MAIS FORTE QUE BOMBAS (Crítica)

Juca Claudino

O que é mais forte que uma bomba?

Joachim Trier é um nome para se ficar muito atento. O diretor de 42 anos mostra ter muita personalidade em seu cinema, um olhar autoral singular e uma abordagem angustiante sobre a vida. É um cinema ultra-pessoal, o qual fez com que o crítico Nick Roddick, da revista inglesa Sight and Sound, classificasse Trier como um “mestre da anomia moderna”. O cinema do norueguês fala sobre identidade, do sentimento de solidão, da angústia existencial. E nesse seu novo “Mais Forte que Bombas”, que estreou no Festival de Cannes de 2015 (em competição), cria uma espécie de rede de angústias, uma cadeia de dramas pessoais que se interlaçam: uma família estadunidense vive uma série de dramas após eventos que envolveram a morte de Isabelle Joubert, interpretada pela lendária Isabelle Huppert, mãe de Conrad (David Druid) e Jonah (Jesse Eisenberg), e casada com Gene (Gabriel Byrne). O filme nos permite estudar o âmago desses personagens, entender a humanidade neles, colocando porém nisso, doses de realismo e delicadeza (com o resultado de um envolvente drama)

“Mais Forte que Bombas” não foi o maior destaque de Cannes em 2015 a curto prazo, porém é fato que Joachim Trier ganhou uma visibilidade maior por parte do público e crítica a partir da exibição de seu novo filme. Após lançar dois ótimos longas como diretor (“Começar de Novo”, de 2007 e “Oslo, 31 de Agosto“, de 2011), nos quais retrata a dor e a falta de identidade por parte de seus protagonistas a partir de uma linguagem delicadamente realista, o diretor norueguês lançou no festival francês sua primeira produção em inglês, contando com um elenco com Jesse Eisenberg e Isabelle Huppert – cá entre nós, nada mal. Fato é que seu novo filme traz uma personalidade notável: Trier deixa claro que é um diretor autoral, e consegue entregar uma sensibilidade às suas obras que é singular. Talvez por isso ganhe mais atenção para um próximo filme que venha a lançar.

O filme começa já com uma grande provocação a partir do título. “Mais Forte que Bombas” (ou em inglês, “Louder Than Bombs”), brinca com nossa percepção: o que, no filme, é mais forte que uma bomba. Com isso, Trier dribla o senso comum e a superficialidade daqueles que enxergam apenas na estética do filme a sua essência, e nos obriga a fazer uma análise transcendental da potência a qual o filme esconde. É no âmbito da profundidade de seus personagens, do mergulho dentro de suas inquietudes e seus inconformismos, que conseguimos sentir a força a qual o diretor norueguês promete ser mais forte que bombas. São nos medos e na timidez social enfrentada por Conrad, adolescente secundarista que busca maior aceitação e auto-estima para si, que sentimos a primeira explosão. É na busca pela tentativa de ajudar sua família a superar uma crise, enquanto tenta encarar o fato de assumir responsabilidades maiores tanto profissional como socialmente por parte de Jonah, irmão mais velho de Conrad, que sentimos a segunda explosão. É na necessidade de Gene em se aproximar mais de seus filhos (Jonah e Conrad), que ouvimos uma terceira. E, ainda, é ao compartilharmos dos questionamentos que Isabelle Jabour, uma das maiores fotógrafas do mundo, especializada em fotografar cenários de guerra – ou situações de alto risco, como chamam no filme -, faz sobre sua vida que sentimos uma quarta explosão. Esta última, porém, importantíssima para a trama da história: serão tais questionamentos que levarão Isabelle a cometer suicídio, enquanto todos crêem que a causa de sua morte na verdade foi um acidente de carro – apenas seu marido e algumas pessoas mais próximas sabem da verdade por trás do fato.

O filme parte de questões centradas em torno da morte de Isabelle e, a partir daí, vai nos revelando os medos que nossos personagens escondem por detrás da sua vida cotidiana. “Mais Forte que Bombas” é isso: um grande caldeirão de sentimentos, positivos e negativos, que se interlaçam, gerando uma grande rede de dependência sentimental (ou seja, cada atitude de um personagem acaba gerando um reflexo, positivo ou negativo, n’outro). O filme, porém, trabalha isso em uma linguagem simples, elegante, realista, em um ritmo pouco frenético. Ou seja, Trier representa uma realidade sóbria esteticamente, mas a transgride com seu excelente roteiro – escrito com seu parceiro de todas as horas Eskil Vogt (diretor de “Blind”) com quem escreveu todos os roteiros de seus longas – que constrói personagens cuja exposição de suas angústias é algo potente. O cotidiano, logo, para Joachim Trier, ganha ares mais rebuscados, quebrando com a ideia de “normalidade” por trás dele – vivemos momentos intensos a cada instante.

Joachim Trier faz um filme expressivo. Que interessante experiência foi assistir a esse “Mais Forte que Bombas”. Filmado com certa elegância e sobriedade, transmitido com bastante força e sentimentalismo. É, de fato, um belo estudo múltiplo de personagens. Existem cenas no filme, que, de tão delicadas e penetrantes, nos cativam de uma forma viciante. Apesar de tudo, tantas campanhas cobrando maior número de oportunidades para atores negros e maior representatividade (sempre lembrando, #OscarSoWhite) e nesse filme, com tantos personagens, temos uma imensidão de atores brancos. Bom, deixado esse protesto, já que “Louder Than Bombs” é também um álbum da banda inglesa The Smiths, vamos terminar a crítica com versos de “Panic” (uma das músicas de maior sucesso do álbum) que diz “I wonder to myself/Could life ever be sane again?” (“eu me pergunto/Pode a vida ser sã novamente?”) – certamente Conrad, Jonah, Gene, Isabelle e outros no filme devem se perguntar a mesma coisa.

MAIS FORTE QUE BOMBAS

SINOPSE

Uma exposição celebrando a fotógrafa Isabelle Reed (Isabelle Huppert) três anos após sua morte prematura traz seu filho mais velho Jonah (Jesse Eisenberg) de volta para a casa da família – forçando-o a passar mais tempo com seu pai Gene (Gabriel Byrne) e com seu recluso irmão mais novo Conrad (Devin Druid) do que ele passou em anos. Com os três sob o mesmo teto, Gene tenta desesperadamente conectar-se com seus dois filhos, mas eles lutam para reconciliar seus sentimentos em relação à mulher que eles se lembram de maneira tão diferente.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Joachin Trier” espaco=”br”]Joachin Trier[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Joachim Trier e Eskil Vogt
Título Original: Louder Than Bombs
Gênero: Drama
Duração: 1h 49min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 7 de abril de 2016 (Brasil)

Comente pelo Facebook