PRESSÁGIOS DE UM CRIME (Crítica)

PRESSAGIOS DE UM CRIME

4emeio

Por Juca Claudino

QUANDO É O SUBCONSCIENTE QUE CRIA O SUSPENSE

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Os thillers policiais marcaram muito o cinema de gênero nos EUA durante toda a sua história. Para provarmos isso, é só revermos os fatos: seja com filmes nos anos de ouro da Hollywood pós-guerra – como no noir “Relíquia Macabra” (de John Huston) ou em clássicos de Hitchcock como “Janela Indiscreta” -, seja no final do século XX como em “O Silêncio dos Inocentes” (Jhonatan Demme) ou mais recentemente como em “Garota Exemplar” (David Fincher), os “crime thrillers” sempre figuram, algumas vezes mais, outras nem tanto, entre a produção cinematográfica desse país. E nesse “Presságios de um Crime”, toda essa tradição cultural é homenageado em um filme cheio de incerteza e tensão, com alguns clichês de seu gênero: um envolvente e perturbador suspense que, construído à base do mistério por trás dos crimes cometidos, contracenando com o drama psicológico dos personagens principais, gera uma angústia verdadeiramente sinistra. Além do mais, o diretor do filme, Afonso Poyart, reafirma que todo o visual estiloso de seu longa de estreia, “2 Coelhos”, não é mera coincidência: a colcha de retalhos meio psicodélica e extravagante, cheia de referências, torna-se sua grande assinatura. Poyart, aqui, constrói um suspense que utiliza muito da nostalgia e faz ótimo uso do terror psicológico para realizar um estudo de personagens, ao mesmo tempo que constrói uma narrativa cativante.

Quando lançado em 2011, “2 Coelhos” chamava a atenção da crítica pois podia significar uma nova cara do cinema de gênero brasileiro, mais diversificado e, inclusive, com maiores pretensões comerciais. O filme de estreia de Afonso Poyart trazia uma estética cheia de referências a cultura pop, uma narrativa que brincava com sua não-linearidade, um tom surrealista e uma extravagância “pulp”. Todavia, o filme não foi tão bem assim na sua arrecadação, ficando abaixo do que a produção da película esperava. Se de um lado isso pode ter feito com que o investimento em novos ares e mais diversidade no cinema de gênero nacional tenha sido contido (menos do que se esperava a partir de “2 Coelhos”), a película brasileira teve repercussão internacional e, nas palavras de seu diretor, foi um impacto positivo em sua carreira. Provavelmente, deve ter mais certeza disso agora em que concluiu seu primeiro projeto internacional (contratado após chamar atenção com seu primeiro longa), “Presságios de um Crime”. Nele, consegue afirmar que sim, é um diretor que tem sua autenticidade, sua assinatura: embora aqui faça um suspense e não um filme recheado de sarcasmo e humor, mantém uma colcha de retalhos cheia de referências (o filme ganha bastante nostalgia com isso) e seu quase surrealismo se esforça para criar (de forma bem-sucedida) uma “psicodelia” amedrontadora.

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O filme é nostálgico. Traz clichês como, por exemplo, a figura de policiais um tanto “noir”, com um Jeffrey Dean Morgan remetendo aos personagens de Humphrey Bogart em filmes como “O Falcão Maltês” (com um pouco menos de elegância, devemos falar) e uma Abbie Cornish lembrando muito a agente Clarice Starling (memoravelmente interpretada por Jodie Foster), em um jogo de pistas cujo objetivo é alcançar um criminoso genial e impecavelmente minucioso. Na verdade, a atmosfera sofisticada do suspense tem um quê de “noir”, com uma fotografia fria e pessimista que realça ainda mais esse ambiente clássico ao gênero. Todavia, quanto aos personagens, deve-se, indiscutivelmente, dar um destaque a John Clancy, interpretado por um ótimo Anthony Hopkins que aqui justifica seu envolvimento tão denso no projeto de “Presságios de um Crime” a ponto de produzi-lo: Hopkins se sente à vontade fazendo suspenses, e se é de nostalgia que falamos, o próprio Poyart assumiu que o histórico Hannibal Lecter parece ser remetido nessa atuação de Tony (como Anthony Hopkins gosta de ser chamado), algo que ajudou na construção do suspense desse filme.

Os personagens de “Presságios de um Crime” são bem instigantes. Por mais que tenham clichês por trás de suas construções, não são personagens genéricos. Pelo contrário. O filme é um suspense psicológico também, e aos poucos, de pessoas superficiais partimos para as entranhas da origem de seus medos, gerando um estudo de personagens também. E é aqui que o filme consegue seu maior trunfo, a forma como ele desenvolve, progressivamente, esse seu aspecto psicológico, algo que ganha seu auge a medida em que torna-se o centro do filme: Colin Farrel faz o assassino, e suas motivações morais e psicológicas para fazer o crime acaba tornando-se o real grande mistério (o que, você sabe, não posso revelar). No final, temos um complexo de medos e traumas girando em torno de cada personagem, e todos eles afloram progressivamente, de forma catártica.

Alfonso Poyart fez um interessante trabalho nesse “Presságios de um Crime”: um thiller policial pautado no psicológico. É um filme pequeno, de pouco visibilidade e repercussão mas que, todavia, merece ganhar um espaço do nosso tempo, já que consegue realmente nos cativar com a sua narrativa, o seu desenvolvimento, o seu estudo de personagem e a sua maneira de lidar com os mistérios. Com um Anthony Hopkins atuando muito bem em um lugar que adora estar (filmes de suspenses, com personagens atordoados), dá um tom sinistro elogiável ao filme. Ainda esse ano, Poyart estreia sua próxima produção, um drama sobre a vida do lutador José Aldo (intitulado “Mais Forte Que o Mundo”).

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SINOPSE

Dois detetives do FBI, Joe Merriwether (Jeffrey Dean Morgan) e Katherine Cowles (Abbie Cornish) perseguem um serial killer conhecido por matar suas vítimas com um objeto perfurante na nuca, sem deixar vestígios na cena do crime. Diante da ausência de provas, Joe pede ajuda ao seu amigo pessoal, o Doutor John Clancy (Anthony Hopkins), um poderoso vidente que vive isolado desde a morte de sua filha. Aos poucos, este novo investigador ajuda os policiais a entender a mente do assassino (Colin Farrell), até fazer uma descoberta importante: o homem responsável pelas mortes também é um vidente, ainda mais esperto que John. Pior do que isso, ele está sempre um passo à frente nas investigações.

DIREÇÃO

[do action=”cast” descricao=”Afonso Poyart” espaco=”br”]Afonso Poyart[/do]

FICHA TÉCNICA

Roteiro: Sean Bailey, Ted Griffin
Título Original: Solace
Gênero: Suspense, Policial
Duração: 1h 42min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 14 Anos
Lançamento: 25 de fevereiro de 2016 (Brasil)

TRAILER

ENTREVISTA | AFONSO POYART

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3 Comentários

  1. Nilberto Nilson

    Só uma correção, meu caro, a personagem de J. Foster em “Silêncio…” é Clarice Starling! a Lispector é nossa escritora brasileira. Mas acredito ter sido somente uma ato-falho e parabéns pelo texto!

    • Kadu Silva

      Olá Nilson

      Realmente foi um pequeno erro que passou despercebido, mas já foi alterado. Obrigado por avisar.
      E agradeço pela visita, volte sempre.
      Abraço!