MALÉVOLA (Crítica)

MALEVOLA

3estrelas

Por Pedro Vieira

O FILME QUE A DISNEY PRECISAVA, MAS QUE MALÉVOLA NÃO MERECIA

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Primeiramente um comentário pessoal: quando eu era criança e vi pela primeira vez o animado “A Bela Adormecida” da Disney, lembro-me de ter ficado espantado com a aparição da vilã Malévola no batizado da princesa. Aquela personagem me chamou muito a atenção, e eu adorava todas as cenas em que ela aparecia com seu humor irônico, além da sequência climática em que ela se tornava um dragão. Malévola é minha vilã favorita, motivo pelo qual venho aguardando com grande ansiedade a chegada do filme “Malévola” (Maleficent), desde que o mesmo foi anunciado no começo de 2010. Justamente por adorar o fato dela ser tão má e cruel, é difícil para mim aceitar as diversas mudanças feitas na personagem pela Disney neste novo longa – mas sou obrigado a lembrar que toda adaptação tem liberdade para modificar, da forma que lhe for convir, o seu produto de origem.

E como se trata de uma adaptação, logo no início a Disney já mostra que irá apresentar uma história bem diferente do conto que conhecemos. Assim, o público conhece uma fada Malévola (Angelina Jolie) que possui asas e é boazinha, além de ser a protetora do reino dos Moors. Ela se apaixona por Stefan (Sharlton Copley), um humano pobre, mas que ambiciona mudar de vida. Porém, o romance dura pouco e após Stefan trair a fada para poder se tornar rei, Malévola busca vingança rogando um feitiço sobre a filha do seu antigo amado, a princesa Aurora (Elle Fanning).

Assim que a história começa, chama a atenção o fato do roteiro de Linda Woolverton (que também roteirizou “O Rei Leão” e “A Bela e a Fera”) não se preocupar em explicar o porquê do nome da personagem ser Malévola (afinal, ela é boa no começo do filme), ou os detalhes da mesma possuir chifres e grandes asas, se diferenciando assim do restante das fadas. Do mesmo modo, conforme a narrativa progride, não há uma menção sequer aos falecidos pais de Malévola e Stefan (o fato de ambos serem órfãos é um dos motivos utilizados pelo roteiro para que eles se tornem tão próximos). Mas se esses detalhes são ignorados, deixa-los de lado pelo menos traz a Woolverton a oportunidade de desenvolver bem a trágica história da fada traída, realçando como a personagem pode ser mais complexa do que parece. Falha, porém, em utilizar demasiadamente da narração em “voice over”. Tentando resgatar o sentimento de se contar um conto de fadas por palavras, o roteiro acaba fazendo com que o filme ganhe excessivas passagens só com narrações, o que fica cansativo, se esquecendo de que as imagens são mais importantes, e que elas próprias conseguem contar a história, sem precisar da interferência do narrador toda hora.

A grande surpresa no roteiro está na formação de uma relação quase singular: a de Malévola e Aurora, que juntas acabam criando um laço de mãe e filha. A fada vai se preocupando cada vez mais com a jovem princesa, sendo esta última a mais beneficiada dessa relação. Afinal, não se trata apenas de uma Aurora sonhadora, mas de uma adolescente curiosa e pronta para descobrir o mundo e lidar com os problemas de sua vida – principalmente aqueles em que ela não tem controle. Já Malévola, em certo a ponto de narrativa, se tornar uma anti-heroína. Isso demonstra que, mesmo vendendo este como o filme de uma vilã, a Disney não consegue (ou não se interessa em) fazer um filme com uma personagem má, de modo que é sempre necessário mostrar que ela teve suas motivações para jogar a maldição, assim como ela pode se redimir.

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Isso, entretanto, não tira o carisma da fada maravilhosamente interpretada por Angelina Jolie, que sabe dar charme e elegância à personagem, unindo estes elementos às características maternais que a mesma possui na história. Elle Fanning, que interpreta a princesa, não fica para trás, trazendo a densidade dramática certa para Aurora. Já Sharlton Copley, apesar de ser um bom ator, fica preso a um antagonista insosso, que mesmo envolvido em uma busca de vingança paranoica, pouco consegue convencer como um verdadeiro louco. O humor do filme fica por conta do trio de fadas encarnadas por Imelda Staunton, Lesley Manville e Juno Temple, arrancando algumas risadas durante a projeção. O mesmo não acontece com Sam Riley, que faz o meio-corvo, meio-humano, Diaval, que busca várias vezes se mostrar como um personagem humorístico, mas acaba falhando em sua tentativa.

Porém, o que chama grande atenção em “Malévola” não é sua história, e sim sua parte técnica e artística. O diretor Robert Stromberg, que estreia no cargo após ser premiado por diversos trabalhos na área de direção de arte como “Avatar” e “Alice No País das Maravilhas”, busca em vários momentos se distanciar do convencional e trazer um toque quase “autoral” ao longa. É algo que se percebe bem principalmente nas cenas de ação, onde o Stromberg abusa do uso de zoons e de efeitos em slow-motion, junto de sequências de luta bem coordenadas. Entretanto o slow-motion não chega a ser inovador, e lembra e muito os primeiros filmes do diretor Zack Snyder – inclusive, há uma cena de “Malévola” que se assemelha demais ao início de “Watchmen”.

Como era de se esperar, a direção de arte, que aqui fica nas mãos da dupla Dylan Cole e Gary Freeman, é impecável, e se alinha muito bem aos incríveis efeitos especiais – ainda mais belos no 3D. Destaque para os figurinos de Anna B. Shepard, que foi capaz de dar chifres à Malévola. A fotografia também é igualmente bem trabalhada, em especial na sequência antecedente ao momento em que Aurora espeta seu dedo. Entretanto, vale dizer que o filme nada tem de “dark”, como prometiam os trailers, embora ainda guarde características góticas resgatadas do desenho animado que o originou.

“Malévola” se insere bem no novo padrão de filmes idealizados pela Disney, que a exemplo de “Frozen” e “Detona Ralph”, buscam mostrar personagens mais complexos, que fogem da já batida dicotomia “bem” e “mal”. É um filme que agradará o público mais jovem, mas pode deixar os fãs do desenho animado “A Bela Adormecida” descontentes com suas mudanças narrativas. Mas agradando ou não, o fato é que é um bom começo na carreira de direção para Robert Stromberg, e deve trazer um novo gás para as produções da Disney, que provavelmente seguirá em frente com a ideia de apostar em seus famosos vilões como protagonistas – ainda que tenha que torna-los bonzinhos para isso.

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SINOPSE

Baseado no conto da Bela Adormecida, o filme conta a história de Malévola (Angelina Jolie), uma mulher movida pelo sentimento de vingança e pelo desejo de se manter no poder. Para enfrentar o rei, ela coloca um feitiço na filha dele, Aurora (Elle Fanning), fazendo com que a garota fique indecisa entre defender o reino dos humanos e o reino da floresta, de que aprendeu a gostar. Quando Malévola percebe que Aurora está prestes a estabelecer a paz entre os mundos, a vilã é obrigada a tomar uma decisão drástica.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Robert Stromberg” espaco=”x”]Robert Stromberg[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Linda Woolverton e Paul Dini
Título Original: Maleficent
Gênero: Fantasia
Duração: 1h 37min
Ano de lançamento: 2014
Classificação etária: 10 Anos

TRAILER

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4 Comentários

  1. ana clara

    muito bom,. resumi para um trabalho de escola e a professora disse que estava muito boa