MAIS QUE MEL (Crítica)

MAIS QUE MEL

4emeio

Mais que mel – Uma visão nada doce sobre o tratamento com as abelhas

Por Emílio Faustino

MAIS QUE MEL03

Em um cenário de filmes com slogans altamente previsíveis, o documentário “Mais que Mel” do diretor Markus Imhoof chega aos cinemas com uma frase no mínimo intrigante: “Se as abelhas desaparecerem da face da terra, a humanidade terá apenas mais 4 anos de existência” (Albert Einstein). Se tal afirmação for verdadeira, o mais recente documentário de Markus Imhoof, com previsão de estreia para o dia 27 de setembro, mostra que temos muito com o que nos preocupar.

Comentário paralelo: Essa mesma frase de Einstein é usada no filme “Fim dos Tempos” do diretor / gênio do suspense contemporâneo M. Night Shyamalan. Na ficção, o desequilíbrio do ecossistema desencadeia uma série de efeitos nas plantas, que por sua vez passam a emitir uma espécie de substância que estimula o suicídio dos humanos.

Uma brisa total, correto? Nem tanto quanto gostaríamos… Embora o documentário não tenha o mesmo tom apocalíptico do filme de Shyamalan, ele suscita a preocupação com os rumos não só das abelhas, mas sobre tudo da humanidade. (Afinal, esse foi o jeito de fazer com que as pessoas vissem o filme, até porque, se fosse para mostrar apenas o drama das abelhas, dificilmente haveria interessados na história).

Isso porque vivemos em uma sociedade altamente individualista, que pensa na maior parte do tempo apenas em seus próprios interesses. Inclusive o documentário sabiamente explora isso, e apresenta tais situações em depoimentos espontâneos de pessoas que veem números e dinheiro, onde outros ainda conseguem enxergar a vida.

Além de mostrar o processo de desaparecimento das abelhas, entre 50% e 90% das abelhas do mundo desapareceram nos últimos 15 anos, “Mais que mel” mostra o impacto disso na sociedade e o papel da humanidade para que este fenômeno não se torne cada vez mais grave. Mais que isso, o filme mostra o quão responsáveis somos pelo desaparecimento das espécies de abelhas.

O documentário que mais parece um misto de programa da Discovery com o documentário “Uma Verdade Inconveniente”, conta com imagens belíssimas da sociedade das abelhas, embalado por uma trilha sonora suave e dá uma verdadeira aula de ecossistema, sem dúvida uma excelente oportunidade para os professores aprofundarem o assunto com seus alunos. (Leia-se: levem seus alunos para o cinema).

MAIS QUE MEL02

Para fazer o filme, Imhoof passou por 5 anos de pesquisa para entrar a fundo no mundo das abelhas e mostrar de perto a situação atual delas que vêm passando por um processo de extinção, segundo ele hoje praticamente não existem mais abelhas selvagens.

O ponto ruim do filme é que ele não possui uma identidade visual própria, a edição segue os moldes e a abordagem dos documentários que estamos acostumados a ver por ai. Embora o assunto seja muito interessante e potencialmente polêmico, o filme não consegue ir além da insinuação dos fatos, ele não aponta um caminho, tão pouco propõe uma solução.

Digo insinuação e não apresentação dos fatos, pois em certo momento do filme é citado um incidente que aconteceu na USP, onde abelhas africanas fugiram do criadouro provocando uma série de problemas na América do Sul, Central e do Norte. Mas em momento algum eles ouviram alguém da instituição ou falaram sobre do que se tratava a pesquisa da USP. (Quer dizer… Eles acabaram com a imagem do Brasil, não falaram sobre o que estávamos pesquisando e pior: não deram a oportunidade dos pesquisadores se defenderem). #chateado

Um dos pontos mais chocantes do filme é a realidade da China, onde não existem mais abelhas e a polinização é feita de forma manual pelas pessoas do campo. (Este é aquele momento do filme que a gente para e pensa: “Vixe, a coisa é mais séria do que eu imaginava”).

Esse é o segundo documentário de Markus Imhoof, ele também esteve no projeto “Le film du cinema suisse”, junto com outros diretores suíços. Imhoof ficou conhecido mundialmente pelo filme “O barco está cheio” (Das Boot ist voll), que dirigiu em 1981 e concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

“Mais que mel”, é um documentário que vai além do universo das abelhas, ele apresenta a forma desumana como estes insetos são tratados e de como o homem é capaz de tirar vantagens daqueles que naturalmente já nos beneficiavam. (As imagens das abelhas sendo esmagadas no processo de industrialização do mel são impactantes e remetem à uma das maiores atrocidades da humanidade: o holocausto, só que ao invés de pessoas, são abelhas).

O filme consegue o feito de humanizar as abelhas, que são criadas, exploradas e descartadas à medida dos caprichos do homem.

Se levarmos em conta que 1/3 dos alimentos que consumimos não existiriam sem as abelhas, podemos chegar a conclusão de que a ganância, o egoísmo e a total ausência de senso coletivo de alguns, podem contribuir para um cenário geral digno de “Fim dos Tempos”. Só que dessa vez não se trata mais de uma ficção, infelizmente.

MAIS QUE MEL01

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Markus Imhoof” espaco=”br”]Markus Imhoof[/do]

SINOPSE

Em menos de quinze anos, 50% a 90% das abelhas desapareceram do globo terrestre. Os agrotóxicos e eventuais predadores contribuem certamente para o fenômeno, mas nada justifica uma queda tão brusca no número destes insetos. O documentário investiga a responsabilidade dos homens no desaparecimento das abelhas, lembrando que sem a polinização feita por elas, até 80% das frutas e legumes podem sumir da face da Terra. Mesmo Einstein já tinha dito que sem esses animais, o ser humano sobreviveria no máximo quatro anos.

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Markus Imhoof e Kerstin Hoppenhaus
Título Original: More than Honey
Gênero: Documentário
Duração: 1h 31min
Ano de lançamento: 2013
Classificação etária: 10 anos

TRAILER

Comente pelo Facebook