MÃE SÓ HÁ UMA (Crítica)

Juca Claudino

Delicadeza Singular

Anna Muylaert disse, durante as entrevistas para a imprensa em relação ao lançamento de “Mão Há Só Uma”, que agora esperava curtir um merecido período de férias. É imaginável o quão movimentada estava sua carreira com o lançamento de duas obras esplendorosas em um intervalo de quase um ano: o aplaudidíssimo “Que Horas Ela Volta?” e esse surpreendente e belíssimo novo longa da diretora.

Nessas duas recentes obras cria personagens protagonistas significantemente diferentes, embora coloque como marca em ambas um diálogo crítico com as realidades e atualidades políticas e sociais brasileiras, seja no preconceito de classe mostrado no filme estrelado por Regina Casé, seja no preconceito quanto a sexualidade, orientação sexual e identidade de gênero (tão triste e absurdamente visível nas ruas, nas redes sociais, na mídia… na sociedade) mostrado em “Mãe Só Há Uma”. Além do mais, se é de semelhança entre esses dois filmes que estamos falando, há ainda outro fator que os aproximam: a demonstração do talento gigantesco que Muylaert tem na direção e na escrita de seus filmes, o vigor que ela imprime a cada situação que retrata, a energia e autenticidade que cada personagem seu transmite.

“Mãe Só Há Uma” é um filme literalmente sensível. Nos mostra a história de Pierre (Naomi Nero), um adolescente da classe média paulistana que, após quase duas décadas, descobre ter sido roubado na maternidade e, portanto, não era aquela sua família, não era Pierre o seu nome, não era onde estudava sua escola. Quase 20 anos depois, vai para uma casa diferente, é incorporado a uma família diferente, cai sobre os cuidados de responsáveis diferentes, recebe um nome diferente: Felipe. A irmã de Pierre (agora Felipe) também descobre ter sido roubada, e logo não era mais a sua irmã. Junto a esse momento extremamente conturbado da vida do personagem interpretado por Naomi Nero, este mesmo descobre que todas as imposições feitas pela sociedade fortemente heteronormativa a qual está inserido (e que é a nossa sociedade) quanto ao seu modo de se vestir, quanto aos papéis que deve assumir e quanto ao que deve gostar por “ser homem” não representavam a sua identidade individual – algo que não é nada raro, mas mesmo assim uma série de pessoas não aceitam essa realidade.

E desse pretexto Muylaert vai extrair um drama extremamente humano, capaz de entregar com muita realidade e muita veracidade os sentimentos que transbordam da alma de todos os personagens do elenco, mas em especial de um Pierre/Felipe que com seu silêncio e sua timidez refletem o medo, a insegurança e a frustração que se acumulam pelo fato de ter sua realidade remodelada de forma quase que desumana e pelo preconceito enfrentado por simplesmente usufruir da sua liberdade e dos seus direitos de ser quem ele bem identifica ser. “Mãe Só Há Uma” faz um arremate de delicadeza singular, intensamente empático até o último instante do longa, dando uma dimensão verdadeira nas ações retratadas no filme que, como resultado, gera uma intensidade emotiva (às vezes amarga, às vezes melancólica, mas sempre com imensa delicadeza) ao longo dos 82 minutos da obra.

Anna Muylaert, assim como fez com “Que Horas Ela Volta?”, constrói um longa penetrante, com atuações exuberantes. Se Naomi, como provavelmente já deve dar para perceber, está para lá de convincente e encantador, Luciana Paes cativa com a vitalidade de sua personagem e Matheus Nachtergaele está notável ao interpretar o pai da família de Felipe (a que o incorpora após o episódio da descoberta do roubo), o qual teme “perder seu filho novamente” – como o próprio afirma – mas seu preconceito barra suas tentativas de aceitá-lo. É notável a forma como Muylaert, inclusive, mostra as mudanças e as descobertas de Pierre/Felipe sobre sua personalidade. Na sua “segunda” família do filme – muito mais conservadora e preconceituosa em comparação com a qual Pierre/Felipe começa o filme -, ao mesmo tempo em que sente-se mais reprimido, sente também maior necessidade em expor de forma mais expressiva e completa quem realmente é: não se amedronta a usar roupas “femininas”, batom, esmalte, sutiã… ou, em suma, a expressar sua verdadeira identidade, seu verdadeiro eu.

Outro trunfo interessantíssimo do filme está relacionado a usar a mesma atriz (a excelente Dani Nefussi, dando um verdadeiro espetáculo em “Mãe Só Há Uma”) para interpretar as duas mães de Pierre/Felipe, algo que não só ressalta a ironia do título como, pelas próprias palavras de Anna Muylaert ao Ccine10, “tem um fundo freudiano de dizer que a mãe que te forma… é difícil você sair dela, algo vai sempre ficar com você”. Coisa que prova como o filme suscita um debate muito necessário em tempos de “estatuto da família” e de “valores da família tradicional brasileira”: o que é uma família? São laços forjados por uma série de regras que, segundo alguns, atacariam a moral se fossem quebradas; ou são laços construídos pelo amor? Coisa que poderia ser respondida por uma fala de Pierre/Felipe dirigida a própria mãe da segunda família: “vou visitar minha mãe [na prisão]” – não há outra mãe; sua única mãe, naquele instante, é somente a que o havia roubado 17 anos antes.

E, se é de debates suscitados pelo filme que falamos, no país que mais mata travestis e transsexuais do mundo (foram 600 mortes de 2008 a 2014) e registrou, em 2013, uma média de 9,31 violações de direitos humanos de caráter homofóbico, fazer um filme que dê visibilidade a comunidade LGBT é essencial e inegavelmente importante. Encarar o preconceito é essencial. Vencer o ódio é essencial. “Mãe Só Há Uma” não usa de caricaturas, não usa de estereótipos e não mostra a identidade ou a orientação sexual de Pierre/Felipe como uma patologia, pedindo aos familiares e próximos que a aceitem assim como se fosse um câncer. Não. Mostra na verdade o preconceito como algo horripilante, algo cujos resultados estão expressos nos números mostrados. “Mão Só Há Uma” até mesmo ganhou o Teddy Award no Festival de Berlim desse ano – premiação voltada ao cinema LGBT.

“Mãe Há Só Uma” é a uma obra cuja narrativa é conduzida com destreza e maestria por uma diretora cada vez mais (merecidamente) consagrada. Atuações impecáveis e cativantes. Além disso, é necessário elogiar a diretora de fotografia Bárbara Alvarez, cuja filmografia inclui filmes como “A Mulher Sem Cabeça” e o próprio “Que Horas Ela Volta?”, uma vez que sua fotografia em “Mãe Há Só Uma” ajuda a compor a delicadeza tão presente no filme a partir da subjetividade dos seus planos: nos momentos de libertação e epifania, um plano aberto majoritariamente bem iluminado; nos momentos de tensão, timidez ou repressão, o plano fechado, o detalhe nos olhares, a iluminação baixa. Um longa que riquíssimo, com reflexões poderosíssimas e brados pelo respeito à diversidade.

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SINOPSE

Pierre descobre que sua família não é biológica quando a polícia prende sua mãe. Confuso, ele vai atrás de seus parentes verdadeiros, que o conhecem como Felipe, e a nova realidade faz com que o rapaz encontre finalmente sua real identidade.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Anna Muylaert
Título Original: Mãe só há Uma
Gênero: Drama
Duração: 1h 22min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 16 Anos
Lançamento: 21 de julho (Brasil)

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