OS SONHADORES (Crítica)

Pedro Vieira

FICHA TÉCNICA

Título Original: The Dreamers
Ano do lançamento: 2004
Produção: França, Reino Unido, Itália
Gênero: Drama
Direção: Bernardo Bertolucci
Roteiro: Gilbert Adair
Classificação etária: 18 Anos

Sinopse: Matthew (Michael Pitt) é um jovem que, em 1968, vai estudar em Paris. Lá ele conhece os irmãos gêmeos Isabelle (Eva Green) e Theo (Louis Garrel). Os três logo se tornam amigos, dividindo experiências e relacionamentos enquanto Paris vive a efervescência da revolução estudantil.

OS SONHADORES

UMA GRANDE HOMAGEM AO CINEMA ATRAVÉS DE UM DRAMA CHEIO DE TENSÃO

É inegável a importância da França para o cinema. Berço da sétima arte com os irmãos Lumière, os cineastas do país foram responsáveis por proporcionar diversas mudanças na forma de pensar, fazer e se ver um filme. Por isso, é mais do que correta a escolha de Gilbert Adair no momento de escrever “The Holy Inoccents”, um romance sobre três cinéfilos, em ambientar a história no capital francesa. Por tratar de cinema, era inevitável que o livro fosse traduzido para a tela, algo que se deu pelas mãos do próprio Adair (que atuou como roteirista) e do diretor Bernardo Betolucci, que juntos deram vida a “Os Sonhadores” (The Dreamers).

“Os Sonhadores” é ambientado durante as manifestações que ocorreram na França em 1968. O americano Matthew (Michael Pitt) é um jovem cinéfilo que conhece os irmãos franceses Theo (Louis Garrel) e Isabelle (Eva Green), dois apaixonados por cinema assim como ele. Interessados no rapaz, os irmãos propõem que Matthew venha morar junto deles durante um período, o que possibilita que o jovem estreite sua relação com a dupla e descubra seus segredos obscuros.

Há todo um cuidado para que a imagem deixe transpassar de forma orgânica a relação dos três personagens e as obsessões sexuais que um tem pelo outro. A fotografia frequentemente enquadra Isabelle no meio dos dois rapazes, uma vez que ela é o motivo de conflito entre os personagens masculinos, ao mesmo tempo em que está dividida entre a devoção ao irmão e o prazer que obtêm com o novo amigo.

A direção de arte também busca dar maior identidade à personagem de Eva Green, fazendo-a se destacar ao trajar roupas com cores e estampas mais chamativas enquanto os dois rapazes usam figurinos de coloração mais neutra. O quarto de Isabelle ainda se mostra como uma peça chave para se entender todo o psicológico da personagem, uma vez que as cores mais leves e os dois ursinhos de pelúcia expõem todas as dúvidas e as preocupações da jovem em se ver em uma posição da qual tem que escolher entre Matthew e Theo.

É ainda notável a evolução de Matthew exposta pela narrativa. Se no início o personagem era visto com um figuro arrumado e aspecto introvertido, a sua relação com os irmãos franceses o fará usar roupas mais abertas, perder o pudor e se tornar mais incisivo em suas atitudes. A mudança do personagem só não se tornar mais verossímil devido ao fato de Pitt manter o mesmo tom de voz leve e concentrado do início ao fim do filme, o que faz o personagem perder certo vigor nos momentos que tenta importa suas convicções sobre Isabelle e Theo, porém, é louvável a forma como o ator, junto do colega Garrel, constrói toda a relação entre Matthew e Theo através do olhar, relação esta que vai de amizade, para uma rivalidade cheia de tensão – uma tensão que até chega a ser sexual em determinados momentos. Green, por sua vez, apresenta uma performance pontual e palpável, dando vivacidade à sua personagem sem deixar de lado a fragilidade que é intrínseca a ela.

Sendo apresentado como uma grande homenagem ao cinema em geral, “Os Sonhadores” reverência e recria cenas de diversos filmes, mostrando na tela algumas de suas influências e escondendo outras. Essas recriações são muito bem aplicadas a partir de uma montagem precisa, um aspecto que ainda é colocado sobre todo o filme, tornando-o muito agradável e coerente.

“Os Sonhadores” é uma dessas obras indispensáveis para qualquer amante da sétima arte, capaz de envolver o espectador de tal forma que ao final, os personagens parecem que se tornam amigos de longa data de quem assisti ao longa.

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