O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos (Crítica)

Pedro Vieira

COM FÓRMULA CLÁSSICA, DISNEY CRIA CONTO DE NATAL DIVERTIDO E ENCANTADOR

As animações da Disney, em especial as de princesa, sempre foram elaboradas a partir de uma espécie de fórmula que foi evoluindo com o tempo, se adaptando e mudando narrativamente conforme o cinema e as técnicas de animação se desenvolviam, mas sempre mantendo elementos chaves. Para notar isso, basta comparar um filme da década de 50 como “Cinderela” com longas como “A Pequena Sereia” e “Frozen” para encontrar tanto semelhanças entre eles, quanto diferenças. Mas o que isso tem a ver com um live-action como “O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos”? Bom, acontece que se este filme fosse uma animação, ele se assemelharia muito mais a uma obra da Disney das décadas de 40 e 50, do que às obras atuais – mas com alguns toques que o tornam um longa contemporâneo e agradável.

Adaptação livre do famoso balé, o filme segue a jornada de Clara (Mackenzie Foy), uma garota que acaba indo parar em um mundo mágico composto por quatro reinos nos quais brinquedos ganham vida e no qual ela é nomeada princesa. Nesse local, ela conhece personagens como a Fada Plum (Keira Knightley) e o soldado quebra-nozes Phillip (Jayden Fowora-Knight), além de descobrir os segredos em torno do Quarto Reino comandado pela misteriosa Mãe Ginger (Helen Miren).

O roteiro da novata Ashleigh Powell sabe elaborar uma história centrada em sua protagonista, bem amarrada e pouco pretensiosa ao usar a fórmula básica da Disney, com diálogos simples e um humor inocente, que dá origem a um verdadeiro conto de natal leve e divertido. Entretanto, há uma tentativa de criar um plot-twist que já virou comum nos longas atuais do estúdio. Não é algo que dê errado, ou que prejudique a história, mas não é surpreendente, principalmente vindo do fato desta aventura infantil ser um tanto quanto previsível – o que não quer dizer que ela não possa ser envolvente tanto para crianças, quanto para os adultos.

As atuações são propositalmente exageradas para realçar a sensação de se estar entrando em um universo puro da mente de uma criança, e por vezes revelam uma inspiração expressionista por parte do longa, algo que também é notável pela escolha de uma maquiagem forte e bem marcada na maioria dos personagens do mundo mágico. Tais elementos fazem até mesmo com que o filme se assemelhe a um obra de Tim Burton, diretor conhecido por seguir uma veia expressionista e que chegou a dirigir um título semelhante (Alice no País das Maravilhas), mas este “O Quebra-Nozes” consegue a se diferenciar dos trabalhos de Burton pelo uso de cores mais fortes por parte da direção de arte e por não buscar seguir uma linha sombria.

Ao compor Clara, a jovem Foy abraça o espírito de uma princesa Disney como Branca de Neve, com trejeitos delicados que a tornam encantadora. Já a Fada Plum de Knightley parece uma verdadeira boneca que ganhou vida, com movimentos bem calculados e uma voz aguda que caem bem para a personagem, enquanto Fowora-Knight elabora um Phillip que é a encarnação do herói leal e destemido.

O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos (Crítica)

Os figurinos da obra são impressionantes (e suas chances de indicação ao Oscar da categoria em 2019 são grandes), chamando a atenção a forma como a figurinista Jenny Beavan cria simbologias ao vestir Clara com um vestido roxo, cor relacionada a morte e que se encaixa perfeitamente ao momento de luto que a personagem passa por ter perdido a mãe recentemente. Da mesma forma, há uma preocupação por parte de Beavan em tornar Clara e Phillip personagens distinguíveis em meio à multidão quando ambos se reúnem com um grupo de soldados e todos usam trajes vermelhos para irem ao campo de batalha. Por fim, vale destacar a boa elaboração dos palhaços do Quarto Reino, que são por vezes cômicos, e por vezes levemente assustadores.

Apesar de ter “Os Quatro Reinos” em seu título, por uma questão de foco narrativo, o filme pouco apresenta cada um desses reinos. Na realidade, o único reino que é explorado de fato é o Quarto Reino, com os outros três surgindo na tela apenas em uma breve cena, enquanto que boa parte do longa se passa em um castelo no limiar dos reinos. Isso prejudica a sensação de grandeza do mundo mágico que os diretores Lasse Hallström e Joe Johnston tanto tentam passar com suas sequências panorâmicas exageradas, pois além de vermos pouco desse mundo, os cenários também são um tanto quanto pequenos, ainda que muito bonitos. Vale ressaltar também que há um grande uso do CGI na construção do mundo mágico e seus personagens, mas nada que acabe atrapalhando a obra no geral.

Interessante notar como a narrativa se baseia quase que totalmente em cima da questão da perda, mostrando como não somente Clara, mas outros personagens precisam lidar com a perda ou abandono de um ente querido – e a motivação do personagem antagonista tem uma relação profunda com isso. Trata-se de uma temática geralmente evitada em longas infantis, ou que muitas vezes acaba sendo desenvolvida de forma pouco densa, o que não é o caso de “O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos”.

O longa não tem medo de prestar homenagem ao balé que o originou, algo que é feito tanto pela trilha sonora, que recria as composições de Tchaikovsky, como também através de uma cena com a bailarina Misty Copeland. Interessante ressaltar ainda que na mesma cena a Disney faz uma pequena referência ao clássico “Fantasia”, que chegava a utilizar uma das composições do balé “O Quebra-Nozes” em uma de suas sequências animadas.

Ainda que se baseando em um formato clássico de contar história, “O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos” jamais deixa que sua princesa protagonista se coloque como uma simples dama indefesa, como seria o caso de uma Branca de Neve ou uma Bela Adormecida. Como muitas heroínas atuais, Clara é uma personagem que sabe cuidar de si própria, utilizando mais da inteligência do que da força para superar seus obstáculos. Há na realidade três personagens femininas fortes que guiam trama, enquanto que o Quebra-Nozes é o príncipe encantado da obra, mas nunca um interesse romântico para Clara, e surge sendo interpretado por um jovem ator negro, um fato pouco comum nas adaptações do balé, mostrando a preocupação da produção em abraçar questões relativas à representatividade.

Com aspectos técnicos impressionantes e uma história capaz de unir uma fórmula clássica a elementos atuais, “O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos” é um viagem mágica do tipo que somente a Disney poderia oferecer.

Pôster de divulgação: O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos

Pôster de divulgação: O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos

SINOPSE

Clara (Mackenzie Foy), jovem esperta e independente, perde a única chave mágica capaz de abrir um presente de valor incalculável dado por seu padrinho (Morgan Freeman). Safa na solução de problemas, ela decide então iniciar uma jornada de resgate que a leva pelo Reino dos Doces, o Reino das Neves, o Reino das Flores e o sinistro Quarto Reino.

DIREÇÃO

Lasse Hallström, Joe Johnston

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Alexandre Dumas Père
Título Original: The Nutcracker and the Four Realms
Gênero: Fantasia
Duração: 1h 40min
Classificação etária: Livre
Lançamento: 1 de novembro de 2018 (Brasil)

Comente pelo Facebook