NÓS, ELES E EU (Crítica)

Juca Claudino

Nós!

Uma coisa me perseguiu muito desde quando assisti a “Nós, Eles e Eu”: qual teria sido o objetivo pelo qual Nicolás Avruj (o diretor da película) se guiou para dirigir o filme e, assim, debater a relação entre Palestina e Israel? Bom, fato é que a origem dessa questão toda já é por si só muito interessante: o realizador, argentino ascendente de família judaica (no trailer, por exemplo, isso fica claro quando em uma das cenas é mostrada a foto de Avruj criança em uma escola fundada pelo seu avô e que levava o nome do pai do Sionismo), sempre foi perguntado graças às suas origens se era “pró-Israel” ou “pró-Palestina”. Assim, em 2000 (sim, 16 anos atrás) enquanto tinha 24 anos, ele sai da Argentina, viaja para Israel e começa a fazer uma série de entrevistas com pessoas que moram na região do conflito. Agora, depois de mais de 15 anos trabalhado no projeto, ele decide compartilhar sua experiência conosco.

Mas sobre a questão que começa essa crítica (a do objetivo de Avruj), passaram pela minha cabeça a ideia do diretor na verdade ter tentado ser o mais imparcial possível para retratar as diferentes opiniões que coexistem sobre o conflito na região, ou então de tentar dar espaço a uma população que muitas vezes não tem voz para dissertar sobre o que viviam – já que Avruj entrevistou cidadãos que, utilizando o termo do realizador chinês Jia Zhang Ke, são “desempoderados”, ou seja, a classe média e mais pobre da região entre Palestina e Israel, a qual em uma situação de desigualdade social ocupam o papel mais abaixo da pirâmide. Mas fato é que, querendo ou não, a partir disso “Nós, Eles e Eu” já nos dá uma perspectiva nova da crise (se assim podemos chamar os conflitos entre Palestina e Israel), uma perspectiva mais democrática, feita a partir da parcela da sociedade que verdadeiramente a vive, mas poucas vezes é ouvida (já que são os “poderosos” – detentores da influência sobre o poder, sobre a economia e sobre os meios de comunicação de massa – os que sempre ganham espaço para falar sobre política, economia, cultura…).

Mas que surpresa a minha quando, durante a entrevista dada por Nicolás Avruj para o Ccine10, ele responde que cria não ser “Nós, Eles e Eu” um filme sobre o conflito entre Israel e Palestina, mas sobre “um jovem que descobre existir uma realidade diferente a que ele cresceu”. Isso dá outra interpretação ao filme: um olhar subjetivo que caminha procurando respostas para uma série de indagações sobre o conflito na região e então, ao tentar encontrá-las, vive na verdade um choque ao entender como a sociedade local reage a esse conflito. O filme é cru, muitas vezes frio por optar somente pela imagem e o som ambiente na edição. Assim, é indiscutivelmente impactante e angustiante pela forma como transmite aqui uma honestidade no que retrata e assim parece nos mostrar um grito de tensão vivido pelo medo compartilhado entre a população palestina e israelense sobre a crítica situação que vivemos na região. Muito mais do que explicar a crise entre Palestina e Israel, o documentário nos quer fazer senti-la: expor uma situação de medo, de opressão (principalmente por parte do Estado israelense, muitas vezes ferindo direitos da comunidade palestina) e conflituosa, algumas vezes pautada pelo ódio e pelo preconceito, socialmente preocupante. “Nós, Eles e Eu” consegue ser um documentário humano, chocante e apreensivo.

“Nós, Eles e Eu” pode representar diversas coisas: o medo de uma pessoa angustiada (no caso Avruj) ao tentar entender as suas origens e “descobrir existir uma realidade diferente a que ele cresceu”, o medo de uma sociedade que vive sobre um sentimento de tensão constante, uma opressão do Estado israelense que muitas vezes ultrapassa os limites do democrático. Mas fato é que garante uma experiência de diversas formas impactante. Quanto ao “posicionamento” pró-Israel ou pró-Palestina do filme, Nicolás Avruj em nenhum momento disse querer chegar a essa conclusão – o documentário não cai em uma construção maniqueísta da situação, mesmo que registre ser um conflito assimétrico, no qual o estado de Israel acaba tomando uma postura repressiva. É um filme que abre o debate, abre a discussão, de uma forma impactante e sensivelmente humana.

NOS ELES E EU

SINOPSE

Nicolás Avruj, diretor do filme, tem suas origens familiares no judaísmo. No ano de 2000, ele morou por meses em Israel e também na Palestina. Com a posse de uma câmera, ele resgistrava os momentos do dia a dia desses locais para 15 anos depois montar as filmagens nesse documentário e reviver sua viagem.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Nicolás Avruj
Título Original: NEY: Nosotros, Ellos y Yo
Gênero: Documentário
Duração: 1h 28min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 12 de maio de 2016 (Brasil)

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