FILHO DE SAUL (Crítica)

Filho de Saul

5estrelas

Por Kadu Silva

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Não sei se todos terão a mesma sensação que a minha, mas após a sessão de O Filho de Saul, fiquei com a impressão de ter assistido a um dos mais incômodos filmes de terror da minha vida. Arrisco a dizer que ele já entra para história como um dos mais chocantes relatos de um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

O roteiro é de László Nemes e Clara Royer e tem uma trama simples e lida friamente, até podemos classificar como algo bacana. Mas a forma como o diretor Nemes narra essa história torna tudo muito impactante e original.

Estamos em Auschwitz, precisamente em 1944, e o prisioneiro Saul (Géza Röhrig), junto de seus companheiros, é forçado a queimar os cadáveres de seu próprio povo, até que se depara com o corpo de um garoto, a quem tenta de toda forma salvar das chamas e fazer um funeral humano e com os princípios judeus.

O diferencial e impressionante relato se dá na forma como acompanhamos a trama, o estreante diretor László Nemes, coloca a câmera em close ou nas costas de Saul, assim dá ao espectador a sensação de estar ali junto dos prisioneiros vivenciando todo o sofrimento que eles estão passando. Os gritos de dor e desespero, a violência contra o ser humano, os ambientes claustrófobos, toda essa angustia sentimos e somos impactados pelas reações viscerais de Géza Röhrig e tudo fica ainda mais sufocante, quando Saul busca a todo custo uma forma de fazer o enterro digno para o garoto. O interessante é que em nenhum momento vemos sangue, ou algo violento sendo mostrado, com a escolha do diretor, criamos em nossa imaginação, junto dos sons uma imagem do que pode estar passando.

Saul e seus companheiros são compostos, como se fossem zumbis, trabalhando a espera da morte, quase sem reação, afinal, vivenciar as atrocidades diariamente, os tornam como se fossem mortos vivos. Mas Saul ao encontrar o garoto, mostra uma ponta de sanidade e vida, e sua obstinação é algo que impressiona no decorrer da narrativa.

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O diretor com a escolha original, acaba por usar a câmera na mão, então vemos muito balanço, já que há corridas frenéticas em corredores estreitos, momentos sem foco e assim por diante. Esta escolha de filmar neste formato, possibilitou diversos planos sequencias incríveis. Até mesmo a lente em 40mm foi pensada para reforçar esse incomodo, que se dá durante toda a projeção do filme.

Tecnicamente o longa-metragem é impressionante, mas os grandes destaques ficam por conta do som, que é fundamental na narrativa e a montagem, que deixa o espectador sempre com a sensação que algo de pior pode acontecer.

Géza Röhrig se fosse norte-americano certamente estaria nas principais premiações este ano, afinal, seu desempenho no longa é das mais impressionantes interpretações dos últimos anos. O olhar frio e sem vida choca a plateia.

Alguns podem não gostar das pontas em aberto que o roteiro deixa, afinal, não fica claro se o garoto que Saul encontra é seu filho de fato, e além disso o garoto que aparece no final também não tem sua definição clara. Mas ambos os momentos servem como forma de representar a pureza, a paz, que parecia não mais existir no mundo (essa é minha interpretação, ainda mais quando vemos a expressão de Saul). Mas é melhor ver tais momentos como uma licença poética, que o diretor deixa para que cada um faça sua própria leitura.

O Filho de Saul é uma obra prima que tira o espectador do lugar comum e o coloca como participante dos acontecimentos ali retratados, algo muito raro no cinema. E por incrível que pareça, Nemes conseguiu encontrar um formato original para retratar o holocausto, um tema tão repetitivo em diversas produções mundo a fora.

O longa é o representante da Hungria para melhor filme em língua estrangeira no próximo Oscar, e é apontado por muitos como o grande favorito a levar a estatueta.

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SINOPSE

No horror de 1944, Auschwitz, um prisioneiro forçado a queimar os cadáveres de seu próprio povo encontra alívio moral ao tentar salvar das chamas o corpo de um menino.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”László Nemes” espaco=”br”]Laszlo Nemes[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: László Nemes e Clara Royer
Título Original: Saul Fia
Gênero: Terror, Suspense, Drama
Duração: 1h 47min
Ano de lançamento: 2015
Classificação etária: 16 anos
Lançamento: 4 de fevereiro de 2016 (Brasil)

TRAILER

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