O BOTÃO DE PÉROLA (Crítica)

Juca Claudino

A memória.

“Um povo sem memória é um povo sem futuro”. Esta frase está escrita no túnel número 8 das arquibancadas do Estádio Nacional do Chile, na cidade de Santiago. Em 2011, ao fazer um relatório oficial sobre a ditadura chilena de Augusto Pinochet, a Comissão Valech mostrou que foram mais de 40 mil vítimas deixadas pelo regime. E foi nesse estádio que Pinochet fez seu primeiro campo de concentração, em 1973. Durante a colonização da América, nos séculos XVI e XVII, os espanhóis desrespeitaram a cultura e a terra de inúmeras pessoas nativas da região chilena, da região que faz fronteiro com o oceano Pacífico, além de matá-las ou escravizá-las em diversos casos. Uma história marcada pela dominação agressiva e violenta persegue a América Latina. “(…) maltratados filhos de minha pátria, saqueada por machados e traidores, desbaratada em seu sangue sagrado, consumida em vulcânicos farrapos”, assim falou – com licença para construção maniqueísta da realidade – o chileno Pablo Neruda sobre os “desempoderados” de sua terra-natal (no poema “Testamento (I)”. Vivemos momentos parecidos no Brasil, se não idênticos: também fomos vítimas do colonialismo, do imperialismo, de momentos marcados pelo autoritarismo. E se um povo que não é capaz de preservar sua memória não tem futuro, Patricio Guzmán nos assegura uma coisa: as águas não permitirão que nós esqueçamos nosso passado.

“O Botão de Pérola” é um filme de uma construção belíssima, que alcança níveis filosóficos e sociais de uma forma poeticamente acachapante. Patricio Guzmán consegue criar contornos líricos e até transcendentes sobre a história e cultura chilena (que se confunde com a história e cultura da América do Sul) de uma forma extremamente catártica. Algo que já havia feito em seu anterior e tão provocador quanto documentário “Nostalgia da Luz” (2009), onde traça um paralelo metafórico entre a astrologia (e sua busca pelo passado do universo) com a busca pelos desaparecidos da ditadura chilena. E se em “Nostalgia da Luz” Guzmán olha para os céus na procura de respostas, aqui ele se volta à água. Tal encanto pela água não se dá apenas por ela compor 70% do nosso corpo e encobrir 3/4 da superfície do Planeta (ironicamente chamado de) Terra, mas se justifica, principalmente, porque a água tem memória, e nela está guardada toda a história da humanidade. E além do mais, a água não só tem memória: tem voz também! A partir dessa abstração que Guzmán começa o seu ensaio, provocador e sublime.

Foi lá, nas águas do Oceano Pacífico, que dois misteriosos botões desses que usamos para abotoar nossas camisas foram jogados. Não cabe a essa crítica adiantar o que são esses botões, pois isso faz parte da digressão que Patricio Guzmán propõe. Só nos cabe dizer aqui que, dentro do processo de metaforização do ensaio realizado pelo documentarista, tais botões jogados ao mar informaram às águas de duas das maiores atrocidades que o homem realizou: a primeira feita a partir do processo violento de colonização da América (durante a expansão mercantilista), que para “O Botão de Pérola” está mais para uma dominação das terras indígenas e da consequente violação da liberdade dessa população; e a segunda, que se baseia na repressão política autoritária exercida por Augusto Pinochet, sob apoio da CIA. E ambas foram feitas sob a bandeira do “progresso”. Como diria o uruguaio Eduardo Galeano, “não existe riqueza que seja inocente: toda riqueza nasce de uma pobreza”. Em determinada altura do documentário-ensaio, a narração (feita pelo próprio diretor) diz que quando os trabalhadores finalmente conseguiram eleger um presidente capaz de devolver as terras roubadas da comunidade indígena (chamada no filme de “povo da água”, já que antes da intervenção europeia na região, as pessoas que compunham essa população tinham uma cultura fortemente ligada às águas do Oceano Pacífico), Salvador Allende, o golpe é realizado por Pinochet – o que Guzmán espera deixar claro é que ambas as atrocidades estão historicamente ligadas.

E assim, o documentário chileno parte de um místico estudo sobre as águas, sobre a forma como elas estão sempre atentas a tudo que ocorre. Sobre a forma como ela é essencial a nossa existência, em um sentido físico e principalmente em um sentido metafísico. Mas, principalmente, como a memória e a voz da água são presentes, mais ainda em uma terra “saqueada por machados e traidores”. Se não ficou clara a ideia ainda, perceba: foi pelos mares que os colonizadores chegaram, e era no mar que os corpos dos mortos na ditadura chilena eram jogados (há, inclusive, uma cena no documentário sobre como os corpos eram “embrulhados” pelo governo para serem atirados nas águas), mesmo mar esse do Oceano Pacífico pelo qual a população nativa indígena do que viria a se tornar o Estado Chileno séculos depois tivera (e ainda tem) uma identidade gigantesca. Segundo o filósofo Newton Bignotto, “nos últimos meses o fascismo voltou a frequentar a vida política brasileira, pelo menos nas disputas retóricas que opõem visões diferentes da crise pela qual passa o país”. Em um país onde o “sentimento autoritário”, pautado pelo ódio de classe e o preconceito, vem ganhando força, “O Botão de Pérola” ganha uma projeção incrível, ecoando e relembrado nosso passado, e agindo para que as atrocidades e injustiças que retrata não ocorram nunca mais. Atrocidades e injustiças que estão memorizadas nos mares. “Um povo sem passado é um povo sem futuro”.

Ah, e mesmo que premiações não sejam matemáticas, devo dizer que “O Botão de Pérola” levou o prêmio de melhor roteiro da competição do Festival de Berlim (2015), e concorreu a melhor documentário nos Prêmios Fênix de Cinema Iberoamericano (tendo sido o vencedor “Últimas Conversas”, de Eduardo Coutinho).

O BOTAO DE PEROLA1

SINOPSE

O oceano contém a história de toda a humanidade. O mar porta todas as vozes da terra e aquelas que vêm do cosmo exterior. Água recebe impulso das estrelas e as conduz para os seres vivos. Água, a maior fronteira no Chile, também retém o segredo de dois botões misteriosos que foram encontrados no fundo de seu oceano. Chile, com suas 2.670 milhas de litoral e o maior arquipélago do mundo, apresenta uma paisagem sobrenatural. Nele estão vulcões, montanhas e geleiras, e também as vozes dos povos indígenas da Patagônia, os primeiros marinheiros ingleses e seus prisioneiros políticos. Alguns relatam que a água tem memória.

DIREÇÃO

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FICHA TÉCNICA

Roteiro: Patricio Guzmán
Título Original: El Botón de Nácar
Gênero: Documentário
Duração: 1h 22min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 12 Anos
Lançamento: 26 de maio de 2016 (Brasil)

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