OS CAVALEIROS BRANCOS (Crítica)

Juca Claudino

Milton Santos, um dos maiores geógrafos de todos os tempos, memoravelmente disse que “a globalização atinge ao mundo todo, mas não a todos os lugares”. É uma frase expressivamente crítica a todo o desigual processo de globalização do planeta, processo esse cujas injustiças e perversidades “Os Cavaleiros Brancos”, dirigido por Joachim Lafosse, mostra-se pronto a expor. Da mesma forma, quer expor a segregação sócio-econômica das regiões mais pobres do planeta (“a periferia do mundo”), coisa imensamente perceptível já na sinopse do filme: um grupo de europeus (franceses e belgas, principalmente) disfarçam-se de uma ONG a qual teria a missão de vacinar crianças de um lugar (em um país não explicitado do continente africano) onde “a globalização não o atinge” – mas ilegalmente estão resgatando 300 órfãos com idade menor de 5 anos para que sejam adotados por famílias europeias, embora no fim das contas acabem sequestrando diversas crianças.

Eis, aqui, exposto o discurso europeu de salvação do mundo. Vale lembrar que, com o discurso de levar o cristianismo aos “bons selvagens” do continente americano e salvar-lhes as almas – falo do século XVI, principalmente -, o colonizou e o empurrou para as funções mais hierarquicamente inferiores da DIT, da mesma forma que, com o discurso de levar a civilização ao continente asiático e africano, colonizaram diversos países e exploraram muitos outros (definitivamente “partilhando” a África em colônias das potências europeias) no século XIX. Além do retrato da pobreza, há o retrato da prepotência e da hipocrisia dos europeus, que representados pela ONG “Kids for Move” novamente designam-se aqueles que salvarão o terceiro mundo da pobreza e da miséria por possuírem “certa superioridade” – o longa trabalha com uma espécie de etnocentrismo velado. Não se fala em desconstruir estruturas sociais, econômicas e políticas de desigualdade as quais se perduram há séculos, muito menos questionar o imperialismo tão centenário quanto dos países desenvolvidos. Da mesma forma que, ao invés de respeito, os personagens europeus esbanjam arrogância: se quer ouvem os moradores locais ao agirem na região, em uma crença arrogante semelhante as mesmas retóricas que colonizaram diversos países (inclusive o Brasil), gerando essa globalização tão desigual (e daqui é que nasce o irônico título do longa).

O filme tem escolhas estéticas interessantes. A câmera na mão e os planos longos dão um visual documental a “Os Cavaleiros Brancos”, ressaltando a atmosfera realista que quer transmitir. As cores quentes e amareladas, a iluminação forte e carregada e o céu extremamente limpo criam a sensação de secura criada pelo filme, tornando-o mais ríspido. O elenco todo está bem convincente, em especial Vincent London que, após ser elogiadíssimo pela crítica na sua atuação em “O Valor de um Homem”, longa crítico ao neoliberalismo, lança outro filme no circuito brasileiro no qual mostra atuação expressiva. Retrata o líder da ONG “Move for Kids” como um sujeito ao mesmo tempo que imponente, notavelmente rude. A direção de Joachim Lafosse opta por um visual árido e sequioso, o que potencializa a atmosfera dramaticamente brutal do longa.

Além disso tudo, o roteiro nos envolve em questões morais espinhosas. Ele se baseia na história fictícia da ONG francesa “Arca de Zoé”, que sequestrou crianças de regiões pobres do Chade e no Sudão para que fossem adotadas por famílias francesas (à época, em 2007, esses dois países não permitiam a adoção internacional de menores). No caso do filme, os protagonistas não só cometem essa ilegalidade como também nos é revelado que o personagem de Lindon não tem finalidades tão humanitárias assim. As questões acerca da legitimidade do sequestro ou da adoção ilegal de crianças para que essas tenham um padrão de vida mais rico e maior acesso aos direitos humanos, bem como do fato de europeus agirem de forma até mesmo invasiva (sem nenhum diálogo) no cotidiano de um grupo de pessoas das quais eles não fazem parte, tornam o filme mais angustiante ao longo de sua duração.

De forma geral, “Os Cavaleiros Brancos” consegue ser conscientemente crítico, revelando a permanência do incoerente discurso de salvação do mundo por parte das potências mundiais (como disse, um etnocentrismo velado), aliado a atmosfera densa e áspera do longa. É fato que não é o filme tão vigoroso e impactante ao denunciar as crueldade e hipocrisias da estrutura social como os clássicos da Geração de 30 do Modernismo brasileiro ou do cinema neorrealista italiano, mas independente disso o retrato que faz de nosso mundo globalizado é de perturbar a nossa (in)sensibilidade.

OS CAVALEIROS BRANCOS

SINOPSE

Jacques Arnault (Vincent Lindon) é presidente de uma ONG que auxilia crianças em dificuldade. Sua próxima e ambiciosa ação consiste em resgatar 300 órfãos, vítimas da guerra civil em um país africano. A ideia é trazer um avião fretado da França, receber as crianças e levá-las ao país europeu, onde pais adotivos aguardam-nas. Jacques conta com a ajuda de sua esposa, de uma jornalista e de uma equipe de assistentes da ONG. Na hora de executar o plano, no entanto, nada se passa como previsto e a tensão começa a aumentar.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Joachim Lafosse” espaco=”br”]Joachim Lafosse[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Joachim Lafosse, Bulle Decarpentries e Thomas Van Zuylen
Título Original: Les Chevaliers blancs
Gênero: Drama
Duração: 1h 52min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 12 Anos

Comente pelo Facebook