O MESTRE DOS GÊNIOS (Crítica)

Juca Claudino

Trama de reviravoltas, mas sem perder o romantismo.

“Mestre dos Gênios” narra a história da relação entre Thomas Wolfe (Jude Law), notável romancista estadunidense do início do século XX, e o editor Max Perkins (Colin Firth), considerado por muitos como detentor de uma das mais prolíficas carreiras na área da editoração (tendo trabalhado com obras de F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway). Mas é curiosa a opção que o diretor Michael Grandage faz para construir o filme. De carreira com poucos títulos de repercussão, sua obra “Mestre dos Gênios” talvez tenha sido a mais debatida das suas – uma vez que foi selecionada para a mostra competitiva do Festival de Berlim desse ano de 2016, cujo o vencedor foi o documentário “Fogo ao Mar”. Vale destacar que “Mestre dos Gênios” é também o filme de estreia de Grandage, tendo este tido carreira essencialmente televisiva. Mas retomando o debate: que escolha curiosa foi essa?

Bom, para tanto é necessário relembrar um histórico da humanidade de admirar e reverenciar a figura do herói. Do herói clássico ao herói romântico, é recorrente na arte que nos inferiorizemos frente a indivíduos de realizações extraordinárias e valores de grandeza como uma forma de nos curvar a ideais que estes trazem consigo. E nesse filme tanto Perkins como Wolfe, os protagonistas do longa, são idealizados e tornados heróis pelo seu visionarismo e pela rebeldia revolucionária, guiada por uma moral a qual diz que fazem algo libertador e enaltecedor e por uma determinação sólida. A caracterização que Grandage faz de Perkins e Wolfe os fariam pessoas narcisistas e egoístas na vida não-ficcional, dado esse vigor moral (certeza concreta de estarem fazendo o que deveriam estar fazendo) que exalam e que lhes dão liberdade a ignorar tudo aquilo que foge da órbita de seus desejos. E os primeiros minutos de filme, que narram o intervalo decorrente da chegada às mãos de Perkins da edição original do primeiro título a ser publicado de Wolfe até sua publicação final (no caso, o livro “Look Homeward, Angel”) não passam de uma grande veneração a esse heroísmo que constrói sobre a figura do autor e do editor. É claro que as bases que usa para tamanha idealização são muito questionáveis: ele retrata a indústria da arte dos Estados Unidos como o ápice da produção artística da contemporaneidade e o centro de referência de todo e qualquer artista (e, bem, o próprio contexto histórico do filme – crise de 1929 – nega isso com as vanguardas europeias, por exemplo).

Mas ainda assim se torna o “Mestre dos Gênios” (e esse título por si só já denota isso) um grande culto a superioridade visionária e criativa porém, mais que isso, um culto ao sujeito de identidade autônoma, de valores inabaláveis e de independência emocional a qualquer pessoa. Coisa a qual contradiz uma das grandes marcas do nosso momento histórico, na qual é predominante a figura do sujeito fragmentado – marcado por uma crise de identidade, relações humanas superficiais, incertezas e inseguranças; entregue à lógica do consumo, do imediatismo, da aparência -, originária de uma sociedade de consumo (onde tudo se reduz a mercadorias, inclusive a arte), individualista e massificada. Compramos produtos, inclusive, de figuras como Deadpool e Wolverine, que se contradizem a esse “sujeito fragmentado”. Filmes como “Mestre de Gênios” podem se originar, portanto, de um recalque dos indivíduos de nossos tempos por não termos uma vida menos fragmentada e incerta – e daí a ideia do “culto”? Bom, poderia… poderia se Grandage não desconstruísse a própria figura do herói na segunda metade do filme, de longe o ponto mais alto dele.

Essa primeira metade é imensamente marcada por um dinâmica nostálgica e romântica. As interpretações de Jude Law e Colin Firth, o primeiro mais explosivo e o segundo mais estóico, criam uma interação muito cativante em tela. Junta-se isso ao ambiente vintage dos anos 20 construído com muita sofisticação pelos envolvidos na produção e temos uma experiência interessantemente sentimentalista e otimista, cuja fluidez da direção soma-se para criar uma atmosfera sutilmente apaixonante. De fato não é uma paixão estarrecedora, típica de um clássico de Frank Capra ou George Cukor (e Grandage demonstra menos autoria do que esses dois cineastas), mas é algo prazeroso. O filme, todavia, dá um giro completo em sua atmosfera a partir da personagem mais realista da primeira metade da trama: Nicole Kidman interpreta com sensibilidade Aline Bernstein, uma notória figurinista estadunidense, não só contemporânea de Wolfe e Perkins como também namorada de Wolfe. E em sua dolência noir, a personagem Aline ameaça dramaticamente a vida dos nossos dois heróis por ter sido abandonada durante o processo de publicação dos livros pelo seu amante, desconstruindo parte do idealismo sobre o personagem de Jude Law. Simultâneo a isso, a família do personagem de Colin Firth sente-se ignorada por este – que passou a se dedicar integralmente ao trabalho -, a ponto de mostrar-se desapontada.

E o que temos é uma sucessiva desconstrução dos heróis. Da veneração, somos conduzidos à tragédia – e isso nos pega de surpresa, sem dúvida alguma, o que é até mesmo positivo para o entretenimento. O visionarismo se torna narcisimo, a rebeldia se torna arrogância e o que resta são figuras de emocional tenso, incertas e solitárias. O filme perde seu otimismo, fica melancólico e ganha traços mais soturnos. E esse é o ponto emocionalmente mais potente do filme, um momento no qual desconstrói o heroísmo e todo aquele “culto” que falava nos parágrafos anteriores, porém sem perder o romantismo. A melancolia da solidão e da desarmonia espiritual enfrentadas pelos ex-heróis é registrada com um sentimentalismo platônico e, sobretudo, com traços fabulistas. Não posso contar mais detalhes pois isso caracterizaria um spoiler, porém é fato que o filme concebe certa sensibilidade para narrar o desgosto e a tragédia de Wolf e Perkins.

“Mestre dos Gênios” sabe nos emocionar. Mesmo que minimamente, mas sabe. Com uma linguagem equacionada em moldes já padronizados, e sabe nos emocionar. Aos amantes da literatura, fica o convite de poder acompanhar o registro cinematográfico de diversos influentes escritores que são retratados em sua intimidade: Hemingway caracterizado como um sujeito grotesco e falastrão, Fitzgerald como um incerto e depressivo autor em eterna crise criativa e, claro, Thomas Wolfe como um excêntrico autor cuja vida pública de brilhantismo escondia conturbações da vida privada. Como filme, a transição do épico à tragédia é um “choque térmico” emocional interessantíssimo, provando que o diretor tem sensibilidade para desenvolver a narrativa. De qualquer forma, aos fãs de filmes românticos, que primariamente visam nos entreter com seu sentimentalismo, este “Mestre dos Gênios” não deixa de ser uma dica interessante.

O MESTRE DOS GENIOS

SINOPSE

Biografia de Max Perkins, um dos editores literários mais famosos do mundo. Apostando em jovens talentos, ele descobriu nomes fundamentais da literatura como F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Thomas Wolfe. O filme acompanha a vida pessoal e Perkins e sua relação complicada com os escritores, cujas obras foram fortemente influenciadas pelo trabalho do editor.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Michael Grandage” espaco=”br”]Michael Grandage[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: John Logan
Título Original: Genius
Gênero: Drama
Duração: 1h 44min
Classificação etária: 12 Anos
Lançamento: 20 de outubro de 2016 (Brasil)

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