Para Ter Onde Ir (Crítica)

Ricardo Rocha

A contemplação e o vazio são os temas recorrentes desta obra cheia de identidade visual, de um lugar no Brasil a qual pouco se ver nas grandes telas.

No Pará 3 amigas decidem pegar a estrada e saem em busca de respostas, seja para a vida, para o amor ou para o passado. É justamente nesta estrada que encontramos rostos comuns que permeiam aquela paisagem, seja de uma senhora pedindo carona com seu neto, seja de crianças que brincam de pés descalços nas calçadas de areia e barro, seja pelas pessoas que vendem coco ou que vivem da pesca, tudo está intrinsecamente ligado aquele local.

Não lembro de ter visto algum filme onde a região norte do Brasil é retratado com paisagens menos tradicionais como estamos acostumados a vê. Alias, é um fato curioso quando nos deparamos com um cinema tão particular e desconhecido sem recorrer aos lugares comuns, como o maranhão por exemplo. A produtora Cabocla Filmes criada no ano de 2000 para produções cinematográficas da região norte é um exemplo que existe gente querendo contar suas histórias esquecidas das quais vemos com raridade. Dito isso, não é a toa que a diretora Jorane Castro, também paraense tenha ao longo dos anos, depois de retratar em vários curtas a vida e os costumes das pessoas destes locais, tenha resolvido colocar a mão na massa e mostrar através desta trama ficcional o quanto conhecemos pouco nosso pais, e o quanto essas vidas esquecidas são tão comuns as nossas.

Para Ter Onde Ir (Crítica)

Mas o grande problema aqui de fato, é saber para qual público seja direcionado este filme. É um cinema tão cheio de camadas em sua estética fria e melancólica, e apesar de ser um road movie, ainda sim passa um pouco longe dos road movies tradicionais. A natureza, os sons dos ambientes, as pessoas e tudo ao redor destas três personagens, são bem presenciáveis, as vezes lembrando um documentário, as vezes lembrando um cinema de contemplação como os filmes do diretor americano Terrence Malick, ou mesmo um filme isolado em sua essência, da qual já presenciei com “Os Famosos e os Duendes da Morte”(2009) filme com particularidades próprias do sul do pais com uma estética arrojada.

Enquanto seus personagens principais se distanciam de nós pouco a pouco. Em nenhum momento conseguimos sentir empatia por nenhuma delas, ou me importar o que elas buscam, pois justamente o que está em volta delas é mais interessante do que a jornada delas em si. E isso talvez seja intencional, mérito da direção, que sempre coloca suas personagens separadas por algo, seja pelo para-brisa do carro, seja por cercas, seja por grades ou até mesmo pela fina camada de chuva que permeia a tela da câmera. Talvez o vazio dentro destas personagens seja tão grande, que elas buscam o exterior para se refugiarem de algo terrivelmente próximo. Eva (Lorena Lobato) a personagem mais velha, que tenta sempre está no controle de tudo, mas que ao final sabemos que, na verdade ela perdeu o controle de toda a sua vida. Ela que conduz o carro, convida suas amigas, Melina (Ane Oliveira) uma mulher romântica, mais libertadora com a vida e o sexo, mas que sempre acaba presa ao ciclo das desilusões e incertezas amorosas, e Keithy (Keyla Gentil) que é uma cantora de tecno brega tanto na vida real, quanto no filme. A sua trama é a melhor desenvolvida e talvez se aproxime mais de um desfecho oblíquo.

Para ter onde ir, é um verdadeiro exercício de criatividade cimatográfica, vide a cena em que Eva encontra um rapaz no final do filme, e quando começa a discussão entre os dois, em vez de mostrar o que está sendo dito, apenas ouvimos o vento forte balançando os coqueiros, anunciando uma tempestade. Ainda que suas personagens sejam mulheres independentes e que cada uma delas tenha um visão bem própria de mundo, o vazio está sempre presente, e contemplando as paisagens ao longo do caminho que talvez elas encontre a resposta para algo em suas vidas.

Pôster de divulgação: Para Ter Onde Ir

Pôster de divulgação: Para Ter Onde Ir

SINOPSE

No Pará, a história de três amigas inseparáveis e completamente diferentes: Eva Maués, uma mulher formal e madura cheia de incertezas; Melina Ribeiro, uma mulher livre que busca o grande amor; e Keithylennye, que por infortúnios da vida teve que abandonar sua adorada função de dançarina de tecnobrega.

DIREÇÃO

Jorane Castro Jorane Castro

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Jorane Castro
Título Original: Para Ter Onde Ir
Gênero: Drama
Duração: 1h 40min
Classificação etária: 14 anos
Lançamento: 10 de maio de 2018 (Brasil)

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