Infiltrado na Klan (Crítica)

Igor Pinheiro

Algumas pessoas dizem que gostam de cinema porque ele garante uma fuga da realidade. Em seu principal livro, Story, Robert McKee, um dos grandes mestres do roteiro, fala sobre como, na verdade, ele pode ser um veículo que nos carrega para o entendimento da realidade, sendo nossa melhor alternativa para descobrir algum sentido na anarquia da existência. Em uma de suas cenas impactantes, o protagonista de Infiltrado na Klan, Ron Stallworth (John David Washington), caminha por uma clareira em que, momentos antes, membros da Ku Klux Klan realizavam um treinamento de tiro utilizando bonecos com cabelo black power como alvo. Ron se vê nos bonecos. A cena não tem fala alguma e também não pede isso, não precisa. Um dos pontos altos do novo filme de Spike Lee (Faça a Coisa Certa, Malcolm X) é a facilidade em criar empatia, acertando na fórmula para conseguir isso.

Apesar da grande quantidade de piadas, o vencedor do grande prêmio do júri no Festival de Cannes se trata mais de um filme com comédia do que especificamente de um filme de gênero. É difícil encaixá-lo em uma categoria diante da quantidade de temas abordados e do envolvimento gerado tanto para o drama, quanto para o humor. Mérito do roteiro de Spike Lee, Charlie Wachtel, David Rabinowitz e Kevin Willmott, inspirado nos fatos reais contados no livro escrito pelo próprio policial protagonista da história.

Ron começa uma investigação como infiltrado na KKK por telefone e, quando precisa aparecer pessoalmente para o grupo, é apoiado por seu colega de trabalho branco e judeu Flipp Zimmerman. “Com o homem branco certo, você pode fazer tudo”, diz Ron em certo momento do filme. A investigação começa a dar certo e os policiais percebem todo o horror do grupo em que estão se infiltrando.

Logo na introdução de seu livro, Ron diz: “Minha investigação sobre a KKK me convenceu de que mais cedo ou mais tarde nós, de fato, derrotaríamos aqueles que tentavam rotular minorias com base em falhas pessoais deles próprios – preconceito racial e étnico, fanatismo, preferência religiosa – e na falsa crença de que pessoas negras e outros que não se encaixavam em sua definição de “branco ariano puro” não mereciam respeito, e muito menos serem classificados como “pessoas”.” E é após presenciar um impactante discurso de Stokely Carmichael (um dos mais importantes ativistas do movimento negro nos Estados Unidos durante os anos 60 e 70) em uma envolvente cena que destaca os olhares esperançosos dos negros presentes ali, que Ron começa a questionar a luta racial, sua posição como um policial negro e sua vida pessoal. Ele também se envolve com a ativista Patrice Dumas (a ótima Laura Harrier), que acrescenta discussões sobre machismo e abuso policial, trazendo para o debate nomes como o de Angela Davis (que, diga-se de passagem, tem tardiamente seu reconhecimento no Brasil).

Em outro momento marcante, vemos, ao mesmo tempo, uma iniciação da KKK em que os membros assistem animados ao pavoroso e racista O Nascimento de Uma Nação, enquanto o mesmo é comentado por Jerome Turner, juiz distrital envolvido com o movimento negro (vivido pelo excelente Harry Belafonte), para um grupo de ativistas negros. São cenas como essa que respondem à indignação de uma das personagens que diz estar cansada de esperar pelo momentos em que ser negro não deveria ser uma questão, “deveríamos apenas ser negros”, ela diz. E um dos méritos da existência do longa é, sem dúvidas, contar uma história protagonizada por negros e em que eles fazem a diferença, não são objetos ou meios para que um branco alcance seu objetivo ou os salve.

Infiltrado na Klan (Crítica)

Esse posicionamento é notado em toda a parte técnica do filme, desde o começo com os créditos na cor preta, passando pela cuidados ambientação (que envolve figurino, direção de arte e uma trilha sonora marcante com instrumentais planejadamente repetitivos) e indo até a fotografia, que é uma ponto essencial em uma produção com tantos atores negros, uma vez que a técnica sempre foi pensada para se adequar a corpos brancos. O diretor é cuidadoso também nos planos utilizados e mostra que não é à toa sua boa reputação como diretor e roteirista, em pouquíssimos momentos vemos personagens brancos e negros misturados em um único plano aberto, diferente de quando vemos alguma reunião do ativismo negro ou da KKK, em que os personagens estão entre os seus. Spike Lee é um gênio.

Tudo isso é segurado por um entrosado e preparado elenco. John David Washington mostra ter herdado bons talentos de seu pai (Denzel Washington) e segura algumas cenas sozinho. E para manter a cota de elogios a homens brancos, também é preciso destacar Adam Driver (Star Wars VII e VIII, Girls) como o colega judeu do protagonista, com quem compartilha uma das melhores cenas: uma tentativa de aproximar o sotaque dos dois personagens para que o trabalho como infiltrados dê certo. Do lado oposto, temos Topher Grace (That ‘70s Show) como David Duke, ex-líder da KKK (que recentemente declarou que Bolsonaro parece com um membro do grupo) e que tem falas diretamente conectadas com discursos de Donald Trump, com quem o roteiro cria uma ligação muito inteligente com a marcha da supremacia branca que ocorreu em Charlottesville em 2017 e deixou 3 mortos.

É assustador pensar que essa história quase não foi contada. Após o término da investigação, Ron foi ordenado a destruir todos os arquivos sobre o caso por seu chefe, mas manteve suas anotações e publicou a obra após sua aposentadoria. Infiltrado na Klan discute com temas atuais e deixa isso claro do começo (com os créditos aparecendo na cor preta e uma excelente entrada com Alec Baldwin interpretando o Dr. Kennebrew Beauregard) ao fim, literalmente, até seu último minuto, com uma ótima piada seguida de uma das maiores porradas dada por sua montagem e seu roteiro. Após gritos de “ele não”, a plateia saiu reflexiva do cinema. Me incluo, adicionando lágrimas causadas pela situação atual do país e por ser negro, carregando o filme para o entendimento da realidade e tentando, como McKee sugeriu, descobrir algum sentido na anarquia da existência.

Pôster de divulgação: Infiltrado na Klan

Pôster de divulgação: Infiltrado na Klan

SINOPSE

Em 1978, Ron Stallworth (John David Washington), um policial negro do Colorado, conseguiu se infiltrar na Ku Klux Klan local. Ele se comunicava com os outros membros do grupo através de telefonemas e cartas, quando precisava estar fisicamente presente enviava um outro policial branco no seu lugar. Depois de meses de investigação, Ron se tornou o líder da seita, sendo responsável por sabotar uma série de linchamentos e outros crimes de ódio orquestrados pelos racistas.

DIREÇÃO

Spike Lee Spike Lee

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Spike Lee
Título Original: BlacKkKlansman
Gênero: Policial
Duração: 2h 16min
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 22 de novembro de 2018 (Brasil)

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