MINHA MÃE É UMA PEÇA 2 (Crítica)

Juca Claudino

Entretenimento razoável… Mas não teria potencial para mais?

Um dos maiores expoentes da assim chama “globochanchada”, Paulo Gustavo volta aos cinemas com a Dona Hermínia, seu cômico estereótipo lançado no teatro em “Minha Mãe É uma Peça”. Em 2013, lançara o filme baseado nesta obra – cujo nome é ao mínimo contraditório – “Minha Mãe É uma Peça – O Filme” e agora, empolgado com satisfatório lucro rendido pelo subgênero, além do crescente reconhecimento que vem se acumulando do seu público alvo para o cujo dito, juntou-se a maioria do elenco da primeira película visando dar continuidade a saga neste “Minha Mãe É uma Peça 2: O Filme”.

Creio que análises, críticas e resenhas já foram escritas aos montes sobre esse novo “fenômeno” que acobertou o circuito comercial brasileiro e, de certa forma, superou o preconceito com o cinema não-estadunidense (preconceito esse extremamente enraizado no “complexo de vira-lata”), mas que ao mesmo tempo não passa de uma grande reprodução da linguagem estandardizada da indústria cinematográfica hollywoodiana – o que não deixa de ser um sintoma de “imperialismo cultural” dos norte-americanos. “Fenômeno” não só pois superou este preconceito, mas também por ter sido solidificado como subgênero frutífero quanto à renda comercial justamente com essa fórmula de roteiro – parva, histérica, de personagens estereotipados e situações bizarramente (e bota bizarra nisso) inusuais – como também por ter mostrado como a utilização do universo de atores globais pode atrair o público para o cinema. Logicamente, em breves anos revisitarão esse momento do cinema para reestudar o que significaram as “globochanchadas”. Mas concentremo-nos mais no filme a partir de então.

Uma das coisas que mais distinguem “Minha Mãe É uma Peça 2” dos outros filmes dessa geração de comédias é justamente o fato de utilizar um enfoque mais cotidiano e corrente ao invés das surrealidades as quais os outros roteiros dessa costumam nos fornecer: a fuga de uma mulher para não ser internada, a imprevisível herança que torna milionário do dia para noite um morador da periferia, peripécias em meio a um cruzeiro de luxo em alto mar. Não nesse caso, que apenas enquadra uma família de classe média altíssima do centro do Rio de Janeiro dentro [de uma versão tornada menos mesquinha] do seu típico cotidiano. Diferentemente do primeiro filme, este é mais democrático quanto ao espaço que dá para expressão dos coadjuvantes: se antes Marcelina, Juliano, Garib e o ex-marido eram retratados sob a ótica áspera de Hermínia, agora estes têm um número maior de cenas nas quais podem expressar um ponto de vista mais particular – e o fazem contrabalanceando os seus desarranjos e vícios com algum caráter simpático (exceto Carlos Alberto, o ex-marido, este ainda alguém que não passa de um canalha). Agora, quanto à comparação da qualidade dos dois filmes, o primeiro mostra-se mais original ao humoristicamente brincar com a visão de mundo de Dona Hermínia, remexendo nos mais vastos estereótipos sociais acerca da figura da “mãe” (obviamente trazendo à tona uma série de padrões sociais de gênero), como definiu Paulo Gustavo.

De fato, “Minha Mãe É uma Peça 2” acaba sendo um tanto entediante em alguns momentos de mais sentimentalidade e o desenvolvimento da narrativa pode não manter uma linearidade no envolvimento entre espectador e filme. Tais fatos acabam por afastar nosso interesse pelo longa, efeito que é reduzido graças aos momentos de traquinagem de Dona Hermínia – que são risíveis, mas nem sempre – e por atuações que, em geral, são satisfatórias. Todavia, não deixa de ser um filme irregular e repetitivo, sem nenhuma marca artística a qual o distingua nesse cenário de globochanchadas.

Os estereótipos sociais, tão frequentes nesse filme, podem nos fazer rir em dados momentos por remeterem a situações cotidianas realmente frustrantes: a cena na qual a vó Hermínia tem de lidar com o elétrico neto, por exemplo, é algo que nos remete a cenas diárias que se transformam em memórias as quais o roteiro simplesmente nos convida a revisitar, agora com a celebrável diferença de estarmos trajados com os óculos da caricatura humorística. Porém, em alguns outros casos, não deixa de ser incômodas certas piadas intolerantes (gordofóbicas, por exemplo) além, é claro, da romantização da mulher “bela, recatada e do lar”, feita a partir da personagem da Dona Hermínia, que acaba não levando em consideração o quanto diversos elementos que rondam aquele “arquétipo” da “dona-de-casa” acabam por simbolizar imposições, por via da criação de um papel social, extremamente negativas e opressoras às mulheres – além, é claro, de nos apresentar uma visão muito mais “conto-de-fadas” da vida, algo já deduzível pelo próprio contexto de criação da obra.

Mas, em geral, nada que possa falar de “Minha Mãe É uma Peça 2: O Filme” já não seja apreensível apenas por deduções, exceto quanto a sua qualidade de entretenimento – que no fim das contas acaba por ser razoável. É padronizado quanto à direção e tem uma construção superficial das relações humanas, as quais os laços amorosos são rebaixados a meros clichês – enquanto se ressalta a parvoíce gritante e gratuita das atitudes irracionais dos personagens (atitudes repletas de certo clichê e alguma banalidade). O longa, dirigido por César Rodrigues (diretor de alguns episódios de “Vai que Cola”), pode por ora não tornar a narrativa interessante por prender-se a baixa exploração dos recursos cinematográficos – o que não torna o roteiro necessariamente desprezível, mas dramaticamente inexpressivo pela forma que é filmado -, porém seria imensamente injusto dizer que não há tiradas muitíssimo boas e que não tenha arrancado alguns risos da crítica. O que nos leva a pensar se todo o potencial humorístico e de entretenimento do Paulo Gustavo já foi usado nos cinemas como o próprio demonstra ter na TV, onde alcança números apreciáveis de IBOPE com suas séries, e no teatro, onde já é consagrado.

MINHA MAE E UMA PECA 2

SINOPSE

Dona Hermínia (Paulo Gustavo) está de volta, desta vez rica, pois passou a apresentar um bem-sucedido programa de TV. Porém, a personagem superprotetora vai ter que lidar com o ninho vazio, afinal Juliano (Rodrigo Pandolfo) e Marcelina (Mariana Xavier) resolvem criar asas e sair de casa. Para balancear, Garib (Bruno Bebianno), o primogênito, chega com o neto. E ela também vai receber uma longa visitinha da irmã Lucia Helena (Patricya Travassos), a ovelha negra da família, que mora há anos em Nova York.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Fil Braz, Paulo Gustavo
Título Original: Minha mãe é uma peça 2
Gênero: Comédia
Duração: 1h 38min
Classificação etária: 12 anos
Lançamento: 22 de dezembro de 2016 (Brasil)

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