O OUTRO LADO DO PARAÍSO (Crítica)

Kadu Silva

Um longa acima de tudo, muito importante

Em 1963, o Brasil passava por um período delicado no seu cenário político, o país se encontra dividido e no ano de 1964 ocorreu o golpe que nos levou a anos de ditadura militar, com acontecimentos sangrentos que muitos devem conhecer dos livros, ou se lembrar da época. Esse é o pano de fundo do delicado O Outro lado do Paraíso, que traz essa história pelos olhos de um garoto de 12 anos.

Baseado em um dos contos do livro “Trevas no Paraíso”, de Luiz Fernando Emediato o filme, autobiográfico, retrata a história da família do autor. Eles viviam no interior de Minas Gerais, Antônio (Eduardo Moscovis) seu pai, um homem muito religioso e sonhador, deixa seus bicos no garimpo para buscar nova vida em Brasília junto com sua família, mas esse sonho de prosperidade é interrompido pelo golpe militar, já que Antônio, tinha ligação com o movimento sindical e acaba sofrendo diretamente com o pesadelo que ocorreu naquele momento negro de nossa história.

O roteiro de Marcelo Müller (Infância Clandestina) como já citei acima, acerta em usar a visão ingênua de filho de Antônio, o Nando (Davi Galdeano), para contar a história, fato que tira o teor pesado do período retratado. O que vemos é sua descoberta amorosa, sua inspiração heroica no pai e sua busca por conhecimento e por querer mudar o mundo, é uma concepção poética dos fatos.

O diretor André Ristum (Meu País), contratado para executar a direção do longa, imprime sua marca que é um olhar delicado nas relações afetivas familiares, e sua narrativa intimista e doce serve como o motor do arco dramático da trama, principalmente na relação do pai com o filho e também do pai com a família como um todo. Mas Ristum como mesmo revelou em entrevista ao site não teve o corte final do filme e não pode fazer uma obra como gostaria, por exemplo, sobre o grande número de narrativa em off, que é autoexplicativa, soando mesmo que não intencionalmente como uma subestimação da capacidade do espectador de entender a imagem por si só, como ele mesmo explica, foi uma exigência do produtor Luiz Fernando Emediato.

Apesar de bela a trilha sonora também acaba dando para o filme um caráter meio melodramático desnecessariamente, houve um peso na mão em determinados momentos, mas nada que prejudique o filme, inclusive no final do longa tem uma bela canção de Patrick de Jongh (que é o responsável pela trilha sonora) interpretada por Milton Nascimento, que é deslumbrante, “Ventos Irmãos”, que merece sua atenção.

Outros dois acertos merecem destaque, que é a fotografia de Jean Manzon, que soube explorar o colorido da época e abusar da rica palheta em cores vivas, muito em moda na época e logicamente a direção de arte que faz um trabalho memorável na reconstituição de época em todos os detalhes do figurino a objetos cênicos. Vale menção também a montagem de Gustavo Giani, que soube inserir perfeitamente o rico material real que foi retido do documentário de Joaquim Pedro de Andrade, o Brasília: Contradições de Uma Cidade Nova, de 1967. Não se pode esquecer do excelente elenco do filme, todos estão ótimos, destaque para o jovem ator Davi Galdiano (Os Amigos), que ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Brasília pelo seu papel no longa.

O Outro Lado Paraíso, ainda que apresente certos problemas em sua execução é uma obra importante, principalmente por nos mostrar que nosso passado recente já produziu momentos lastimáveis e que precisamos tentar não repetir com os erros que infelizmente ainda insistem em acontecer no nosso atual cenário político.

O Outro lado do paraiso

SINOPSE

Antônio (Eduardo Moscovis) faz o que pode para conseguir dinheiro para o sustento do lar. Já tentou garimpo, bicos diversos, e agora pensa ter encontrado finalmente seu lugar: Brasília. Atraído pelas promessas do presidente João Goulart e pela ampla oferta de emprego, ele se muda para a capital com a esposa e os filhos. O sonho da prosperidade, no entanto, é interrompido pelo golpe militar e Antônio, envolvido com o sindicalismo, começa a viver um pesadelo.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”André Ristum” espaco=”br”]Andre Ristum[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Marcelo Müller
Título Original: O Outro lado do Paraíso
Gênero: Drama
Duração: 1h 39min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 12 Anos
Lançamento: 2 de junho de 2016 (Brasil)

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