Os Incríveis 2 (Crítica)

Pedro Vieira

A FAMÍLIA MAIS INCRÍVEL DO CINEMA RETORNA EM UMA CONTINUAÇÃO DIGNA DO TÍTULO DE “SUPER”

Dos filmes da Pixar, “Os Incríveis” é provavelmente aquele que seria mais fácil de se desenvolver uma continuação. Afinal, estamos falando de super-heróis e basta um vilão e uma história em três atos razoável para que uma sequência ganhe vida. Entretanto, o grande destaque do primeiro longa da superfamília animada não era apenas a luta contra o mal, mas sim o modo como o estúdio e o diretor Brad Bird conseguiram criar um universo de super-heróis divertido e imaginar todas as consequências que essas pessoas especiais poderiam causar ao mundo (e as influências de “Watchmen” não diminuem o mérito do filme). Uma continuação não poderia apenas ser uma história sobre heróis e vilões, mas um filme que abrace esse legado e é justamente isto que “Os Incríveis 2” busca fazer.

Sendo lançado 14 anos depois do longa original, a nova aventura da família Pera mostra o que acontece quando Helena/Mulher-Elástica é convidada pelo empresário Winston Deavor e sua irmã, a brilhante Evelyn, para começar uma campanha que visa legalizar o retorno dos super-heróis. Enquanto isso, Roberto/Sr. Incrível precisa aprender a ser um pai e cuidar dos três filhos do casal: Violeta, que está tendo problemas com um garoto; Flecha, que precisa de auxílio na escola; e Zezé, que começa a expor seus poderes. Em meio a isso, surge o misterioso vilão Hipnotizador, uma ameaça à altura da família heroica.

Se no primeiro filme era inegável que o Sr. Incrível era o protagonista, ainda que toda a família tivesse uma grande participação, neste novo longa, as linhas do protagonismo se dissipam muito mais. Na realidade, há uma divisão balanceada entre o tempo de participação da Mulher-Elástica e do Sr. Incrível, assim como jornadas separadas para os dois bem delimitadas: ela deve voltar a abraçar sua carreira como heroína e compreender que não precisa abdicar do sucesso para ajudar a família; e ele precisa aprender a se tornar um pai capaz de cuidar dos filhos, algo que ele acabou por deixar em segundo plano ao longo dos anos – e isto gera diversas situações divertidas entre o herói e as crianças, especialmente com Zezé, que muitas vezes toma o foco da obra para si.

Sem conseguir fugir de alguns clichês dos gêneros de heróis e até mesmo apresentando similaridades narrativas com seu antecessor, Os Incríveis 2 ao menos conseguir utilizar tais elementos de forma convincente e sem prejudicar o resultado como um todo. Notável ainda é o modo como Bird volta a se mostrar não apenas um ótimo diretor de animações, mas um exímio roteirista, capaz de estruturar diferentes núcleos e personagens em uma mesma obra de modo sólido, sabendo direcionar cada elemento para que eles se reúnam ao final da história.

Por conhecer profundamente cada um de seus personagens e suas habilidades, Bird consegue criar cenas realmente incríveis, como quando a Mulher-Elástica persegue um trem em uma moto. O diretor ainda é capaz de coreografar sequências de luta que em nada perdem para as vistas em filmes live-action, sendo a de maior destaque o ótimo embate entre o Hipnotizador e a Mulher-Elástica em um cubo hipnótico que transforma a tela em um jogo de luzes e cores.

Os Incríveis 2 (Crítica)

O roteiro só peca no terceiro ato, quando um novo elemento (mostrado na metade da história) e os poderes de Zezé quase se tornam “deuses ex machina” que salvam e ajudam os heróis a se livrarem de dificuldades. Felizmente, a conclusão da história não se dá com o uso de artifícios tão fáceis, relembrando o primeiro longa, que mostrava os heróis saindo de situações complicadas de forma plausível, mas sem precisar escolher sempre o caminho mais simples.

Sendo a Pixar uma das pioneiras no ramo do CGI, seria quase um pleonasmo citar que o estúdio volta a entregar uma animação de alta qualidade técnica. Basta dizer que há uma evolução notável nas texturas dos efeitos de gelo e neve dos poderes do Gelado, assim como no modo que os cabelos se movimentam – e gosto principalmente de um rápido momento em que Violeta fica invisível e deixa somente a cabeça a mostra, com o cabelo da garota se chocando contra suas costas invisíveis no ar de forma bem delimitada.

O design dos personagens, por sua vez, acaba pecando na elaboração de um grupo de novos heróis que surgem na metade do longa. Extrapolando no “caricaturismo”, o design acaba fazendo com que esses personagens fiquem deslocados do longa como um todo, como se seus físicos não pertencessem àquele mundo – um estranhamento que é causado logo no momento em que a Mulher-Elástica conhece o grupo pela primeira vez. Somente a jovem Voyd e He-electrix parecem se encaixar ao universo de Os Incríveis 2 sem problemas.

Como já é de praxe, a dublagem brasileira conta com alguns nomes famosos no elenco, como Otaviano Costa, Flávia Alessandra, Evaristo Costa e Raul Gil. Enquanto o último dubla um personagem com apenas uma fala (o que evita qualquer tragédia ao estilo “Enrolados” aqui), Otaviano e Flávia ficam com papéis de grande importância para a narrativa e não fazem feio, mostrando que suas experiências anteriores com dublagem os ajudaram bastante a compor os personagens que encarnam. Já Evaristo, mesmo fazendo um jornalista no longa, não consegue fugir de apresentar uma performance quase robótica e sem vida – o completo inverso da figura que os espectadores da TV conheceram na época em que ele apresentava jornais na Globo. Felizmente, sua participação é minúscula.

Com cada vez mais filmes buscando trabalhar temas como misoginia e questões de gênero, é interessante ver que Os Incríveis 2 não tem medo de colocar uma referência direta ao machismo na boca de uma de suas personagens. Aliás (e agora aviso que estarei revelando um spoiler até o fim deste parágrafo), também é notável a escolha do longa em dar destaque a personagens femininas ao colocar Evelyn como a vilã principal e evidenciar as similaridades da personagem com a Mulher-Elástica: ambas são mulheres muito capazes que acabaram ofuscadas por homens, um dos maiores problemas do mundo atual. Entretanto, enquanto a heroína luta para conseguir seu lugar ao Sol, a vilã não se importa em ficar à sombra dos outros. Por fim, o foco na Mulher-Elástica parece querer dizer ao público duas coisas (que nesse momento todos já deveriam saber): mulheres também gostam de super-heróis e elas conseguem salvar o mundo sem problemas.

Repleto de momentos divertidos, mas sem deixar de lado os elementos de ação e suspense característicos de um filme do gênero super-herói, Os Incríveis 2 entrega uma continuação digna de seu antecessor, prova de que nunca há problema ao se esperar mais de uma década por um filme quando ele é bem feito.

Pôster de divulgação: Os Incríveis 2

Pôster de divulgação: Os Incríveis 2

SINOPSE

Quando Helena Pêra é chamada para voltar a lutar contra o crime como a super-heroína Mulher-Elástica, cabe ao seu marido, Roberto, a tarefa de cuidar das crianças, especialmente o bebê Zezé. O que ele não esperava era que o caçula da família também tivesse superpoderes, que surgem sem qualquer controle.

DIREÇÃO

Brad Bird Brad Bird

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Brad Bird
Título Original: The Incredibles 2
Gênero: Animação, Aventura
Duração: 1h 58min
Classificação etária: Livre
Lançamento: 28 de junho de 2018 (Brasil)

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