O DEMÔNIO DAS ONZE HORAS (Crítica)

O DEMONIO DAS ONZE HORAS

4estrelas

FICHA TÉCNICA

Título Original: Pierrot le Fou
Ano do lançamento: 1965
Produção: França , Itália , EUA
Gênero: Drama , Policial , Comédia
Direção: Jean-Luc Godard
Roteiro: Jean-Luc Godard
Classificação etária: 14 Anos

Sinopse: Ferdinand Griffon (Jean-Paul Belmondo) está entediado com a sociedade parisiense. Certa noite, ele deixa a esposa em uma festa e volta sozinho para casa, onde encontra uma antiga amiga, Marianne Renoir (Anna Karina), trabalhando como babá dos seus filhos. No dia seguinte, ele aceita fugir com a bela para o Mediterrâneo, mas o casal vai ser perseguido por mafiosos.

Por Pedro Vieira

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O que é o cinema? No início de “O Demônio das Onze Horas” (Pierrot Le Fou), Godard parece procurar responder isto a partir da fala de um personagem que se apresenta como produtor de cinema. O personagem resume o cinema como uma “emoção”. O amor, o ódio, a batalha, a violência e a morte fariam parte dessa emoção que é o cinema, e de fato tudo isso aparecerá de alguma forma durante este filme.

Mas parece que para Godard cinema não poderia ser resumido de maneira tão simples. Cinema poderia ser, no caso deste filme, definido como as emoções unidas às diversas possibilidades e experimentações que a linguagem cinematográfica oferece para que elas de fato aconteçam, sendo dessas experimentações que este filme de Godard irá ser formado.

O diretor segue a história não linear de Ferdinand (Jean-Paul Belmondo), um professor que, cansado da vida que leva junto à esposa e aos amigos que ele pouco considera, resolve fugir com a jovem Marianne (Anna Karina). Durante uma viagem até o litoral francês, o casal comete delitos, se envolve com um grupo de bandidos e muitas vezes refletem sobre sua relação e os desejos que possuem – o que possibilita ao filme criar narrações feitas ao mesmo tempo pelos dois protagonistas.

Durante a trama, Godard utiliza as particularidades da linguagem de diversas maneiras possíveis. Ele faz cortes bruscos, une planos aparentemente desconexos, muda a trilha sonora sem aviso e torna a montagem rápida em um momento, para depois deixa-la mais lenta.

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Ainda que alguns dos recursos utilizados pelo diretor já não sejam novos, e ele próprio já tenha os utilizados em filmes anteriores – como no momento em que o casal protagonista quebra a quarta parede falando com seus espectadores – tudo aqui tem cara de novidade, pois não se trata de um filme comum, trata-se de um que filme deixa o espectador ciente das possibilidades do cinema e de como as narrativas nem sempre são ordenadas.

Por mais que pareça, por vezes, apresentar uma bagunça visual, Godard é extremamente consciente do filme que está montando. Dessa forma, mesmo os momentos que parecem terem sido concebidos de forma incorreta, na verdade são maneiras encontradas pelo diretor de quebrar a ideia de simples mimetização do real induzida pelo cinema. É o caso das cenas noturnas em que os protagonistas aparecem viajando com o carro, onde fica claro que as luzes refletidas pelo vidro do automóvel se repetem sem variação e que toda aquela sequência foi grava em um estúdio.

Mesmo colocando a história em segundo plano, para se concentrar nas experimentações, Godard não deixa de aproximar este filme de gêneros já estabelecidos pelas narrativas americanas (que ele adora, mas também critica). No caso, “O Demônio das Onze Horas” se trata de um road movie com toques de filme policial, mas que foge do trivial.

Um detalhe no longa que deslumbra o olhar é sua fotografia. Godard sabe, ao lado do diretor de fotografia Raoul Coutard, dar ênfase nas cores, em especial o azul, o vermelho e o branco (cores da bandeira francesas, mas também da bandeira estadunidense), tornando-as nítidas e belas. O diretor também brinca com a cor no início do filme, em uma sequência onde Ferdinand está em uma festa e a cor da imagem muda conforme ele se encontra com os personagens do local (é inclusive essa cena a citada no início deste texto).

Os “jogos” feitos com a linguagem, entretanto, podem ficar um pouco excessivos em determinados momentos, assim como a duração prolongada do longa que o torna cansativo. Porém, “O Demônio das Onze Horas” consegue se estabelecer com um grande filme e uma verdadeira obra de arte, que entrega algo totalmente oposto às narrativas com os quais o público está acostumado.

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PRÊMIOS

BAFTA
Indicação: Melhor Ator Estrangeiro – Jean-Paul Belmondo

FESTIVAL DE VENEZA
Indicação: Leão de Ouro

TRAILER

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