O Mundo Sombrio de Sabrina – 1ª temporada | (Crítica)

Pedro Vieira

SABRINA RETORNA EM BOA TRAMA CHEIA DE TERROR E DRAMA ADOLESCENTE

Das personagens da Archie Comics, a bruxa Sabrina provavelmente é a mais famosa, já tendo estrelado filmes, desenhos animados e uma sitcom na década de 90 que teve 6 temporada. Se atualmente Archie e seus amigos são conhecidos pelo grande público graças ao seriado Riverdale, Sabrina continua sendo uma personagem que marcou uma geração, e bastou a Warner e a Netflix anunciarem a produção de uma nova série inspirada na personagem para mexerem com os ânimos dos fãs da feiticeira.

“O Mundo Sombrio” (Chilling Adventures of Sabrina) é o novo programa focado na vida de Sabrina Spellman (Kiernan Shipka), uma jovem metade bruxa e metade humana que precisa decidir se vai seguir o caminho de sua família mágica ao completar 16 anos, ou abandonar tudo para ficar ao lado dos amigos humanos. Se nos anos 90 a personagem vivia aventuras cheias de comédia, o novo seriado agora flerta com o terror e o drama, mas sem deixar de lado um bom humor mórbido.

Em sua jornada de crescimento, Sabrina é acompanhada de suas duas tias e seu primo. Essa dinâmica familiar se coloca como um dos elementos mais bem trabalhados da série e talvez o mais importante, pois em sua jornada de crescimento, Sabrina precisa aprender a agir sozinha e a rebelar-se contra os limites impostos por sua família, ao mesmo tempo em que compreende que serão justamente seus parentes aqueles que darão a ela apoio quando aparecerem situações que superam seus limites.

É nesse núcleo que surgem personagens como Zelda, a estoica líder da família, que tem seus modos maternais e seus momentos de insensibilidade muito bem equilibrados pelo desempenho fascinante e cheio de trejeitos de Miranda Otto. Enquanto isso, a Hilda de Lucy Davis surge como o coração desse pequeno clã, e consegue se destacar graças ao carisma e à facilidade da atriz em lidar com cenas de comédia. Há também Ambrose, o primo de Sabrina que, além de muitas vezes agir como comparsa da prima, chama a atenção com seus diálogos ácidos e cheios de ironia em uma atuação igualmente marcante de Chance Perdomo.

Entretanto, a série não seria nada sem Shipka, que ainda jovem é capaz de conduzir a série sem nenhum empecilho ao desenvolver os temores de Sabrina de modo a fortalecer ainda mais a personagem. Outro destaque vai para a vilã da trama, Michelle Gomez, que interpreta a Sra. Wardwell. Mesmo aparecendo pouco em relação ao restante do elenco, Gomez consegue fazer sua personagem se impor perante os outros que se encontram ao seu redor com seu olhar misterioso que aguça a curiosidade do espectador, o qual sempre sabe que ela esconde mais do que revela.

Os roteiros dos episódios são bem amarrados e ao contrário de outras séries da Netflix, “O Mundo Sombrio de Sabrina” é um pouco mais episódica, havendo apenas dois arcos que se expandem para mais de um episódio. Ao equilibrar os problemas pessoais de Sabrina com o universo mágico que habita, a trama cria uma história de crescimento que consegue fugir de clichês que poderiam tornar a protagonista em uma simples heroína a partir do momento em que os sacrifícios que ela precisa fazer são colocados em jogo, o que torna toda a sua narrativa ainda mais complexa. É desenvolvida assim uma jornada interessante para Sabrina, ao mesmo tempo em que a série cria uma mitologia própria e envolvente que dá brecha para serem trabalhadas diversas lendas relacionadas a bruxas e magia.

Se o universo mágico do programa é tão interessante, o outro lado do mundo de Sabrina, o que diz respeito aos seus amigos humanos, acaba sendo um tanto quanto frustrante. Em parte, os próprios personagens que habitam esse núcleo da trama são os culpados.

O Mundo Sombrio de Sabrina - 1ª temporada | (Crítica)

Tanto as amigas de Sabrina, as jovens Roz e Susie, quanto o namorado da protagonista, Harvey, possuem motivações e histórias bem menos profundas que os integrantes da família Spellman, por exemplo. Mesmo quando a série tenta dar aos amigos humanos da protagonista alguma ligação com o mundo sobrenatural, esses personagens se mostram tão insossos que é difícil se apegar a eles. É verdade que ao menos Roz e Susie possuem tramas com as quais se pode afeiçoar, mas o drama de Harvey é pouco interessante. Ele é o elo fraco do grupo e se não tivesse uma ligação tão forte com Sabrina, seria um personagem esquecível.

Outro ponto que diminui a força dos personagens humanos é a unilateralidade. Todos são muito bons, muito altruístas, enquanto que os personagens do lado mágico da história são mais travessos, mais dúbios. É o caso de Prudence, que atravessa a linha tênue entre rival e amiga de Sabrina conforme a série desenrola. Do mesmo modo, o misterioso Nicholas surge como um possível problema para o relacionamento entre Harvey e Sabrina – infelizmente, ele nunca chega de fato a se destacar, mas somente a sensação que sua presença passa assim que ele surge na série já prova a superioridade dos personagens bruxos sobre os humanos.

Na busca por se manter atual, a série trabalha o importante tema do feminismo, algo natural tendo em vista que há tantas personagens femininas fortes na série. Tanto em sua escola comum, quanto no universo mágico, Sabrina dá de cara com momentos em que percebe como mulheres acabam sendo colocadas como inferiores aos homens.

Entretanto, algumas escolhas tomadas por diretores e roteiristas fazem com que diálogos se tornem expositivas demais e a série perca a chance de desenvolver tal tema de forma menos artificial, se tornando quase didática, principalmente em seus primeiros episódios. Não é como se a série não conseguisse trabalhar essa temática com mais sutileza (e assim fortalecer a narrativa), pois há uma poderosa cena no final da temporada que demonstra como os homens do mundo bruxo tentam sempre rebaixar as mulheres bruxas. É uma cena rápida, com poucos diálogos, mas poderosa em sua simbologia, algo que falta à série em outras sequências.

Abordada também é a questão da fé e da religião a partir do culto satânico seguido pelas bruxas. Neste caso, problemas trazidos por uma crença cega são expostos com bom humor. Ainda que a série nunca perca a sua seriedade, há algo de engraçado nos absurdos que Sabrina presencia as bruxas fazerem, elemento que oferece um bem-vindo alívio à tensão de algumas sequências.

Como obra que se propõe e trabalhar com o terror, “O Mundo Sombrio de Sabrina” ainda traz diversas referências a obras consagradas do gênero, como “O Exorcista”, “A Hora do Pesadelo” e “A Morte do Demônio”. A estética também é um ponto alto do programa, que cria cenários e figurinos cheios de cores escuras que oferecerem o clima certo ao programa. O erro talvez surja em relação à maquiagem de alguns monstros, que variam entre o realmente assustador e o ridículo (e a demônio dos sonhos é um exemplo deste último caso). A série também utiliza de um efeito de desfoque nos cenários ao redor dos personagens de modo a realçar o perigo de algumas sequências, embora algumas vezes o uso de tal técnica se mostre excessivo.

Ainda que apresente uma temporada concisa e focada, com uma trama bem trabalhada, a série não deixa de possuir deslizes. O quinto episódio, por exemplo, é quase que completamente dispensável e por vezes Wardwell atua como uma fácil solução para todos os problemas de Sabrina, quase sempre tendo a chave para resolver algum conflito – e mesmo que ela só ajude a protagonista com segundas intenções, não deixa de ser um incômodo ver a série repetir tantas vezes essa fórmula. Há também questões que nunca são muito bem aprofundadas pela trama (como a morte de Connor) e não parecem que serão resgatadas no futuro.

Com uma segunda temporada já confirmada, “O Mundo Sombrio de Sabrina” consegue oferecer um final satisfatório para seu primeiro ano, ao mesmo tempo em que se permite criar ganchos que podem alimentar toda uma leva de novos episódios. Resta agora aguardar saber o que está por vir, pois a hora das bruxas na Netflix já chegou, e ela promete ser tão assustadora quanto prazerosa.

Pôster de divulgação: O Mundo Sombrio de Sabrina

Pôster de divulgação: O Mundo Sombrio de Sabrina

FICHA TÉCNICA

Título Original: Chilling Adventures of Sabrina
Ano: 2018
País: EUA
Criação: Roberto Aguirre-Sacasa
Direção: David Lanzenberg, Brendan Michael Uegama
Elenco: Kiernan Shipka, Miranda Otto, Ross Lynch e grande elenco
Duração: 10 episódios de 60 minutos cada

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