O DESPERTAR DE UM HOMEM (Crítica)

O Despertar de um Homem

3estrelas

FICHA TÉCNICA

Título Original: This Boy’s Life
Ano do lançamento: 1993
Produção: EUA
Gênero: Drama
Direção: Michael Caton-Jones
Roteiro: Robert Getchell
Classificação etária: 14 Anos

Sinopse: No final dos anos 50 Caroline Wolff (Ellen Barkin), uma mãe solteira nômade, só deseja se estabelecer em um lugar, achar um sujeito decente e conseguir uma casa melhor para seu único filho, Tobias “Jack” Wolff (Leonardo DiCaprio). Quando ela se muda de Seattle e conhece o respeitável Dwight Hansen (Robert De Niro), um mecânico de automóveis, ela crê que alcançou seu objetivo. Mas Jack se sente diferente após passar alguns meses com Dwight e os filhos dele e longe de Caroline. O padrasto do jovem parece querer fazer de Jack uma pessoa melhor, mas ao tentar fazer isto ele abusa emocionalmente e fisicamente do garoto, além de tratá-lo verbalmente de forma grosseira. Com pouco tempo de casada, Caroline vê que Dwight precisa dominar todos que estão ao seu redor, mas sentindo-se insegura para buscar outra relação passa a acreditar que isto é a melhor coisa para seu filho. Durante este tempo Jack se torna amigo de outro desajustado, Arthur Gayle (Jonah Blechman), um jovem com tendências homossexuais bem claras, enquanto continua sofrendo sob o jugo repressivo do seu padrasto. Jack só sonha com uma coisa: conseguir uma bolsa de estudos para poder partir para sempre.

Por Juca Claudino

O INCOMPREENDIDO

O DESPERTAR DE UM HOMEM03

Em um simpático e humano drama de Michael Caton-Jones, a juventude do escritor estadunidense Tobias Wolff (Leonardo DiCaprio, no auge dos seus 18 aninhos) nos é mostrada com uma doçura melancólica. Ao penetrarmos na mente do na época chamado de Toby, temos o mundo mostrado pela ótica de sua inocente busca pela felicidade, onde tudo ganha uma carga emocional a ponto de nos revelar seu imaginário e, mais do que isso, suas impressões sobre o mundo ao redor. O resultado dessa proposta é uma cativante história, cotidiana e sensível, que nos apresenta um Antoine Doinel na sua versão “Rebel Without a Case” em busca da Eudaimonia.

Lembrado por seus contos sentimentais com cenário cotidiano e por suas memórias, Tobias Wolff tem em seu livro “This Boy’s Life” o que provavelmente é seu mais influente sucesso como artista. Um livro corajoso, uma vez que retrata sua própria juventude. Um jovem, digamos, “tipicamente” americano, porém mais tipicamente ainda indeciso e escandalizado sobre a vida. Já é, de certa forma, bem tradicional, se não clichê, abordarmos a adolescência como um momento de indecisões e medos, de socialização, de busca pela identidade. O que dizer do personagem memorável de François Truffaut, Antoine Doinel (maravilhosamente interpretado por Jean-Pierre Léaud), o qual nos provoca um efeito sentimental tão grande em “Os Incompreendidos” uma vez que é impossível não nos identificarmos com tal figura angustiada com sua vida – assistir a esse filme logo após ter completado 18 anos é uma experiência exageradamente humana. Pode ser desproporcional comparar o efeito causado por “Os Incompreendidos” com essa adaptação das memórias de Wolff em seu livro “This Boy’s Life” para o cinema, mas que “O Despertar de um Homem” traz consigo essa carga humana, isso é fato. Na verdade, é interessante como, enquanto o jovem Toby – muito bem interpretado por Leonardo DiCaprio, aqui com 18-19 anos, mesmo idade em que ganharia sua primeira indicação ao carequinha de ouro por “Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador” – é um personagem humanizado e real, tudo em sua volta acaba ganhando ares um pouco mais “estereotipados”: são as lentes do subconsciente de Toby, julgando e encarando tudo aquilo que está em volta. O filme nos põe sobre a ótica do protagonista e, assim, ao conseguir ser significantemente cativante (1 – porque as atuações, principalmente de DiCaprio e De Niro, estão muito boas; 2 – porque é algo cotidiano, com questionamentos existenciais comuns a nós da contemporaneidade), nos convida a buscar a sua paz, a eudaimonia, junto aquele típico adolescente da classe média.

O DESPERTAR DE UM HOMEM02

Porém, o grande trunfo do filme fica com o relacionamento entre Toby e Dwight, seu padrasto. Esse, de fato, é o grande centro do filme durante seu desenvolvimento. Autoritário, preconceituoso e conservador, Dwight, que acabara de casar-se com Caroline, mãe de Toby, aparentava ser um alguém cordial até os primeiros 20 minutos da película. Todavia, sua relação com o jovem Tobias Wolff, que não mantinha boas impressões sobre ele, se baseará em uma tentativa do padrasto de violentá-lo moralmente (e fisicamente algumas vezes), algo que se estende inclusive para os outros membros da família (Caroline e os 3 outros filhos de Dwight). De Niro está tão bem que aquilo tudo se torna imensamente interessante de assistir – uma luta entre a inocência versus o ódio – e não ficamos frustrados com a incoerente mudança de personalidade de Dwight (talvez, em algum momento do longa, você se pergunte se de um filme sobre as memórias de um garoto migramos para um pequeno thriller, mas nada que comprometa sua narrativa), até porque, uma vez que temos a visão de Toby sobre o mundo nos guiando, é entendível que para o subconsciente do garoto a figura de seu padrasto é ameaçadora e negativa – Dwight nunca demonstrou afeto ou carinho a Toby, mas apenas ser um egocêntrico rancoroso.

Um filme que, no fim das contas, tem muita sensibilidade e muita humanidade rondando a figura do pequeno Tobias Wolff, ou Toby (embora, deve-se dizer, que roteiro não é muito agradável quando o personagem de Jonah Blechman, Arthur Gayle, é exageradamente estereotipado por causa de sua orientação sexual). De Niro e DiCaprio conduzem um drama sobre inocência e busca pela felicidade, com um roteiro simpático e uma direção que mantém muito bem a atmosfera cotidiana, o que ajuda a criar um filme bastante cativante. “O Despertar de um Homem” fala sobre a adolescência também, a aceitação de si mesmo e a busca por popularidade na escola. Um Antoine Doinel na sua versão “Rebel Without a Case”.

O DESPERTAR DE UM HOMEM01

TRAILER

Comente pelo Facebook

1 Comentário