O JOGO DA IMITAÇÃO (Crítica)

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Por Kadu Silva

Quando ignorância “destrói” um gênio

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É meio clichê o que vou dizer, mas realmente não tem como fugir. Todo ano, perto da corrida das premiações, surge um representante inglês como forte concorrente a melhor filme do ano. A bola da vez é O Jogo da Imitação, que podemos dizer foi feito para ganhar prêmios. Ainda que ele tenha esta característica, é sem dúvida, um belo exemplo que retrata a ignorância da sociedade diante do diferente, ainda que este, seja um gênio.

O filme é baseado em fatos reais e conta a história de Alan Turing (Benedict Cumberbatch), um matemático que usou seu conhecimento para ajudar os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, decifrando os códigos alemães sobre as estratégias do campo de batalha. Este seu conhecimento, segundo os estudiosos, encurtou a guerra em 2 anos e também pode se creditar ao embrião do que hoje conhecemos como computador. No entanto este grande homem era homossexual, e na década de 40, na Inglaterra, ser gay era crime, tornando a vida de Turing um imenso conflito emocional.

O roteiro foi baseado no livro “Alan Turing: The Enigma“, escrito por Andrew Hodges e adaptado pelo estreante Graham Moore, que optou por ressaltar mais os feitos do matemático, ao invés de focar nos conflitos pessoais. Ainda assim, o diretor Morten Tyldum (HeadHunters), um também, quase estreante, já que este é somente seu segundo filme, consegue envolver o espectador nesta trajetória emocionante.

Tyldum não utiliza de uma narrativa linear, existe em determinados momentos uma volta ao passado, com o objetivo de explicar o presente, já que o longa se inicia com o protagonista contando ao policial sobre sua vida. Estas idas e vindas no tempo, confere ao longa um ar (meio) didático, já que para facilitar a leitura do publico, há sempre uma legenda situando o ocorrido, fato que pode não agradar a alguns.

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E para viver Alan Turing, foi escalado Benedict Cumberbatch, que realiza, até então, o trabalho de sua vida. É um verdadeiro show de interpretação. Sua composição chama atenção pela contenção da emoção diante das situações. Ele utiliza do olhar e do gestual para desenhar ao publico este homem, solitário, introspectivo, e repleto de ideia revolucionarias. É brilhante!

Ainda no elenco, se destaca Keira Knightley (que confesso, não ser nada fã), mas que no filme, também chama atenção pela contida atuação. Aqui ela se livra das expressões exageradas que costuma fazer em seus personagens e emociona com a amizade sincera e doce com Turing, é um papel pequeno, mas bem expressivo.

Ainda sobre o roteiro, vale ressaltar, o humor acidental, que acontece exatamente pelas excentricidades do protagonista, e que Moore soube utilizar muito bem no texto.

O Jogo de Imitação, lembra bastante o filme Um Mente Brilhante, a diferença é que o conflito de um era com os “espíritos”, e do outro com a condição sexual. No entanto o formato narrativo é bem semelhante. Talvez a grande diferença, como já citei acima, é que O Jogo da Imitação, carece de mais aprofundamento da vida intima do protagonista.

Outro destaque importante do filme é a excelente trilha sonora, do francês Alexandre Desplat (O Grande Hotel Budapeste, Godzilla e A Árvore da Vida), que mais uma vez compõe a narrativa, sem querer se tornar protagonista.

O Jogo da Imitação, ainda que apresente alguns “equívocos” em sua totalidade é mais um registro importante sobre como a ignorância da sociedade é capaz de matar grandes gênios.

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SINOPSE

Esta biografia de Alan Turing (Benedict Cumberbatch) acompanha sua ascensão no mundo da tecnologia, quando seus conhecimentos inestimáveis em matemática, lógica e ciência da computação contribuíram com as estratégias usadas pelos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. No entanto, este homem tinha diversos conflitos com sua própria homossexualidade, buscando soluções de cura, e vindo a cometer suicídio em 1954.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Morten Tyldum” espaco=”br”]Morten Tyldum[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Graham Moore
Título Original: The Imitation Game
Gênero: Drama
Duração: 1h 55min
Ano de lançamento: 2014
Classificação etária: 14 Anos

TRAILER

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2 Comentários

  1. Juan Rossi

    Uau! Após haver visto A Teoria de Tudo e Whiplash, que são bem interessantes – principalmente o último, pois de Hawking pouco se falou sobre seu trabalho no primeiro –, aqui, em Jogo da Imitação, há não só os maravilhosos personagens Keira e Cumberbatch – quase que nos rasgando nos entremeios das falas subentendidas ou não entre pessoas quaisquer, ou entre pessoas que estudam profundamente determinados assuntos também e diante da dureza dos fatos históricos que se apresentavam –, quanto há vontade de relatar uma situação que se desenrola num crescendo, com a trilha minimal constante a sonorizar a trama e a emoção, sim, a emoção acontecendo próxima ao final, que revaloriza o dilema da personagem Turing: sua homossexualidade desprezada.
    Pois em nossos tempos ser emotivo vira sinônimo de lugar-comum ou galhofa. Explico-me: eis que na companheira de Hawking há o desespero em vê-lo adoentando-se ainda novo e há um Hawking com ela complacente e lacrimejante, pois sentiu que a perdera, já no fim do casamento; e saímos com aquela sensação de ser um triste filme. Já, em Turing, acomete-nos um sentido de fragilidade enorme perante a condição de ser humano do cientista e matemático infundadamente compreendido, tanto em bullyings quanto no trato social; e na solidão terrível junto à morte do amigo; principalmente ao se ver sem saída com os remédios que “curariam” sua “moléstia”. O golpe é dado aqui um ano após estes fatos, com seu suicídio – já nos créditos finais. Uau! Quatro estrelas merecemos aqui, não??
    Este filme, acredito firmemente nisto, dá um tapa na cara das pessoas que vão assisti-lo pelo gênio dos primórdios dos computadores e sem querer visualizam – espero eu – suas próprias piadas ou citações homoafetivas como coisas que não deveriam mais existir – a própria Inglaterra só em 2013 resolveu dar créditos especiais a Alan Turing!