMPREENDIDA

SINOPSE

Aria (Giulia Salerno) é uma menina de nove anos que busca incessantemente o carinho e a compreensão dos pais. Entretanto, suas tentativas serão frustradas, uma vez que seus pais têm mais afinidade com as filhas geradas em outros casamentos.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Asia Argento” espaco=”br”]Asia Argento[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Asia Argento
Título Original: Incompresa
Gênero: Drama
Duração: 1h 43min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: Livre
Lançamento: 30 de junho (Brasil)

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