O CRÍTICO (Crítica)

O CRITICO

3estrelas

Por Gabriela Miranda

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Ele pensa em Francês. No escuro do cinema ele se caracteriza: veste os óculos, acende a lanterna da caneta e abre o bloquinho. Ele é o Crítico. Aqui o argentino, que se escuta o tempo todo na língua nativa da Nouvelle Vague, acredita ser o intermediário entre o filme e o espectador, traçando a linha entre a obra de arte e o lixo comercial. Convicto de que a transgressão às regras é mais interessante, o esquema de embalagens prontas e, devidamente replicadas, usadas pelos filmes de comédia romântica vai contra tudo o que Víctor Tellez parece prezar. O que ele não esperava era que ele seria capturado pelo gênero que tanto despreza durante o curso da sua vida fora do cinema. Isso é pode muito bem ser um dos sintomas do que acontece quando se sofre da doença do cinema, da qual Tellez acredita sofrer.

Desde o início o diretor estreante, Hernán Guershuny, parece propor um diálogo entre a origem do cinema e o que o cinema se tornou como produto de consumo. Assim que a luz é projetada na telona da sala escura, vemos uma sequência de imagens estáticas e no meio de paisagens urbanas somos entregues à essência do branco e preto. Lá, vemos pela primeira vez o personagem central em toda sua fluência. De imediato, é possível estabelecer referência às fotografias em movimento que dão forma ao que nós assistimos nos filmes como La Jetée (1962), que é uma narrativa contada por blocos de fotografias estáticas, encadeadas em sequência. Do P&B passamos para a transição de coloração e acompanhamos a rotina solitária e passiva do crítico. Mas logo somos recebidos na casa dele com a fotonovela do filme Acossado e mais uma vez nos fixamos no estático.

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Além das fotos de Acossado, não vemos nenhum dos filmes que ele assiste. Apenas acompanhamos o áudio, o que embaça a metalinguística. Mas a história acaba sendo previsível. De acordo com Tellez, existem somente duas possibilidades de final nesse tipo de roteiro. Ou bom ou ruim. O primeiro é muitas vezes irreal e o segundo é ruim para a bilheteria, então ele propõe um meio termo, para deixar esperança ao público.

O filme acaba perdendo um pouco o rumo ao tentar manter a crítica contra o papel de superioridade da categoria que o protagonista representa e inseri-lo em uma história “água com açúcar”, como argumento principal. Dessa forma, a narrativa romantizada segue os clichês e gera certo incomodo proposital. Ao brincar com isso, é possível lembrar do filme Don Jon como uma referência do uso do clichê. A trilha sonora é um ponto que logo situa o espectador dentro desse gênero que o diretor quer utilizar e ajusta o tom da história.

No fim o Crítico acaba sendo julgado por cair nas armadilhas pré-moldadas por Hollywood. É aí que entra a personagem do par romântico: uma cleptomaníaca espontânea e cheia de vida. Em certa proporção ela lembra a protagonista de Doce Novembro e aqui ela também serve como motor de transformação para o homem cínico e descrente. Estes e outros paralelos tornam O Crítico interessante o suficiente para debater o quanto vale a opinião de um cinéfilo e até onde a rixa entre diretores e críticos de cinema tem embasamento. Resta saber: vale a pena acreditar na figura do crítico como a última palavra em relação ao que vale ou não a pena assistir? Ou é preciso aceitar que existem filmes que a crítica detesta mas que funcionam porque conseguem, a partir de uma fórmula, influenciar o desejo de consumo do espectador?

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SINOPSE

Víctor Tellez (Rafael Spregelburd) é um crítico de cinema exigente e prestigiado que odeia comédias românticas e acredita que o melhor da sétima arte está no passado. Amargo e mal-humorado, ele procura um apartamento e conhece Sofía (Dolores Fonzi), bela e com gostos opostos aos seus. Tellez tenta, mas não consegue evitar que sua vida se transforme a partir de então em um romance clichê.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Hernán Guerschuny” espaco=”br”]Hernan Guerschuny[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Hernán Guerschuny
Título Original: El Crítico
Gênero: Comedia dramática
Duração: 1h 38min
Ano de lançamento: 2014
Classificação etária: 14 Anos

TRAILER

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