O Doutrinador (Crítica)

Emílio Faustino

Esqueçam as capas e os super poderes, o mais novo herói do cinema nacional não voa, não é rico e tão pouco conta com o apoio de uma equipe de notáveis para combater super vilões que querem destruir a Terra.

Em “O Doutrinador”, Miguel é um agente federal altamente treinado que tem como combustível para sua trajetória uma tragédia pessoal e sua profunda indignação frente a um país repleto de políticos e empresários corruptos.

É neste ponto da história que o telespectador irá estabelecer uma conexão imediata com o personagem, afinal, quem lá no seu íntimo nunca desejou ter seu dia de fúria e se vingar de um sistema que pune quem é honesto e bonifica quem transgride as leis?

A QUESTÃO É: SERÁ QUE O BRASIL ESTÁ PRONTO PARA O DOUTRINADOR?

Esta é uma pergunta que provavelmente os produtores do filme devem ter se feito, uma vez que o longa estava previsto para estrear em setembro, ou seja, no meio da corrida eleitoral e teve a sua data alterada para o dia 1 de novembro (4 dias depois do término das eleições).

Até que ponto o brasileiro que consome fake news como verdade e que tenta convencer embaixador alemão de que o Nazismo era um movimento encabeçado pela esquerda, é capaz de discernir entre a ficção e a realidade?

Parece uma pergunta estúpida, mas em um país polarizado como o nosso, onde as pessoas estão sendo agredidas pelo simples fato de pensarem diferente, um filme como este pode sim desencadear um gatilho perigoso: o de despertar o justiceiro interior de cada um que enxerga no porte de armas e na violência a forma mais prática de solucionar os seus problemas.

O Doutrinador (Crítica)

É interessante pontuar que o contexto em que o filme esta sendo lançado, gera várias indagações que são inerentes a arte, tais como: O papel da arte, a arte como forma de entretenimento, a arte como forma de protesto e a arte que imita a vida e provoca reflexão em quem a consome. É claro que o efeito esperado do filme sobre o público é a catarse, ou seja, a purificação do espírito do espectador através da contemplação do espetáculo trágico.

Mas existe um medo eminente que o tiro saia pela culatra. Afinal, não seria a primeira vez que o brasileiro usaria um pretexto pífio para justificar e inspirar suas ações.

De volta ao filme, existem muitos méritos a serem pontuados, tais como as cenas de ação que são muito bem executadas, as boas atuações que ajudam a dar profundidade a trama e a bela fotografia que salta aos olhos do expectador.

Outro ponto positiva é a neutralidade partidária que o filme consegue transmitir, uma vez que o inimigo não é nem a esquerda e nem a direita, mas sim os políticos corruptos que estão em todos os meios, não perdoando inclusive os pastores que de cristãos não possuem nada além do título.

A transição do Miguel policial para o Miguel justiceiro, no entanto, deixa um pouco a desejar, embora exista uma ótima motivação para o personagem, o roteiro é movido por uma série de coincidências. Uma das mais gritantes é quando a máscara que será a cara do herói cai na sua frente em meio a um protesto, que por acaso ele estava passando na frente, como uma espécie de intervenção divina. Como se não bastasse, a pessoa que filma este momento e que poderia facilmente incrimina-lo é convenientemente uma hacker top das galáxias que irá se tornar o seu braço direito.

Embora não apresente nada de muito inovador, o filme “O Doutrinador” consegue ser uma mistura muito bem harmonizada de: Tropa de Elite, O Mecanismo e os filmes do universo da Marvel. Diferentemente da maioria dos heróis que são blasés, temos em Miguel (Kiko Pissolato) um personagem bastante carismático e expressivo, digno da série que será exibida pelo canal Space em março de 2019 e da continuação nos cinemas que já esta nos planos dos diretores.

A verdade é que ainda que seja difícil assumir, o Doutrinador é o tipo de figura que o brasileiro vê e pensa: Deus me livre, mas quem me dera…

Pôster de divulgação: O Doutrinador

Pôster de divulgação: O Doutrinador

SINOPSE

Um vigilante mascarado surge para atacar a impunidade que permite que políticos e donos de empreiteiras enriqueçam às custas da miséria e do trabalho da população brasileira. A história do homem por trás do disfarce de “Doutrinador” envolve uma jornada pessoal de vingança na qual um agente traumatizado decide fazer justiça com as próprias mãos.

DIREÇÃO

Gustavo Bonafé Gustavo Bonafé

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Gabriel Wainer, Mirna Nogueira, L.G. Bayão, Luciano Cunha, Denis Nielsen
Título Original: O Doutrinador
Gênero: Suspense
Duração: 1h 50min
Classificação etária: 16 Anos
Lançamento: 1 de novamebro de 2018 (Brasil)

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