O SIGNO DAS TETAS (Crítica)

Juca Claudino

O prazer, subjetivo e caótico

Frederico Machado é um diretor maranhense de 44 anos, que com esse perturbador (em um bom sentido) “O Signo das Tetas” chega ao seu segundo longa com uma série de características autorais notáveis. Seu primeiro filme, “O Exercício do Caos” (2013), dialoga com o “O Signo…” por conterem algumas proximidades estéticas e temáticas. Na estética, o estilo iconoclasta, caótico, fragmentado, com uma edição desordenada e delirante, alternando momentos de silêncio agudo com momentos de gritante berraria que no final das contas geram uma película estarrecedora e alucinante. Na temática, os conflitos internos de personagens adultos, presos a lembranças de pessoas que já se foram e sentimentos melancólicos.

Mas é fato que “O Signo das Tetas” abusa muito mais do surrealismo, das construções fragmentadas e do desenvolvimento dos desejos do seu personagem principal do que “O Exercício do Caos”. Aqui, nesse filme, o foco de fato é o mergulho no psicológico do errante homem sem nome interpretado de forma mística por Luande Aires. Dele, sabemos apenas uma única informação: graças a uma espécie de Complexo de Édipo mal resolvido, em sua mente é recorrente a lembrança dos seios da mãe (as tetas do título) já falecida. Em cena, vemos um personagem dividido entre os extremos: quando parece estar seduzido pelo prazer corporal, pelo amor carnal, pela expressão dos seus instintos, é confrontado por uma força coercitiva e moralizante, muitas vezes representada pelos símbolos da Igreja, que vêem como pecaminoso e subversivo a libertação sentimental pelo sexo, pela dança ou por qualquer tipo de sensação catártica. Essa bipolarização consumirá o âmago do homem errante, entre o prazer dos sentidos e a imposição de uma moral repressiva, quase que estóica, que o priva da busca pelo gozo.

Os elementos que Machado coloca na tela dão pujança a essa embate psicológico e emocional, extremamente perturbador e inclusive aterrorizador, além de um requinte vanguardista a sua obra. Um exemplo disso é a instigante forma como expõe os corpos em cena, colocando neles uma misteriosa construção que exprime ora excitação, ora decadência. Outro exemplo disso é o cenário naturalista da película, que faz uma espécie de metáfora ao colocar o homem frente a natureza, uma metáfora que sintetiza a proposta de analisar a natureza humana, a natureza dos desejos, dos prazeres, do amor carnal. E embora o título do longa seja “O Signo das Tetas”, nenhum signo (e existem uma série de simbologias no seu roteiro) é apresentado com clareza e com precisão: tudo parece ser contraditório, confuso e caótico. Contradição, confusão e caos esse presente no espírito do homem errante de Luande Aires, essência do embate interno que conduzirá o “O Signo…” ao logo dos seus penetrantes e intensos 107 minutos.

O cinema de Frederico Machado prova ser um cinema provocador, ao deixar o longa todo em aberto. Constrói um longa extremamente subjetivo e etéreo, riquíssimo em um âmbito psicológico-filosófico, todavia sem conclusões. Tudo fica em aberto. Os extremos apresentados pelo longa continuam nos questionando e lutando em nossa mente. A solidão de um personagem errante em meio ao interior maranhense – o qual nos rende visual belíssimos, embora explorados de forma claustrofóbica pela fotografia – permanece o atordoando, assim como o atordoa a presença das tetas da mãe em sua memória. Presença essa que constrói um grande mistério ao longo do filme, podendo ser ligada a várias características do personagem: estaria envolvida nas causas do olhar melancólico que carrega, ou então na busca por afeto e segurança que muitas vezes resulta nas suas aventuras eróticas? O filme nos joga dilemas, e seus dilemas são carregados pelo espectador até a porta de saída do cinema.

Por diversas vezes “O Signo das Tetas” me lembrou o cinema marginal, com sua ousadia na linguagem e sua leitura instigante. Eu usei a palavra “perturbador” por diversas na crítica, e essa é uma ótima palavra se fossemos definir o filme em apenas um adjetivo.

O SIGNO DAS TETAS

SINOPSE

Um homem (Lauande Aires), que vive no limite entre razão e loucura, está em busca de seu passado. Para isso, ele percorre diversas cidades do interior do Maranhão para tentar reconstruir sua história. Nesse “road movie”, ele vai conhecer os mais variados tipos de pessoas e reencontra signos de sua vida, mostrando um possível caminho para sua salvação.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Frederico Machado” espaco=”br”]Frederico Machado[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Frederico Machado
Título Original: O Signo das Tetas
Gênero: Drama
Duração: 1h 52min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 16 Anos
Lançamento: 14 de julho (Brasil)

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