O ABUTRE (Crítica)

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Por Carlos Pedroso

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Essa semana terminei de ver o box de film noir da Versátil. Bela compilação de filmes, aliás, que consegue traçar uma linha bastante peculiar desse fenômeno do cinema americano dos anos 40 e 50. Obras como Anjo do Mal e Cúmplice das Sombras que, mesmo injustiçadas pelos críticos que parecem só ter dado atenção à elas num apanhado dos realizadores envolvidos, continuam irretocáveis e tão atuais quanto estudos sociológicos. Apesar da resistência em considerar o film noir um gênero, até hoje a fórmula é usada para retratar o espírito moral e crítico da sociedade contemporânea. Um dos exemplos mais recentes é o neo-noir O Abutre, primeiro longa de Dan Gilroy, que anda papando alguns prêmios da crítica americana e dando chances reais à Jake Gyllenhaal de conseguir uma nomeação ao Oscar.

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Se a estética noir traçava através dos homme fatales/femme fatales e outros tantos personagens arquétipos um panorama subjetivo-metafórico dos alicerces sociais, os neo-noir, por sua vez, não escondem suas reais intenções. Os anti-heróis são vilões mesmo, e boa parte deles movidos pelo capitalismo. Em O Abutre, a estética neo-noir entra num contra plano dos filmes policiais dos anos 80. Um protagonista psicologicamente desajustado contrapõe com o visual sobrecarregado -de cores e densidade imagética- duma Califórnia noturna e violenta. Movido pelo único interesse em sobrepor a cadeia alimentar do capitalismo, o protagonista é a personificação -visual e moralmente- asquerosa das grandes mídias jornalisticas que sensacionalizam a carnificina sem um pingo de culpa.

A produção carreirista (leia-se: produção papa prêmios) dos irmãos Dan & Tony Gilroy tem todos os elementos necessários para a construção duma trama sobre o vilão americano e matriz dos alicerces da cultura capitalista americana (e nesse ponto o filme muito se assemelha à obra-prima dos irmãos Coen, Onde Os Fracos Não Tem Vez). Porém, o grande equívoco aqui é pensar o filme como a própria mídia, ou seja, através do sensacional(ismo). Numa narrativa carregada de didatismos sociológicos de senso comum sobre capitalismo e hierarquia de poderes, o filme já peca por fetichizar os ideais de seu protagonista. E, para além disso, ele transforma a ação da imagem numa imagem semelhante à um jornal local. Essa construção moral do filme baseada no espetáculo visual pode até acender uma chama de visceralidade que se quer se espalhar, de fato, mas isso tudo sem o menor pingo de consciência da imagem cinematográfica deixa-o completamente oco e inflexível à estética que exprime. Talvez essa abordagem tenha um efeito para os mais assíduos da crítica, que adoram esse tipo de violência gratuita com uma premissa polêmica, mas falta muito do tato para se entender a relação da imagem e estética aliada ao estudo dum personagem que tem sido resgatado dentro da vertente do noir por cineastas contemporâneos ao cinema dos anos 40 e 50; ou 70 e 80.

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SINOPSE

Enfrentando dificuldades para conseguir um emprego formal, o jovem Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) decide entrar no agitado submundo do jornalismo criminal independente de Los Angeles. A fórmula é correr atrás de crimes e acidentes chocantes, registrar tudo e vender a história para veículos interessados.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Dan Gilroy” espaco=”br”]Dan Gilroy[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Dan Gilroy
Título Original: Nightcrawler
Gênero: Drama, Suspense
Duração: 1h 57min
Ano de lançamento: 2014
Classificação etária: 14 Anos

TRAILER

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