O BEBÊ DE ROSEMARY (Crítica)

O BEBE DE ROSEMARY

FICHA TÉCNICA

Título Original: Rosemary’s Baby
Ano do lançamento: 1968
Produção: EUA
Gênero: Terror, Suspense
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski, baseado em livro de Ira Levin

Sinopse: Rosemary e seu marido se mudam para um novo apartamento em Nova York, onde passam a conhecer um casal de idosos que mora logo ao lado. Esse casal logo invade a privacidade de Rosemary de forma que começa a incomodá-la. Mais tarde, após um pesadelo em que é possuída por um demônio, Rosemary está grávida e começa a desconfiar das pessoas, enquanto tenta proteger seu futuro filho.

Por Jason

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A primeira vez que assisti ao filme “O bebê de Rosemary”, de Roman Polanski, foi em uma destas sessões noturnas de filmes da tv aberta e confesso que não levava muita fé, pois não conhecia nem o trabalho do diretor nem a temática do filme em si (para mim, era um filme qualquer antigo de drama). Fui tomado aos poucos pelo desenrolar da trama, pelo sofrimento de Rosemary (Mia Farrow, em excelente atuação) e, ao final surpreendente, eu estava em choque. Passados os anos, descobri que se tratava de um filme baseado na obra de Ira Levin (autor de Os meninos do Brasil e Mulheres perfeitas), a qual eu acabei tendo finalmente acesso. E em um retorno ao filme percebi que é um daqueles casos de produções cinematográficas que não perde o impacto com o tempo.

Nunca entendi, no entanto, o motivo pelo qual o filme é classificado no gênero terror (talvez pelo livro, vendido como tal), quando ele parece muito mais adequado ao gênero suspense, porque Polanski dá ao filme uma espécie de tom de conjuração, deixando não só a personagem como o espectador completamente neurótico. Rosemary parece estar enlouquecendo com tudo o que acontece em sua vida e não parece discernir o que é real e o que é fruto da cabeça dela enquanto definha lentamente na tentativa de proteger seu filho. O toque macabro da trama é dado pelo fato de que o prédio onde eles moram ter sido palco de crimes — e o espectador acompanha o martírio da protagonista, igualmente confuso e, da mesma forma que a personagem, sem saber em quem acreditar.

Desse ponto de vista do roteiro (indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado), Polanski acaba trabalhando também o subtexto da mulher como refém da sociedade machista (Rosemary é submissa ao marido e confia plenamente nele a maior parte do tempo) e da culpa e responsabilidade da maternidade (ela não rejeita sua cria ao final, assumindo os cuidados dela), além da feroz crítica à sociedade norte-americana. Ela e seu marido são um exemplo típico de casal americano. Rosemary, uma dona de casa dedicada, obediente a ele; ele um esforçado ator tentando a carreira, aspirando sucesso, uma família e vida “perfeitas”. Sem falar nos vizinhos, que no início são aparentemente adoráveis (a atriz Ruth Gordon, que interpreta a vizinha, ganhou Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo filme), daqueles que todo mundo quer ter na casa ao lado.

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À medida que o filme avança, Polanski vai desconstruindo a imagem deste “sonho americano”, “do casal adorável, jovem e feliz” e transformando tudo num pesadelo na vida de Rosemary, que curiosamente desconfia de todo mundo ao redor, menos de seu instinto maternal — nem do que está dentro de sua barriga. Entram em cena temas sobrenaturais, fantásticos, como bruxarias, ocultismo, magia negra, seitas e satanismo, sem claro, condenar nenhum deles, fazer julgamento, se aprofundar. Polanski, por ironia do destino, teria sua mulher assassinada — Sharon Tate, grávida de oito meses — um ano depois deste filme, por integrantes de uma estranha seita liderada pelo psicopata Charles Manson, num dos mais brutais crimes envolvendo estrelas do cinema.

O sucesso do filme (custou cerca de 2,3 milhões, mas arrecadou algo em torno dos 35 milhões) se mantém até hoje: mesmo quem não viu, já ouviu falar. E a produção merece ser conhecida pela atual geração de amantes de cinema, pois mesmo visto hoje, o trabalho de edição deste filme é um dos pontos essenciais para que ele funcione. Grande parte de todos os acontecimentos acontecem dentro do apartamento do casal, ou em lugares fechados, o que pede um ritmo diferenciado para que o resultado não seja enfadonho. Polanski vai mostrando uma mudança bem arquitetada da trama: os vizinhos passam a ser mais intrometidos na vida de Rosemary, pessoas andam pelo cenário, cruzando salas, pelas paredes, como se a observassem, alimentando a paranoia da protagonista — e a angústia dos espectadores que não sabem o que pode acontecer com ela.

Ao célebre final, superior ao do livro por meros detalhes, diga-se de passagem, (Polanski sintetiza com imagens o que o autor Levin explora com diálogos), o diretor injeta dualidade de sentimentos e subjetividade, seja no espectador, seja na protagonista. Pego de surpresa, o espectador, que acompanhou todo o sofrimento daquela mulher até ali, acredita que ela tomará uma atitude drástica contra todas aquelas pessoas e, claro, contra a sua própria criança ao descobrir o que ela é — para salvar o mundo sabe-se lá de quê.

Mas, diante daquele que ela deu a luz, Rosemary vacila. Cheia de instinto maternal como só ela tinha, ela, que fez de tudo para proteger seu rebento até ali, opta por continuar a dedicar todos os seus cuidados e afetos. Para desespero de qualquer religioso.

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PRÊMIOS

OSCAR
Ganhou: Atriz Coadjuvante – Ruth Gordon

Indicação: Roteiro Adaptado – Roman Polanski

GLOBO DE OURO
Ganhou: Atriz Coadjuvante – Ruth Gordon

Indicações: Atriz – Drama – Mia Farrow, Trilha Sonora, Roteiro – Roman Polanski

TRAILER

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