NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA (Crítica)

Juca Claudino

FICHA TÉCNICA

Título Original: Annie Hall
Ano do lançamento: 1977
Produção: EUA
Gênero: Comédia, Romance
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Classificação etária: 16 Anos

Sinopse: Alvy Singer (Woody Allen), um humorista judeu e divorciado que faz análise há quinze anos, acaba se apaixonando por Annie Hall (Diane Keaton), uma cantora em início de carreira com uma cabeça um pouco complicada. Em um curto espaço de tempo eles estão morando juntos, mas depois de um certo período crises conjugais começam a se fazer sentir entre os dois.

Noivo Neurotico Noiva Nervosa

40 anos de “La di da”!

Falar de Woody Allen é complicado. Depois de mais de 60 anos de carreira, diversas fases da sua obra as quais foram marcantes para a história do cinema e polêmicas verdadeiramente assombrosas, o nova-iorquino tornou-se uma figura indiscutivelmente controversa. Esse ano, no Festival de Cannes, Susan Sarandon afirmou crer que Woody abusou sexualmente de uma criança: “não tenho nada de bom a dizer sobre ele”. Tal afirmação, fortíssima, refere-se à acusação de ter abusado sexualmente de sua filha de 7 anos (em 1992), Dylan Farrow. Nesse ano, o diretor de “Manhattan” e “Desconstruindo Harry” foi julgado inocente pelas autoridades que cuidavam do caso, embora no ano de 2014 a própria Dylan tenha escrito uma carta aberta falando do caso: “(…) ele abusou sexualmente de mim.” Ainda, a atriz Mariel Hemingway afirmou ter sido assediada por Woody Allen durante as gravações de “Manhattan” (à época, a atriz tinha 18 para 19 anos).

A justiça até hoje não incriminou Woody Allen e nem o julgou culpado por nenhuma dessas acusações, após uma série de investigações contra ele. Mas vivemos em meio à cultura do estupro e em meio a uma sociedade machista. Quantos cineastas homens já também foram acusados de terem abusado ou violentado mulheres (Tippi Hedren, atriz de “Os Pássaros”, denunciou Alfred Hitchcock por tê-la assediada sexualmente), muitos desses casos já comprovados (Bertolucci e Brando na criminosa e ultrajante cena da manteiga de “Último Tango em Paris”, quando a atriz Maria Schneider foi estuprada em cena; ou então Sean Connery, que publicamente assumiu ter agredido mulheres e ainda afirmou que “se uma mulher age como uma vaca, ou está histérica, ou irritante continuamente, então eu faria [um ato de agressão física]. Acho que um homem deve estar à frente das mulheres”), e nós continuamos encarando esses episódios com naturalidade e pouca relevância?

Pensando na obra sexagenária de Woody Allen, esta pode ser descrita a partir de diversas marcas da sua autoria. Os roteiros dinâmicos, com diálogos perspicazes e desconcertantes, é perito em ser inteligentemente sarcástico quanto aos retratos cotidianos do amor, da busca por status, da inveja ou das recorrentes situações cotidianas as quais o nova-iorquino adora retratar. O começo de carreira foi mais bonachão e puxado para a chanchada: “O que Há, Tigresa?”, “Um Assaltante Bem Trapalhão” e o até já criticado pelo site “Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo E Tinha Medo de Perguntar” marcavam já uma acidez ao observar os tabus e costumes cotidianos de forma bem caricaturesca.

Todavia, foi com “Annie Hall”, filme de 1977, que sua carreira realmente deu uma virada: as comédias de Allen se sofisticaram, tornaram-se mais sóbrias e elegantes, embora ainda soubessem beber como ninguém desse cinema chargista. E permita-me, caro leitor, usar o título original da obra – “Annie Hall” – e não o traduzido para os cinemas brasileiros “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”: o original traduz com mais simplicidade e mais virtuosismo os desabafos de Andy Singer, o personagem de Woody Allen nessa película. Andy Singer, o protagonista, é uma espécie de boêmio trapalhão: um comediante intelectual, o qual passa o filme inteiro tendo relações sexuais, fazendo confissões sobre sua visão derrotista de si mesmo ou recitando Balzac, Groucho Marx e Kafka. Esse filme é uma crônica bem humorada das singelas desavenças e descasos amorosos urbanos, o qual Allen usa de uma jogada interessantíssima na sua proposta: de forma geral, o filme é um estudo da psique de Singer enquanto este estuda a personagem de Hall.

Mas se Singer adora citar Kafka, Balzac e Groucho Marx, ao assistir “Annie Hall” me veio a cabeça uma visão do filme no qual este utilizava em sua linguagem de uma certa ironia machadiana. Fiquei pouco confiante ao afirmar isso, uma vez que nunca havia ouvido alguém falar sobre qualquer semelhança entre Woody Allen e Machado de Assis. Isso até o próprio em 2011 citar “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (ou “Epitaph of a Small Winner”, Epitáfio de um Pequeno Vencedor, como é o título estadunidense da obra brasileira) dentre os 5 livros que mais lhe impactaram e agradaram. Mas tal tese minha é fundamentada pela brilhante escolha do roteiro de uma narrativa imprevisível e fragmentada, o qual a partir dessa característica recorrerá a inteligentes quebras da própria verossimilhança do longa a partir de piadas metalinguísticas (Singer e Annie discutem um com o outro e então o personagem de Woody se volta para você e pergunta: “eu não estou certo, gente?”) ou elementos surreais (o grande exemplo é a famosa cena envolvendo Marshal McLuhan, na qual Andy e um professor universitário discutem sobre a obra do teórico da comunicação e, então, Andy puxa por detrás das paredes o próprio McLuhan e pede para que este diga quem está com a verdade na discussão). No final das contas, tudo isso irá, de forma traiçoeira, envolver o espectador em meio a uma viagem cronista e ao mesmo tempo chargista. É de fato um dos melhores roteiros já escritos por Allen (e olha que a concorrência é grande), não à toa eleito pelo Sindicato dos Escritores Estadunidenses o mais divertido roteiro já escrito nas terras do Tio Sam.

Mas uma viagem aonde? Bom, como já deve ter percebido, é uma viagem por entre o psicológico de Andy Singer e Annie Hall, a qual mostrará as hipocrisias, inseguranças (muitas, por sinal) e bizarrices (mais ainda, diga-se de passagem) que correm a mente desses dois pitorescos indivíduos: buscam a realização profissional junto a certa estabilidade emocional, mas cometem gafes retumbantes em meio às suas tentativas. Faz, assim sendo, uma espécie de sátira da vida urbana da classe média, ao mesmo tempo que uma caricatura dos amores vividos em meio a uma megalópole (sempre Nova York, no caso de Woody Allen), de forma bem delicada e sofisticada – embora que bem irônica e sarcástica. Sem citar dos ótimos e envolventes diálogos (que já são típicos de Woody Allen) e dos dois personagens centrais, que nada mais são do que extremamente apaixonantes.

Um parágrafo só para ela. Sim, Annie Hall, personagem que rendeu o Oscar para a mítica Diane Keaton, é o encantamento puro. Que personagem história para o cinema! Além do bordão “la di da”, a ingênua e amigável Annie cativa com sua genuinidade presente em seus pensamentos, na autenticidade de seus atos sempre simpáticos e no seu singular caráter: a forma como optava por quebrar padrões de visual, ao mesmo tempo que era muitíssimo bela, nada recatada e nem um pouquinho do lar. Diane Keaton faz uma atuação verdadeiramente icônica.

“Annie Hall” levou o Oscar de Melhor Filme, Direção, Atriz e Roteiro em 1977. Bons tempos aqueles nos quais películas despretensiosas, com longos planos de inteligentes e criativos diálogos – sem melodrama – tinham alguma chance na premiação (“Prêmios! Eles sempre dão prêmios! Não acredito. Melhor Diretor Fascista: Adolph Hitler”, já diria Andy Singer ao não crer em como era tradição na região de Los Angeles, “uma cidade cuja única vantagem cultural é ser possível virar à direita no farol vermelho”, a arte virar competição). “Annie Hall” é um filme que com sua imprevisibilidade e ironia encontra personagens esféricos, cativantes e instigantes, com um resultado que eternizou o longa de 77 na história: uma comédia envolvente, esbanjadora de originalidade e extremamente sedutora.

La di da, la di da!

PRÊMIOS

OSCAR
Ganhou: Melhor Filme, Melhor Atriz – Diane Keaton, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original
Indicação: Melhor Ator – Woody Allen

GLOBO DE OURO
Ganhou: Melhor Atriz em Comédia ou Musical – Diane Keaton
Indicações: Melhor Filme de Comedia ou Musical, Melhor Diretor, Melhor Ator de Comédia ou Musical – Woody Allen e Melhor Roteiro

BAFTA
Ganhou: Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Edição, Melhor Diretor e Melhor Atriz – Diane Keaton
Indicação: Melhor Ator – Woody Allen

Comente pelo Facebook