O PIANISTA (Crítica)

O PIANISTA

5estrelas

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Pianist
Ano do lançamento: 2002
Produção: França, Reino Unido, Alemanha e Polônia
Gênero: Drama
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Wladyslaw Szpilman e Ronald Harwood

Sinopse: O pianista polonês Wladyslaw Szpilman (Adrien Brody) interpretava peças clássicas em uma rádio de Varsóvia quando as primeiras bombas caíram sobre a cidade, em 1939. Com a invasão alemã e o início da 2ª Guerra Mundial, começaram também restrições aos judeus poloneses pelos nazistas. O filme acompanha a perseguição que levou à captura e envio da família de Szpilman para os campos de concentração. Wladyslaw é o único que consegue fugir e é obrigado a se refugiar em prédios abandonados espalhados pela cidade, até que o pesadelo da guerra acabe.

Por Jason

O PIANISTA03

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, de dois prêmios BATFA, de sete prêmios no César, do Goya de Melhor Filme Europeu, com duas indicações ao Globo de Ouro e vencedor de três (Melhor Diretor, Melhor Ator (Adrien Brody) e Melhor Roteiro Adaptado) das sete indicações ao Oscar, O pianista é uma verdadeira obra prima dirigida por Roman Polanski, baseada nas memórias do músico Wladyslaw Szpilman (1911 – 2000) escritas em 1946 e publicadas com o título “A morte de uma cidade” na Polônia. Censurado pelos comunistas, as memórias só seriam republicadas nos anos 90 já com o título de “O pianista”.

O filme mostra o surgimento do Gueto de Varsóvia, quando os alemães construíram muros para encerrar os judeus em algumas áreas, e acompanha a perseguição que levou à captura e envio da família de Szpilman (Brody) para os campos de concentração. Todos os horrores da guerra estão ali como vistos em outros filmes com a mesma temática, mas o que fez O pianista ser diferente dos outros é justamente o fato de ser uma produção sensível, bem elaborada, consistente e chocante, sem nenhum momento de apelação e com uma reprodução fiel de um momento histórico vergonhoso para a humanidade.

O envolvimento de Polanski com o Holocausto não é novidade até aqui. Polanski, descendente de poloneses, viveu no gueto de Cracóvia e perdeu a mãe num campo de concentração nazista. Fala-se que algumas das cenas relatadas no filme ele mesmo presenciou com os próprios olhos — a mulher que leva um tiro na cabeça porque questiona para onde era levada por um nazista, ou o pai de Szpilman, sendo espancado por soldado alemão. Polanski conseguiu evitar a prisão pelos nazistas e o envio aos campos escapando do Gueto, e passou a Segunda Guerra Mundial em fuga permanente. Já estabelecido como grande diretor, o cineasta Steven Spielberg o convidou para dirigir A lista de Schindler, no começo dos anos 90, mas Polanski educadamente declinou da oferta por ainda não se sentir preparado para um filme com esta temática.

Tamanho conhecimento do momento relatado em O pianista só poderia gerar uma produção tão terna e, ao mesmo tempo, com extraordinário olhar de amplitude e distanciamento. Polanski não se aprofunda na temática do holocausto. Não há aqui clichês, não há interpretações fora do compasso. Sua câmera, mantendo um tipo de ética e de elegância, atua como se fossem os olhos do personagem e, por consequência, também os olhos de Polanski sobre um acontecimento que lhe é íntimo. Ele equilibra o drama ao focar o seu trabalho na destruição da humanidade de um homem inocente — cuja existência é completamente deformada pela bestialidade de uma guerra e não só sua vida como seu talento são reduzidos à insignificância.

A Segunda Guerra é, assim, um pano de fundo de macabro, pelo qual Szpilman vaga rumo à sua total deterioração. Numa das cenas do filme, Polanski retrata um grupo de judeus obrigados por soldados alemães a dançarem cada vez mais rápido, em pares que vão de mulheres de aparências febris a homens paralíticos. É uma cena sensível, triste, sem ser apelativa, que choca pelo humor doentio com os quais os sádicos nazistas se alimentavam da desgraça de um povo.

O PIANISTA01

É notável também como a produção dá uma aula de emprego de recursos financeiros. O pianista custou 35 milhões de dólares, uma mixaria perto dos padrões hollywoodianos e seus filmes barulhentos de guerra, mas arrecadou quase quatro vezes mais — nada mal para um filme que não foi realizado para as grandes massas. Toda a técnica aqui, aliás, trabalha a serviço da produção: dos efeitos especiais bem utilizados para mostrar o resultado da destruição, passando pela cenografia ultra perfeita que caminha de ambientes claros a escuros, pela montagem e pela trilha, tudo conspira em favor do filme, num resultado completamente homogêneo. Seu roteiro premiado ainda sublinha que não importa de que lado uma pessoa esteja no conflito, a humanidade dá lugar a animalidade — seja na brutalidade com que os alemães tratam os judeus, seja na forma de viver com que Szpilman é forçado a se habituar, do trabalho escravo, passando a viver trancafiado em lugares, doente, quase morrendo de desnutrição e vivendo de migalhas. Nada disso teria impacto, caso o ator escolhido não tivesse um talento maiúsculo para retratar ao espectador toda a privação pelo qual Szpilman passou e aqui entra outro mérito da produção: a escolha de Adrien Brody para o papel principal.

A primeira escolha do diretor era a do ator Joseph Fiennes, que declinou devido a compromissos de teatro. Conta-se que mais de 1000 atores fizeram testes para o filme, mas Polanski acabou escolhendo Adrien Brody, de Além da linha vermelha. É a interpretação de Brody, premiada com o Oscar, que conduz o filme a um patamar superior. Brody, cuja carreira infelizmente não decolou como deveria depois do filme, mudou radicalmente sua aparência, com barba, olheiras e quatorze dos seus já parcos 73 quilos perdidos para a preparação do papel. Ele passa toda a tristeza e a quase completa anulação de sua humanidade ao viver como um rato, escondido nos entulhos da cidade. Seus olhares solitários enquanto observa o caos e destruição causados pela guerra, sua amargura, seus gestos ora delicados quando está diante de um piano, ora confusos quando sofre de desnutrição e icterícia, transmitem toda a sobriedade, tristeza e desesperança para o espectador, que almeja que ele escape dali com vida, mas numa possibilidade que a cada momento parece se esvair.

Seu Szpilman funciona, no todo, como uma perfeita testemunha ocular de Polanski sobre o Holocausto e os dois, diretor e ator, parecem conectados um ao outro: ele vê a fome, a perseguição, a humilhação e o medo de um povo à medida que os nazistas avançam (como na cena em que pessoas são mortas e uma delas arremessada de uma sacada de um prédio vizinho por uma ofensiva nazista). Passa a fazer trabalho escravo, não se faz de passivo diante da destruição e tenta ajudar contrabandeando armas para dentro do Gueto. É forçado a fugir de um esconderijo até pela ameaça de ser delatado, passa a viver nas mínimas condições de higiene e se refugia em escombros.

E, no meio disso tudo, o trabalho de Polanski ainda questiona o que de fato, diante da total destruição, mantém uma pessoa como Szpilman vivo e “humano”: em uma das cenas emblemáticas, a música e o talento do pianista une o oficial alemão Wilm Hosenfeld (Thomas Kretschman, em boa caracterização) que lhe dá comida, roupas e proteção após ouvi-lo tocar Balada N°1 em sol menor, opus 23, de Chopin. É a arte, unindo dois mundos completamente distantes e implantando luz, mesmo que seja pouca, no meio do mais puro horror.

Absolutamente brilhante.

O PIANISTA02

PRÊMIOS

OSCAR
Ganhou: Melhor Ator – Adrien Brody, Melhor Diretor – Roman Polanski, Roteiro Adaptado

Indicação: Figurinos, Melhor Filme, Fotografia, Montagem

GLOBO DE OURO
Indicação: Ator – Drama – Adrien Brody, Filme – Drama

TRAILER

Comente pelo Facebook

3 Comentários

  1. Helena

    Este filme é simplesmente magnífico ! Sem dúvida o melhor !

  2. Eliane

    Emocionante, totalmente comovente, atuação do ator comovente!!! Ótimo filme super recomendo!!

  3. Eliane

    Emocionante, totalmente comovente, atuação do ator magnífica!!! Ótimo filme super recomendo!!