NINFOMANÍACA: VOLUME 2 (Crítica)

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Por Emílio Faustino

A linha tênue entre o bizarro, o poético e o erótico.

NINFOMANIACA VOLUME 203

Confesso que cheguei a sessão de “Ninfomaníaca volume 2” com os dois pés atrás, para ser bem franco com vocês leitores, acabei vendo primeiro o volume 2 e só depois consegui conferir o volume 1.

Agora que já vi as duas partes dessa unidade, posso compartilhar com vocês minhas impressões e dizer o porquê dos meus pés atrás com a tão estimada obra de Lars Von Trier.

Sabe aquela frase que diz que toda unanimidade é burra? Pois bem, antes mesmo dos filmes serem lançados, muitos já o consideravam uma obra prima do cinema. O que automaticamente me fez querer ver o filme única e exclusivamente para contrariá-los.

Não que eu goste de ser do contra, mas acredito que muitas vezes um autor é tão superestimado que as pessoas preferem dizer que gostaram pelo simples fato de não quererem se dar ao trabalho de reunir argumentos para explicar os porquês de não terem gostado.

Como se não gostar de um filme X endeusado por muitos, fosse sinônimo de burrice ou falta de capacidade de compreendê-lo em sua totalidade… (Bobagem isso…)

O problema é que neste caso especifico eu amei o filme, e isso quebrou as minhas pernas. Impressionante como um filme que narra à saga de uma ninfomaníaca consegue ser tudo menos vulgar.

A forma como o sexo é abordado é tão fantástica e natural que mesmo contendo zilhões de cenas de sexo e nudez, o filme consegue ter conteúdo suficiente para que tamanha exposição não ficasse sem peso ou sem sentido. A verdade é que o filme não seria o mesmo sem tamanha exposição, pois o objetivo da obra (pelo menos essa foi minha interpretação) é justamente transformar em banal algo que na nossa sociedade ainda é um assunto tabu: o sexo.

“É possível classificar as qualidades humanas em uma palavra: hipocrisia”, dita por Joe nossa protagonista, esta frase defende bem qualquer crítica que possa vir do público mais moralistas.

Aliás, um dos grandes feitos do filme é questionar de forma contundente os conceitos de moral, ética e é claro como não podia deixar de ser da religião, que influenciou de forma definitiva nos conceitos supracitados. (Destaque para a cena em que Joe vai parar em um clube de Ninfomaníacas Anônimas, a fala dela nesta cena é realmente sensacional)

Sem maiores surpresas, a história do volume 2 continua exatamente do ponto que parou em seu anterior. O que fica claro, no entanto, é que enquanto o volume 1 tratou de mostrar as descobertas do prazer, o volume 2 esta mais focado nos conflitos que a busca incessante pelo sexo pode causar.

NINFOMANIACA VOLUME 201

Já com um filho para criar e um marido que por mais que se esforce não consegue saciar o apetite sexual de Joe, a parte 2 do filme traça uma linha imaginária que separa de forma fria amor e sexo. Onde é claro, o amor sucumbe em detrimento ao sexo, justificando assim o slogan do cartaz “Esqueça o amor”.

É interessante/ bizarro observar a “evolução” dessa personagem que é totalmente submissa aos seus desejos. De tal forma que na busca por novas sensações acaba por se colocar em situações de risco sem medir as consequências de seus atos.

Nesse novo capitulo da história, o sexo é abordado das mais diversas formas, desde o tradicional: sexo oral, masturbação até a dupla penetração, chuva de prata, masoquismo e até mesmo pedofilia é abordado. (Este último de forma não direta).

A impressão que dá, é que o diretor tentou colocar em um único filme tudo que havia de polêmico envolvendo sexo. (Por sorte ele se esqueceu da zoofilia, porque definitivamente eu não teria estomago para isso.)

A fotografia sem maiores exageros esta impecável, as tomadas de câmera estão gênias, alternando bastante entre o primeiro e segundo plano, foco e desfoco, o que em muitas vezes nos direciona a olhar as expressões dos atores e não o órgão genital que embora esteja na cena é colocado em segundo plano como algo banal.

Outro aspecto interessante do filme é a inserção de números que se sobrepõem as cenas de sexo. Além de dar um ar contemporâneo à obra e criar uma identidade visual impar, contribuiu na trama para colocar o sexo como algo tedioso, como se o ato em si para a personagem fosse algo mecânico e não orgânico.

A trilha sonora é composta majoritariamente por música clássica, mas também contém uma pitada de rock, uma mistura que deu certo.

Com um elenco que se doou de forma brilhante e por que não dizer chocante, o filme possui uma narrativa agradável, repleta de bons diálogos e pausas para divagações.

O volume 2 de “Ninfomaníaca” mantém o seu caráter polêmico e traz em sua conclusão uma espécie de tapa na cara da sociedade ao questionar a cultura machista.

“Ninfomaníaca 2” é a conclusão de um filme que realmente não cabia em apenas 2 horas. Diferentemente de filmes como Crepúsculo e O Hobbit cuja divisão em duas e três partes se deu apenas para visar lucro, aqui fica nítido que tal divisão se deu para aprofundar o assunto e explorá-lo das mais diversas formas.

Concluindo, o filme consegue encontrar espaço para cenas bizarras, hilárias, excitantes e poéticas. Da pra rir, ter nojo, se excitar, ficar constrangido enfim… Isso varia de pessoa pra pessoa… O que é certo, é que dificilmente alguém conseguirá passar indiferente a este filme.

Vale apena conferir, “Ninfomaníaca 2” que estreia hoje no Brasil. Em alguns cinemas será possível a façanha de assistir o Volume 1, sair e ver o 2 graças ao curto intervalo de lançamento entre um filme e outro. Uma ótima oportunidade para aqueles que curtem fazer uma sessão dupla no cinema!

E sim, eles estavam certos, trata-se de uma obra-prima.

NINFOMANIACA VOLUME 202

SINOPSE

Segunda parte das aventuras sexuais de Joe (Charlotte Gainsbourg), uma mulher de 50 anos que decide contar a um homem mais velho (Stellan Skarsgard) sua história pessoal.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Lars von Trier ” espaco=”br”]Lars von Trier[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Lars Von Trier
Título Original: Nymphomaniac – Volume 2
Gênero: Drama
Duração: 2h 04min
Ano de lançamento: 2014
Classificação etária: 18 Anos

TRAILER

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4 Comentários

  1. Danilo

    Cara***!
    Muito boa a crítica. Estava procurando um site assim para guiar minhas escolhas. Continue com o trabalho, brother. Parabéns.

  2. Osnir Lima

    Cara, embora eu não tenha a mesma opinião que você sobre o filme, concordo completamente com você no que diz respeito àqueles que simplesmente “vão na onda” do que está na moda por preguiça ou quem sabe até por incapacidade de reunir argumentos e fundamentar o porque não gostou do filme. Sobre o filme, acredito que é muito mais fácil destruir as coisas do que construir e ainda assim há quem valorize aqueles que destroem. Desta forma, entendo que é muito mais fácil causar repulsa do que ternura, é mais simples mostrar bizarrices do que a verdadeira beleza do ser humano, é mais fácil provocar escuridão do que luz. No entanto, não há dúvida que sempre haverá quem ache esse tipo de obra algo genial. Sempre existirão aqueles, que ainda que subconscientemente, se sentem infelizes e não se satisfariam com a ideia de alguém realmente pode ser feliz de verdade. Sendo assim sempre existirá espaço para os Von Trier da vida fazerem qualquer lixo e serem aplaudidos, contanto que não existam heróis nem mocinhos na história e que todos acabem mal no fim da película. No caso de “Ninfomaníaca”, diversas cenas estavam presentes sem função dramática nenhuma, a sensação que me passou foi que foram colocadas lá com a única função de “causar repulsa”. Li recentemente que no mercado de arte, pintores e escultores, sem grande conteúdo, estão sendo supervalorizados por suas obras por “pistolões” que querem usar essa fama apenas para atrair dinheiro. Creio que o mesmo está ocorrendo no cinema. Eu sou fan do ser humano e prefiro ver ressaltadas suas virtudes sobrepondo-se a seus defeitos, porque foi para isso que nascemos. O mundo tem dois lados, ambos verdadeiros, cada um escolhe por que angulo quer enxergar..