NOSSA IRMÃ MAIS NOVA (Crítica)

Nossa Irma Mais Nova

Por Juca Claudino4estrelas

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Hirokazu Kore-eda tem uma temática muito própria. A valorização da vida como uma experiência baseada na antítese entre alegria e sofrimento – para o diretor, momentos de felicidade e dor são não só inevitáveis como parte fundamental de nossa existência – faz com que seu ponto de vista sobre o “cotidiano”, o “dia-a-dia”, desconstrua o velho estereótipo deste como algo entediante e repleto de mesmice, retratando-o com certa poesia: ele ganha uma beleza complexa, pois é ao mesmo tempo que sutil e fascinante, melancólico e muitas vezes trágico. Em “Nossa Irmã Mais Nova”, novamente nos deparamos com as experiências e dilemas dos seus personagens, todos super-humanizados. A delicadeza com a qual Kore-eda constrói seu universo (que nada mais é do que o universo no qual vivemos, repleto de suas imperfeições) dessa vez recorre menos ao “impactante”, e com bastante simplicidade nos emociona com a vida das quatro irmãs que protagonizam o filme, personagens cativantes que geram em nós uma compaixão a ponto de sentirmos suas alegrias e suas tristezas – bem como o diretor japonês sempre faz, e com maestria – fato que faz o ingresso valer a pena.

Em muitos de seus filmes, há um problema, uma questão a ser enfrentada que inicia a série de eventos que farão os personagens da película se relacionarem e que os acompanhará até o final desta. Em seu último longa, “Pais e Filhos” (2013, cujo título original é “Tal Pai, Tal Filho”, o que se encaixa mais com seu roteiro), faz com que dois casais descubram que o hospital na verdade trocou os filhos de um casal com o de outro no dia em que nasceram, e a partir disso uma reviravolta é armada (mas que no final revela o verdadeiro fato que constitui uma família: o amor). Em “Ninguém Pode Saber” (2004), é o desaparecimento de sua mãe que fará quatro irmãos ainda crianças lidarem com o abandono e necessitarem escondê-lo (e daí o nome do filme), pois sabem que caso sejam levados a alguma instituição que cuide deles até a maioridade, serão separados (esse filme em especial tem uma tonalidade absurda, mas não foge da proposta de Kore-eda). Assim, os filmes desse diretor muitas vezes impactam com a forma que o sofrimento é jogado na tela, pois eles quebram com toda a delicadeza ao retratar a vida e as sensações, em alguns casos regando tudo isso com bastante sentimentalismo. “Nossa Irmã Mais Nova”, todavia, não depende desse “impacto” para fazer com que nos emocionemos. O filme tem uma dose de sentimentalismo e mantém a mesma delicadeza que é marca de Kore-eda, porém ao mostrar-se um diário dos acontecimentos que se sucedem entre as irmãs Sachi, Yoshimo, Chika e Suzua a partir do momento em que o pai delas falece e as quatro, então, decidem morar juntas em uma casa, o filme não quer gerar nenhum “choque-térmico” sentimental ou coisa do tipo, mas quer nos encantar com a paixão que as personagens protagonistas transmitem, humanizando-as e, transmitindo isso, nos cativar com a delicadeza e a autenticidade do que elas sentem e como enfrentam os dilemas comuns ao cotidiano a partir disso.

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Uma das grandes marcas de Hirokazu Kore-eda, o drama familiar, volta à cena. Atrelado à família, estão laços tão pessoais que ignorá-los é algo impossível. A perda e o vazio, outro fator crucial para a filmografia de Kore-eda, retornam também. Em “Nossa Irmã Mais Nova”, é a partir desses elementos que de fato os personagens são jogados na antítese referida anteriormente (sobre alegria e sofrimento, a qual a vida se baseia), o que é capaz de levar o espectador a refletir sobre o quão poderoso é viver, experimentar da lacuna deixada por algo ou alguém quando se vai, ou então provar do rancor sentido quando, como no caso das irmãs, seus pais não correspondem ao afeto desejado por elas. O filme não tem esse nome à toa. Zusu, a irmã mais nova das quatro, vivia com o pai até que este morre, e então parte da pequena cidade em que viviam para morar com suas outras três irmãs mais velhas. A forma como ela fica desconfortada ao mostrar o que sente e o fato de imaginar estar deslocada daquele seu contexto é regado com tamanha inocência que chega a ser inevitável não se sentir tocado. Essa inocência é repetida em todos os conflitos vividos pelas protagonistas, que durante todo o filme irão buscar a harmonia por entre seguidos descontentamentos e prazeres. Assim, é como se Kore-eda estivesse filmando um documentário sobre a vida de uma família qualquer e tentando provar que dentro da vida “comum” dessas pessoas é possível encontrar muito sentimentalismo e encantamento, e no final ele se vira e diz para você: “viu, aposto que a vida ‘comum’ dessas pessoas não é diferente da sua vida ‘comum’. E aposto, com isso, que há muito encantamento na sua também, só que você não sabe enxergar”.

No fim das contas, “Nossa Irmã Mais Nova” é mais uma das películas sentimentais sobre dramas familiares de Hirokazu Kore-eda. O cotidiano, para ele, é repleto de encantos (bem como diz o título do último filme de Yasujiro Ozu, “A Rotina Tem Seu Encanto”, sendo a proposta do cinema de Kore-eda muitas vezes comparado às propostas do cinema de Ozu). Aliás, o encanto é o ponto mais alto desse filme. O encanto em descobrir a delicadeza que existe no simples fato de viver. E é com simplicidade que o diretor japonês faz um filme que, novamente, valoriza a vida da maneira que é, pois assim é uma aventura sentimental inigualável.

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SINOPSE

Três irmãs – Sachi, Yoshino e Chika – vivem juntas em uma linda casa que pertence à família há anos, na cidade de Kamakura. Quando o pai delas, ausente nos últimos 15 anos, morre, elas decidem ir ao seu enterro. Lá elas conhecem a sua meia-irmã Suzu, uma tímida adolescente na qual elas se apegam muito rápido. Elas convidam Suzu para ir morar com elas, e quando o convite é aceito, uma nova vida de descobertas e alegrias começa para as quatro irmãs.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Hirokazu Koreeda” espaco=”br”]Hirokazu Koreeda[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Hirokazu Koreeda, Akima Yoshida
Título Original: Umimachi Diary
Gênero: Drama
Duração: 2h 7min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: a definir
Lançamento: 28 de janeiro de 2016 (Brasil)

TRAILER

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